segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Jacques Tati – “O Meu Tio” / “Mon Oncle”


Jacques Tati – "O Meu Tio" / "Mon Oncle"
(FRANÇA – 1958) – (110 min. / Cor)
Jacques Tati, Jean-Pierre Zola, Adrienne Servantie, Alain Bécourt, Lucien Frégis, Dominique Marie.

Todos temos as nossas memórias de cinema e o meu primeiro encontro com Mr. Hulot foi precisamente na praia, ou melhor nessa obra intitulada “As Férias do Sr. Hulot”. Pela primeira vez na minha vida percebi como a banda sonora (o som ambiente e o tratamento dos diversos ruídos) de um filme era tão importante. Conheci então essa personagem inesquecível, sempre com o seu cachimbo e o seu célebre chapéu, mais tarde viria a famosa gabardina, sempre em companhia desse prestável elemento contra as intempéries que é o chapéu-de-chuva.


“As Férias do Sr. Hulot” / “Les vacances de Monsieur Hulot” seria o filme anterior a “O Meu Tio” / “Mon Oncle”, recorde-se que nas "Férias..." tínhamos o preto e branco e aqui navegamos na cor e nesse território que só ele soube caracterizar, chamado “a vida moderna”. Jacques Tati é um dos maiores cómicos franceses de todos os tempos e não dizemos o maior porque existiu essa figura chamada Max Linder. Muitos dirão que este último é do mudo mas Chaplin, Buster Keaton, Laurel e Hardy também o são, ou melhor começaram nele e se Laurel e Hardy nos ofereceram esses personagens conhecidos entre nós como “Bucha e Estica”, já Buster Keaton era o célebre Pamplinas, essa personagem que nunca se iria rir ao longo da sua carreira, autor de obras-primas maravilhosas, recorde-se esse “Young Sherlock Holmes” de Buster Keaton, (sobre o qual já aqui escrevemos), onde Woody Allen foi buscar as ideias para o seu “A Rosa Púrpura do Cairo” / “The Purple Rose of Cairo” e Keaton, tão esquecido e tão apreciado, até foi protagonista de um filme realizado por Samuel Beckett, eles foram os grandes mestres do burlesco (Harold Lloyd é outro).


Com a chegada de Jacques Tati ao género, nasceu uma personagem única na História do Cinema, fruto do seu poder de observação do pequeno mundo que nos rodeia, mas nada melhor como lhe dar a palavra. “Na escola estava sempre na última fila das carteiras, por ser muito alto. Dali eu via o professor, sentado solenemente na sua cadeira, bem arranjado, sisudo mas amigo. Um dia, fiz uma asneira e fui castigado. Da última fila, onde o meu ponto de vista era sempre igual, passei ao canto da sala, por detrás do professor. E então passei a ver outras coisas, outras realidades: o professor que coçava um pé com o outro, que batia com os pés no chão marcando invisíveis compassos, que descalçava os sapatos quando fazia calor, etc, etc. Como tinha muito tempo livre comecei a observar. Creio que nesta observação, neste hábito de ver as coisas pelos dois lados, começou verdadeiramente Monsieur Hulot,”


E será esse fabuloso poder de observação que irá acompanhar Jacques Tati ao longo da sua carreira, criando gags atrás de gags que, vistos hoje, mais de cinquenta anos depois (“O Meu Tio” / “Mon Oncle” é de 1958 – vencedor do Oscar para o Melhor Filme Estrangeiro/1959), nos levam a rir até às lágrimas, ao mesmo tempo que somos obrigados a reconhecer a sua genialidade. Mas nem só de gags perfeitos vive o cinema de Jacques Tati, porque ele possui uma mordacidade enorme sobre a técnica (recordam-se de Chaplin em “Tempos Modernos” / “Modern Times” (sobre o qual também já aqui falámos)) e a evolução dos tempos. Tal como Charlot, o senhor Hulot criado por Jacques Tati olha todos os objectos criados pelo homem moderno com a curiosidade do inocente que se interroga espantado perante o que encontra, recorde-se esse gag na cozinha da irmã e do cunhado, nessa casa ultra-moderna em que o jarro de água em vez de se partir salta no chão, o que levará a sua inocente curiosidade a deixar cair também um dos copos em busca do mesmo efeito, revelando-se este ser de vidro e ficando estilhaçado no chão.


