domingo, 25 de setembro de 2016

Jardim Cinema


"451º Fahrenheit" de François Truffaut

Foi num cinema de Bairro que vi uma curta-metragem de Lauro António intitulada “Vamos ao Nimas” e nela era-nos dado a conhecer esse ambiente tão característico do chamado Cinema de Bairro, que oferecia quase sempre dois filmes numa sessão.
Muitos desses filmes vinham num prolongamento ou continuação de estreia, após terem feito a sua passagem pelas salas de estreia da capital, muitas delas na época verdadeiras catedrais cinematográficas, como sucedia com o Monumental, o Tivoli e o Império, só para citar algumas.


 Jardim Cinema

Morando eu na zona de S. Bento, tinha três salas que frequentava com regularidade: o Paris (já desaparecido), o Cinearte (hoje sala de Teatro) e o célebre Jardim Cinema (hoje em dia mais uma dessas lojas intituladas de "megastore"). E digo célebre porque ele tinha no seu interior um magnifico Salão de Jogos, com os seus bilhares, matraquilhos, entre outros jogos, nunca esquecendo a célebre pista de mini-carros onde se participava em verdadeiras competições, com a célebre moeda de vinte e cinco tostões. Eram 60 voltas com inúmeros despistes, chegando até muitos de nós a levar os seus próprios bólides, “religiosamente” tratados para essas fabulosas corridas, como fazia um primo meu.



As célebres cadeiras "palhinhas"  
e ao fundo da sala a zona das denominadas poltronas.

No entanto era o Cinema o meu principal ponto de interesse e aquela sala tinha um verdadeiro predicado, porque a maioria das cadeiras eram compostas por cadeiras de palha, as famosas palhinhas que na época custavam quatro a cinco escudos, existindo mais atrás uma outra zona onde se situavam as então chamadas poltronas (as cadeiras habituais nas salas de espectáculo) a seis escudos.
A sala era grande e possuía dois bares, um do lado direito quando se entrava na sala e o outro por debaixo da sala, muito mais extenso. E foram muitas as tardes em que eu entrava para a sessão das três horas e saía feliz às sete da noite, sempre maravilhado com filmes que ía descobrindo. É claro que nessa época ainda não fixava o nome dos realizadores, mas sim dos actores e como sempre fui bastante alto, lá passava, sozinho ou acompanhado pelo meio da multidão para ver os filmes para maiores de 12 anos.


"O Ouro de Mackenna" / "Mackenna's Gold"
de J. Lee Thompson, um filme descoberto no Jardim Cinema

Geralmente o nosso destino eram as poltronas, mas quando se gastava mais uma moeda nas corridas de carros, as célebres palhinhas esperavam por nós, até esse dia em que descobrimos que havia umas poltronas mais perto do écran, intituladas plano A, que passaram a fazer as nossas delícias.
Por vezes a fita partia-se e de imediato se ouvia burburinho na plateia, dirigido ao pobre projeccionista, mas o pior foi nesse dia em que estávamos todos agarrados a um policial, em que o herói estava sentado no avião e de súbito o célebre “mau da fita” saiu da casa de banho do avião de pistola em punho, dirigindo-se ao detective… e no écran surge a palavra intervalo!!!
Foi uma verdadeira revolta na “Bounty” no interior da sala e nós caladinhos, só não queríamos dar nas vistas, para vermos em paz o filme seguinte que era um desses “western” que faziam as nossas delícias, o que conseguimos, depois dos ânimos serenarem.


 Gregory Peck e Omar Shariff num western
que ofereceu a José Feliciano um hit memorável!

Mas se me perguntarem qual o filme que mais marcou nesta sala verdadeira mágica, ele foi o filme de François Truffaut intitulado “Fahrenheit 451”. Tinha na época nove anos e aquela história onde os livros eram proibidos marcou-me para sempre. Recordo-me que regressei a casa a meditar no assunto, eu que adorava livros e tinha a casa repleta de livros, nunca iria querer viver naquela sociedade e comecei a pensar qual o homem livro que iria desejar ser e rapidamente escolhi “Um Dia Diferente” do John Steinbeck, um livro que a minha mãe tinha comprado em edição da Bertrand, que ainda mora na minha companhia, um livro que Steinbeck escreveu para oferecer aos personagens do seu livro “Bairro da Lata” uma personagem feminina e lhes proporcionar uma nova vida. O cineasta/argumentista David Ward, irá levar ao cinema estes dois livros num único filme, através de um excelente argumento cinematográfico.


 Em "Fahrenheit 451" eu seria o homem livro
"Um Dia Diferente" de John Steinbeck

Dos actores que surgiam no filme de François Truffaut, “Fahrenheit 451”. só conhecia a Julie Christie que para mim, nessa época, representava a personificação de beleza, depois de a ter visto semanas antes no Cinema Monumental no “Longe da Multidão” / “Far From the Madding Crowd”, na companhia da minha mãe.
O facto de a Julie Christie, no filme, interpretar duas personagens surpreendeu-me no início, mas depois lá percebi a história. Muitos anos depois, “Fahrenheit 451” (adaptação ao cinema do famoso livro de Ray Bradbury) permanece um dos meus filmes preferidos do François Truffaut.


 Impossível esquecer a primeira vez que vi,
"Agente Secreto 007" / "Dr No", no Jardim Cinema!

E, com o passar dos anos, o Jardim Cinema passou a chamar-se Monte Carlo e as palhinhas desapareceram levando consigo as sessões de dois filmes, mais tarde o cinema partiu definitivamente e o Jardim Cinema passou a sala de espectáculos, mas já nada era como dantes. E mesmo quando ali assisti a um concerto da Suzanne Vega ainda no seu início de carreira, ao escutar as suas canções só me lembrava desses tempos em que se vivia o cinema como se ele fosse a mais bela e maravilhosa aventura de sempre. Hoje o extinto Jardim Cinema é mais uma dessas megastores que habitam Lisboa.

4 comentários:

  1. É uma pena quando estas salas fecham e dão lugar a outras realidades.
    Não me lembro se vi este filme. Mas o título dele existia em livro na casa dos meus pais.
    Boa noite!:))

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    1. Este cinema de bairro é a sala de cinema da minha infância. No que diz respeito ao filme de François Truffaut, “Fahrenheit 451”,baseado no livro de Ray Bradbury, será abordado aqui no blogue na próxima quarta-feira. Também li o livro muitos anos depois e recentemente vi o filme que teve edição em dvd e tenho que confessar que o trabalho de Truffaut na adaptação da obra literária é magnifico.
      Obrigado pela visita e comentário:)

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  2. Também fui algumas vezes ao Palhinhas. Tinha (e tenho) um amigo que morava na Estrela. :)
    Vi o Fahrenheit 451, mas não foi lá.
    Boa noite!

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    1. O "Palhinhas" foi um dos cinemas da minha infância e sempre que passo por lá sinto uma certa nostalgia por esses tempos. O cinema "Paris" foi outra das salas e o sentimento é idêntico.
      Obrigado pela visita e comentário.
      Bom dia

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