quarta-feira, 28 de setembro de 2016

François Truffaut – “Grau de Destruição” / “Fahrenheit 451”


François Truffaut – "Grau de Destruição" / "Fahrenheit 451"
(ING. – 1966) – (112 min. / Cor)
Oskar Werner, Julie Christie, Cyrill Cusak, Bee Duffell.

Este texto é feito de memórias, memórias a duas vozes, memórias de livros e filmes. Como atrás escrevi, todos temos as nossas memórias (sei que é a quarta vez que escrevo a palavra) e as de infância são aquelas que nos oferecem um maior carinho, por essa mesma razão são dos livros e dos filmes que guardo um amor profundo. Desde que me conheço, sempre tive um livro na minha companhia e qualquer lugar servia para o “devorar”, depois o meu quarto secreto era a sala de cinema e aí vivia intensamente as aventuras e paixões dos meus heróis, da mesma forma que relia sempre os livros que mais amava.


Nessa época via ao fim-de-semana, no cinema, três a quatro filmes, a minha idade ainda só tinha um dígito, mas como era alto entrava nas sessões para maiores de 12 anos, acompanhado de um familiar nos cinemas ditos de “primeira” e já sozinho nos cinemas do bairro “Jardim Cinema" e "Paris” e naquele dia ali estava eu para ver mais dois filmes (reposições) de uma assentada. Do primeiro já não me recordo, a não ser que era um policial a preto e branco, mas o segundo chamava-se “Grau de Destruição” e nunca mais me esqueci dele, porque naquela sociedade era proibido ler livros e aquele universo meteu-me mesmo medo. Na época ainda não tinha lido o “1984” do George Orwell, mas a leitura de “Ilha de Verão” do Erskine Caldwell tinha-me aberto os horizontes literários.


Recordo-me que andei profundamente perturbado após o final do filme, falando com familiares sobre o assunto, até que algum tempo depois, quando comecei a ler sobre cinema e a fixar os nomes dos cineastas, descobri perplexo que o autor do filme era François Truffaut. Ao longo da vida tenho lido sobre os seus filmes e a sua vida, Paris é o lugar ideal para adquirirmos livros sobre ele, numa livraria situada nos Grands Boulevards junto ao Museu Grévin, avenida essa onde em tempos se situou uma das salas da Cinemateca Francesa, descobri, na primeira vez que fui a Paris, um universo de livros sobre este genial cineasta.


“451 Fahrenheit” / “Grau de Destruição” é baseado numa novela de ficção-cientifíca de Ray Bradbury, passando-se a acção numa sociedade totalitária dominada pelo audiovisual e onde os livros são proibidos, porque a sua leitura provoca a infelicidade do ser humano, por essa razão o dever é denunciar às autoridades todas as pessoas que sejam detentoras de livros para impedir que o mal transmitido por eles invada a sociedade. A televisão, com os seus programas transmitidos em écrans gigantes, especialmente os concursos, oferecem aos cidadãos todos os seus desejos, a felicidade é assim oferecida pelo Estado. E para combater o mal existe a polícia/bombeiros cuja acção é prender todos os cidadãos que possuam livros e queimar todas as publicações, à temperatura de 451º Fahrenheit.


Montag (Oskar Werner) é um desses bombeiros, ágil na manipulação do lança-chamas, que vive para o seu trabalho, enquanto a sua esposa Linda (Julie Christie) fica em casa a ver os programas da televisão, esse “Big Brother” controlador do pensamento.
Ao regressar a casa no metro-aéreo (linha inaugurada na época em Londres), Montag encontra uma rapariga chamada Clarisse (Julie Christie, a actriz interpreta as duas personagens no filme) e a pouco e pouco começam a conversar e um dia ela pergunta-lhe se ele não tem curiosidade em ler um dos muitos livros que queima. A questão é um verdadeiro tabu para Montag, mas o desejo do fruto proibido leva-o um dia a ficar com um dos muitos livros que queima e decide ler a obra que guardou "religiosamente", descobrindo um universo até então desconhecido para ele. Assim, através de Clarisse vem a saber que existem livros fabulosos e que algumas das pessoas que se cruzam com ele possuem bibliotecas em casa, escondidas no interior de falsos televisores, móveis e paredes falsas. A atracção de Montag pelos livros leva-o ao território da Literatura e um dia confessa em casa, numa reunião com amigas da mulher, o fascínio maravilhoso oferecido pela leitura. Linda, a sua mulher, de imediato ameaça denunciá-lo.