“O Meu Tio” / “Mon Oncle” irá oferecer-nos esse pequeno mundo ultra-moderno da família Arpel (a irmã e o cunhado do senhor Hulot), através do espaço onde habitam. Veja-se a casa onde vive Hulot, no topo desse velho prédio tão caracteristicamente francês e a famosa Villa dos Arpel, espelho da modernidade, mas também condicionante dos movimentos dos seus habitantes, seja a família, os amigos ou os vizinhos, repare-se nas caminhadas pelos espaços do jardim e as pedras indicadoras do caminho a tomar. Mas, para além dessa famosa casa, os Arpel têm uma criança que adora o tio e será através desses passeios entre tio e sobrinho que Jacques Tati nos irá dar um outro retrato, o dos subúrbios de Paris dessa época: o varredor que só conversa, as carroças no mercado, os habitantes do seu bairro/prédio, com a inevitável porteira e o eterno café. Tudo isto nos é oferecido com a mais bela naturalidade.


Com este filme, Jacques Tati entra decididamente no mundo citadino: se em “Há Festa na Aldeia” / “Jour de Fête”, estávamos no campo, em “As Férias do Sr. Hulot” / “Les vacances de Monsieur Hulot” era a praia e os seus elementos a referência, aqui em “O Meu Tio” / “Mon Oncle” temos a cidade, embora ainda não seja essa cidade perfeita idealizada pelo cineasta para o fabuloso “Playtime” / “Vida Moderna”, que lhe irá arruinar a carreira, hoje o seu génio é reconhecido por todos, mas aquando da estreia de “Playtime” / “Vida Moderna”, o público não aderiu e não nos esqueçamos que Jacques Tati construiu uma verdadeira cidade para o filme.
Por outro lado, será sempre de realçar que este Mestre do Cinema elaborava todos os seus filmes até ao pormenor, trabalhando cuidadosamente todos os aspectos da sua feitura, daí o facto de eles surgirem bastante espaçados no tempo. “Não posso fabricar filmes como se fossem pães. Não sou padeiro. Eu observo o viver das pessoas, passeio. Escuto os diálogos, observo os tiques, o pormenor, a maneira de ser que revelam a personalidade de cada indivíduo.”, confessou Tati um dia, numa entrevista.


Em “O Meu Tio” / “Mon Oncle”, iremos assistir à forma como o mundo moderno subjuga a família Arpel no seu quotidiano e também na forma como ela encara a sociedade em que vive, reparem apenas nesse enorme peixe-repuxo colocado no pequeno lago no jardim, que só é ligado quando alguém lhe bate à porta, mas se a pessoa em questão não for da sua classe social, ele é de imediato desligado. Depois temos os vizinhos dos Arpel e a famosa festa dada no exterior da casa, após conhecerem o interior da célebre vivenda. Nada escapa ao olhar de Jacques Tati, até a moda, que leva a anfitriã a confundir a vizinha do lado com um vendedor de tapetes e depois toda a cerimónia que será invadida pela avaria no repuxo. Por outro lado a classe média surge aqui alvo da mordacidade do Mestre do Cinema Francês, através de um sorriso profundamente inocente, digno do seu sobrinho Gerald.



Jacques Tati

“Mon Oncle” / “O Meu Tio” revela-se uma película para todas as idades, em que cada um irá tirar as suas próprias conclusões sobre esta sociedade em que vivemos. Imaginem só os gags que Jacques Tati iria criar se vivesse numa sociedade em que o telemóvel se revela uma fonte de ruído permanente no quotidiano, para já não falarmos nessas conversas a que somos obrigados a “assistir” diariamente nos mais diversos locais públicos. O Mestre Jacques Tati é inesquecível na História do Cinema.

4 comentários:

  1. É-me tão difícil escolher um Tati favorito! Talvez este, pela casa, pela inocência, pelo copo!!!

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    1. A sequência do copo é inesquecível! Jacques Tati é um génio, que merece ser descoberto pelas novas gerações:)

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  2. Respostas
    1. Quem vê um filme de Tati, nunca mais se esquece deste génio do cinema!

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