sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Debra Winger – Parte 2


"The Sheltering Sky" / "Um Chá no Deserto"

Quando Bob Rafelson decidiu juntar Debra Winger e Theresa Russell em “A Viúva Negra” / ”Black Widow”, sabia que estava a criar um cocktail explosivo e, talvez por isso mesmo, o cineasta ofereceu a Debra Winger a possibilidade de escolher uma das duas personagens principais, já que estamos perante um duelo ou melhor dizendo um “thriller” no feminino. Este filme, um pouco ignorado na sua época, merece ser redescoberto não só pelo cineasta, mas também pelas interpretações.


"Black Widow" / "A Viúva Negra"

No ano seguinte seria a vez de Costa Gavras, então a filmar na América, de a convidar a reinterpretar de certa forma a personagem do seu filme anterior, uma agente do FBI, mas desta vez num filme profundamente político, intitulado "Atraiçoados" / "Betrayed", com Tom Berenger no protagonista, tendo o argumento a assinatura do célebre Joe Eszterhas, que retrata a extrema-direita norte-americana, revelando o seu “way of life” igual ao de tantos americanos dessa América profunda, que muitas vezes decide os destinos da nação americana, mas escondendo no seu interior ideologias profundamente extremistas e perigosas. Estamos perante mais um filme a descobrir ao lado da primeira película de Tim Robbins, esse falso documentário intitulado “Bob Roberts - O Candidato” / “Bob Roberts”, que aborda de forma diferente o mesmo tema..


"Betrayed" / "Atraiçoados"

No início dos anos noventa, Debra Winger reencontra Nick Nolte no filme de Karel Reisz, “Corrupção na Cidade” / “Everybody Wins”, baseado na peça de Artur Miller. Chegamos assim ao nosso filme favorito da Mary Debra Winger, “The Sheltering Sky” / ”Um Chá no Deserto” de Bernardo Bertolucci, baseado na obra-prima literária de Paul Bowles já editada em Portugal com o título “O Céu que nos Protege” e que, de certa forma, retrata alguns aspectos biográficos da vida do próprio escritor e da sua mulher Jane Bowles (também ela escritora e dramaturga). Curiosamente Bernardo Bertolucci convoca o próprio Paul Bowles para o interior da sua película como observador da sua criação literária.


"The Sheltering Sky" / "Um Chá no Deserto"
(magnifica adaptação cinematográfica do 
genial romance de Paul Bowles!)

Debra Winger nunca esteve tão bem e a sensualidade que transporta no seu olhar invade o universo inevitavelmente. Mesmo nas cenas trágicas, em que a morte começa a visitar Port (John Malkovich), a figura de Kit (Debra Winger) irradia uma frescura só possível de encontrar nos oásis perdidos no interior do deserto e mesmo quando ela por fim regressa à civilização é o seu olhar ferido e comovente que nos fica na memória, com as suas simples e profundas marcas de luta pela sobrevivência.


"Everybody Wins" / "Corrupção na Cidade"

Mas as suas escolhas seguintes, ao contrário de “Um Chá no Deserto” / “The Sheltering Sky”, acabariam por não deixar qualquer marca. “Leap of Faith” / “O Iluminado”, “Wilder Napalm” / “Fogo Indomável” e “Dangerous Woman” / “Uma Mulher Perigosa” foram esquecidas rapidamente e só nesse fantástico e inesquecível melodrama dos anos noventa, a revisitar o cinema clássico, intitulado “Shadowlands” / “Dois Estranhos, Um Destino”, assinado pelo conhecido cineasta britânico Richard Attenborough, reencontramos Debra Winger no seu melhor, interpretando a personagem mais comovente de toda a sua carreira, ao lado de Anthony Hopkins.


"Shadowlands" / "Dois Estranhos, Um Destino"
(o melodrama clássico revisitado com imenso saber!)

O filme retrata o romance do escritor C. S. Lewis (Anthony Hopkins) , autor de inúmeros livros infantis entre os quais as célebres "Crónicas de Narnia" e de Jay Gresham (Debra Winger), uma admiradora americana, que o decide visitar com o seu pequeno filho, para ambos conhecerem o autor das mais maravilhosas histórias de encantar. Mas a tragédia infelizmente também viaja com ela na bagagem, nesses distantes anos trinta. Estamos aqui perante um dos mais belos melodramas, fazendo-nos muitas vezes recordar esse dois grandes Mestres do género chamados Douglas Sirk e John M. Stahl.

(continua)

7 comentários:

  1. Shadowlands é uma maravilhosa pérola de cinema!

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    1. Concordo em absoluto. "Shadowlands" é um dos filmes mais comoventes que vi em toda a minha vida de cinéfilo.

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  2. "Shadowlands", como disse e bem a Paula, é uma pérola. Gostei imenso do filme e há uma frase que me marcou até hoje: "The pain now is part of the happiness then. That's the deal." Fica-nos a mensagem que vale a pena VIVER, mesmo que implique perda, saudade e nostalgia posteriores. Tendo a oportunidade de viver algo único e significativo é agarrar e ir. Que importa por quanto tempo? É viver, isso é o mais importante.
    Boa noite!

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    1. "Shadowlands" é um dos filmes mais comoventes que vi ao longo da vida e se desejar oferecer-lhe uma "companhia", será essa película incontornável intitulada "As Pontes de Madison County". "Shadowlands" possui todos os elementos que caracterizam o melodrama no cinema, mas com a diferença de que as personagens existiram, são de "carne e osso", sofreram e amaram e na verdade mais vale amar uma vez na vida por muito breve que seja o período concedido pelo destino, do que viver uma vida sem saber o que representa o amor.
      Obrigado pelo comentário e bom domingo:)

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  3. Já vi " A Viúva Negra" mais do que uma vez. As duas actrizes casaram muito bem aqui. :-)
    Gosto muito de Debra Winger e não sabia que tinha recusado papéis tão bons.
    Nunca vi "Um Chá no Deserto", mas depois deste post, fiquei com imensa vontade.:-)

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    1. "A Viúva Negra" é um filme magnifico, mas muito pouco conhecido ou recordado, já "Um Chá no Deserto" / "The Sheltering Sky", que recomendo vivamente, (irei falar dele muito em breve aqui no blogue) assim como o romance de Paul Bowles.
      As razões que levaram Debra Winger a recusar tantos filmes, até películas cujos cineastas criaram as personagens a pensar nela, pois até já tinham trabalhado juntos é um profundo mistério, mas o seu talento como actriz é inesquecível. :)
      Bom domingo

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    2. Terça-feira será publicada a crónica sobre o filme "Um Chá no Deserto":)
      Bom domungo

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