Alguns dias depois, em mais uma acção de extermínio de livros, Montag invade a casa de uma velha senhora (Bee Duffell), amiga de Clarisse e quando se preparam para queimar a enorme biblioteca que ela possui, um verdadeiro achado para o capitão (Cyrill Cusack), ela recusa-se a sair e morre queimada com os livros que tanto ama. Perante isto Montag revolta-se e termina por matar o chefe com o lança-chamas, partindo em fuga para um território desconhecido de todos, um local perdido onde habitam os homens-livros de que Clarisse lhe falou, local esse onde ela já se encontra refugiada. Aí ele irá encontrá-la e viver em Paz com os outros homens-livros. Cada um deles tem a missão de decorar o livro preferido, adoptando como seu o nome do título da obra que elegeu como a mais amada. Mas numa sociedade totalitária o Estado tem sempre que sair vencedor, mesmo que isso não suceda e assim a televisão transmite em directo a morte de Montag, para serenar as "boas consciências".


Ray Bradbury, ao escrever a sua obra “451º Fahrenheit”, partiu desses verdadeiros “autos de fé” feitos na Alemanha pelos Nacionais-Socialistas, após terem chegado ao poder, mas se olharmos para muitas das sociedades ainda existentes no mundo, infelizmente assistimos ainda a esta triste realidade, não só no Médio-Oriente, como em muitos outros lugares por esse planeta fora, porque a leitura faz-nos pensar e o mais importante é não pensar.


François Truffaut, que durante toda a sua vida “devorou” tanto livros como filmes, sentiu-se profundamente fascinado pelo livro de Ray Bradbury e seria em Inglaterra, no mesmo Estúdio onde Charles Chaplin rodava “A Condessa de Hong-Kong”, que ele iria adaptar ao grande écran esta obra fabulosa, entrando pela primeira e única vez no universo da ficção-cientifíca, recorde-se que no ano em que ele decidiu partir para este filme lhe foi oferecida a hipótese de adaptar para o grande écran “Em Busca do Tempo Perdido” de Marcel Proust, mas ele recusou porque era impossível “partir aos bocados a obra de Proust como se ela fosse uma madalena”.


A rodagem do filme foi de certa forma atribulada com o actor Oscar Werner, que já tinha trabalhado com François Truffaut em “Jules e Jim”, chegando ao ponto de não se cumprimentarem no local de filmagens, isto depois de alguém ter acendido um lança-chamas atrás do actor, sem o avisar. Uma aposta curiosa do cineasta foi ter oferecido a Julie Christie as duas personagens femininas, Linda e Clarisse, de forma a realçar o fascínio que Montag encontrava na desconhecida, tão parecida com a mulher com quem partilhava a vida.


Um dos problemas levantados pelos produtores, durante a rodagem, foram os títulos dos livros visíveis a serem queimados, mas François Truffaut contornou o problema e conseguiu que os seus livros mais amados e lidos ao longo de uma vida surgissem bem destacados, através do plano de pormenor usado. Durante a sua juventude muitos dos amigos se interrogavam se ele não iria enveredar por esse género denominado “jornalismo cultural”, mas Truffaut terminaria por optar pelo cinema como todos sabemos, depois dessa estranha aventura que foi o seu serviço militar, que culminou em prisão e tentativa de suicídio.
Para concluir, apenas uma curiosidade: quando Montag parte a pé através da linha-férrea abandonada que o irá levar a esse território de homens/mulheres livres ou homens/mulheres livros, ao sair do túnel começa a nevar, nesse território de liberdade. A neve não estava no “programa” e chegou devido às condições climatéricas, que foram alteradas de forma imprevista, como se o filme fosse de repente abençoado e o cineasta em vez de interromper as filmagens, decidiu continuar a rodagem naquelas condições, transmitindo uma magia perfeita.


Durante as filmagens, François Truffaut foi escrevendo um dos seus célebres diários de rodagem, mais tarde publicado na revista “Cahiers du Cinema” e editado há poucos anos em livro (acompanha o guião de “A Noite Americana”, também editado pelos “Cahiers du Cinema”), aqui fica uma montagem desse diário pela escrita/voz de François Truffaut:


“«Fahrenheit 451» é extraído dum romance de Ray Bradbury que eu li nos finais de 1960 e de que adquiri os direitos em meados de 1962. Porque é que tive de esperar três anos e meio antes de o filmar? Apenas por razões de dinheiro (…) Se o filme se pode fazer é graças ao apoio de Oscar Werner e de Julie Christie que, no decurso destes últimos meses se tornaram em grandes vedetas internacionais. (…)
Na verdade neste filme, como em todos os que são extraídos dum bom livro, metade pertence ao seu autor Ray Bradbury. Foi ele que inventou os incêndios dos livros que vou ter tanto prazer de filmar. Foi por causa deles que quis fazer este filme a cores. Uma velha que prefere morrer queimada com os seus livros a separar-se deles, o herói que “ama” o seu chefe são tudo coisas que gosto de ver no écran, que gosto de filmar, mas que a minha imaginação demasiado ligada ao real, não podia conceber. (…) Evidentemente será um bocado absurdo fazer de «Fahrenheit 451» um filme histórico e no entanto não deixo de me virar para esse lado. Retomei os telefones de Griffith, os fatos de Carole Lombard e de Debbie Reynolds, o carro de bombeiros de Mr. Deeds (1).
(…) Sabia que «Fahrenheit 451» ía ter inconvenientes, como qualquer filme. No caso em questão, personagens nem muito reais, nem muito fortes, devido ao carácter excepcional da situação. O principal perigo das obras de ficção científica é sacrificar todo o postulado. (…) A mim é que me cabe lutar contra isso, tentando organizar a vida no écran.
(…) Queria que «Fahrenheit 451» não parecesse nem um filme jugoslavo, nem um filme americano, de esquerda. Queria que fosse modesto, apesar do «grande assunto», um filme simples. (…) Aqui, no caso de «Fahrenheit 451», tratava-se de tratar de uma história fantástica com familiaridade, banalizando as cenas muito estranhas e anormalizando as cenas quotidianas. Não sei se o resultado dará a impressão dum filme normal rodado por um louco ou dum filme louco rodado por um homem normal, mas tenho a convicção que escrevendo um livro ou rodando um filme, somos anormais que dirigimos um discurso a pessoas normais. Às vezes a nossa loucura é aceite, outras vezes é recusada.”

François Truffaut


E assim nasceu uma das obras-primas desse amante do Cinema, mas também da Literatura,  chamado François Truffaut.


Nota: Se desejar conhecer melhor a vida e obra de François Truffaut recomendamos vivamente a leitura da obra “François Truffaut” publicada pela “Folio” e da autoria de Antoine de Baecque (Historiador dos Cahiers du Cinema) e Serge Toubiana (Director da Cinemateca Francesa), são cerca de 900 páginas que se devoram como um romance!

(1) – Filme de Frank Capra

4 comentários:

  1. Eis um filme que me perturba profundamente. Um mundo sem livros? Impensável!! Eu teria que ser o "Orgulho e Preconceito" e claro que fugiria para esse mundo de mulheres/homens-livro, caso o domínio mundial quisesse o extermínio das minhas pásginas tão queridas!

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    1. Foi um filme que marcou a minha infância e nunca mais me esqueci dele.
      Beijinhos

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  2. Vi o filme, na televisão, quando era muito pequena (10 anos, talvez). Guardei pormenores na memória. Mais tarde, bem mais tarde, li o livro. Hoje, um e outro, são referências constantes.

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    1. Como digo na crónica vi o filme em criança e só muitos anos depois li o livro, gosto de ambos, mas acho o filme, devido à força das imagens e aos títulos que se vêm a ser queimados, muitos deles conhecidos como os livros da vida do cineasta, que pertence a essa geração que quase não dormia para ler os livros dos autores que admirava, de uma força enorme. Como dá para perceber, este é um dos filmes da minha vida.
      Obrigado pela visita e comentário
      Bom dia.

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