terça-feira, 20 de setembro de 2016

Bernardo Bertolucci – “Um Chá no Deserto” / “The Sheltering Sky”


Bernardo Bertolucci - "Um Chá no Deserto" / "The Sheltering Sky"
(ING / ITA - 1990) - (138 min. / Cor)
Debra Winger, John Malkovich, Campbell Scott, Jill Bennett, Timothy Spall.

Foi num daqueles dias em Paris, com a casa repleta de convidados, que Gertrud Stein chamou Paul Bowles e Jane para junto da janela e recomendou ao compositor e poeta que fosse até ao norte de África, percorrer as estradas, visitar Tânger e descobrir Marrocos em busca do sabor perfeito da Literatura. Eles assim fizeram e nunca mais voltaram, porque não partiram como turistas, mas sim como viajantes: - "um turista só pensa em regressar a casa, enquanto o viajante não sabe se regressa." (1)



E assim Paul Bowles viveu em Tânger desde finais dos anos quarenta até à sua morte em 1999. A sua casa serviu de ponto de passagem para toda uma geração de escritores e poetas norte-americanos, em busca da sua hospitalidade. Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, foram alguns dos que passaram por sua casa. E quando o seu romance "The Sheltering Sky" / “O Céu que nos Protege” foi publicado, transformou-se de imediato numa referência para inúmeras gerações, terminando por surgir a respectiva adaptação cinematográfica, tendo ainda espaço para navegar no interior do universo musical.


Jane e Paul Bowles

Música, interrogam-se alguns? Sim, meus caros amigos! Um dos mais belos temas instrumentais dos King Crimson, incluído no álbum "Discipline", chama-se precisamente "The Sheltering Sky" e recomendamos vivamente a sua audição. Já o livro, que foi dedicado por Paul Bowles à sua esposa Jane, possui uma bela citação de Eduardo Mallea: "O destino de cada homem só é pessoal na medida em que se assemelhar ao que já existe na sua memória." E se nunca leu o livro, recomendamos a sua descoberta e depois, se desejar, poderá sempre mergulhar na beleza musical criada por Ryuichi Sakamoto para o filme de Bernardo Bertolucci, uma das mais belas bandas sonoras do compositor japonês.


Bernardo Bertolucci tinha recolhido uma mão cheia de Oscars com "O Último Imperador"/”The Last Emperor” e todos sabemos como é difícil partir para o filme seguinte, depois de uma chuva de prémios e consensos. Ora o cineasta italiano seguiu o caminho traçado anteriormente, com o segmento "1900" (obra maior da sua filmografia) e "La Luna", um dos seus filmes mais intimistas da sua obra cinematográfica, Assim nasce “The Sheltering Sky” / "Um Chá no Deserto", com uma inesquecível fotografia de Vittorio Storaro, revelando-se uma das suas películas mais belas e perturbantes da sua filmografia.


A história de Pot Moresby (John Malkovich) e Kit Moresby (Debra Winger), assim como o "outro", o intruso consentido, representado por George Tunner (Campbell Scott) percorre o deserto em toda a sua plenitude e intensidade, originando a paixão e a perdição inerente a esse estado supremo do amor. Esta inesquecível história de amor possui como narrador o próprio escritor (Paul Bowles), que surge no início e no final do filme, fisicamente, contemplando os seus personagens, fruto da sua própria carne, já que tal como ele, Pot Moresby é compositor, assim como Kit Moresby é dramaturga, como a sua esposa Jane Bowles. O final é de um esplendor silencioso, quando Kit Moresby se dirige ao escritor em busca de um rumo para a sua existência.


"Um Chá no Deserto" / “The Sheltering Sky” possui, no seu interior, não só a genialidade de Bertolucci, mas também, como referimos anteriormente, a fabulosa fotografia de Vittorio Storaro, de uma sensibilidade extraordinária. É claro que alguns viram nisso exotismo e bilhete-postal de luxo, para europeu ver. No entanto, quem fez essa leitura e lhe chamou um filme falhado, não possui a menor ponta de sensibilidade para ler nas imagens a tragédia da fuga de dois seres no interior do deserto, narrado de uma forma exemplar. Será talvez o momento de fazermos uma nova leitura do romance e aproveitar a edição em dvd para reencontrar o percurso de Kit e Pot e descobrir essa bela e intensa  luz que ilumina a obra literária de Paul Bowles.


"The Sheltering Sky" / “Un Chá no Deserto” é um romance que tem sido amado pelo cinema desde sempre, pois tanto Robert Aldrich como Nicolas Roeg tentaram a sua adaptação para o grande écran e, se inicialmente, os actores apontados para dar rosto aos personagens no filme de Bernardo Bertolucci foram William Hurt e Melanie Griffith, pensamos que a escolha de John Malkovich e Debra Winger foi a mais acertada, já que ela respira sensualidade em cada gesto e ele possui no seu olhar a perdição e a inevitável redenção proporcionada pela imensidão do deserto.


Bernardo Bertolucci e Paul Bowles
(durante a rodagem do filme)

Nota: Se pretendem conhecer a obra literária de Paul Bowles, iniciem a leitura pela novela "Muito Longe de Casa" (editado pela Presença) e depois de estarem familiarizados com o calor do deserto, ataquem "O Céu Que Nos Protege" / "The Sheltering Sky" (editado pela Assírio e Alvim) e comparem com o filme de Bernardo Bertolucci; após terem ficado apaixonados pela escrita de Paul Bowles continuem com "Deixai a Chuva Cair" (editado pela D. Quixote) e então estão preparados para partirem tranquilamente através da obra literária deste fabuloso escritor, que a Editora Quetzal, tem estado a editar no nosso país.


Mas, se desejarem, também podem ler "Duas Senhoras Bem Comportadas" (editado pela Presença) de Jane Bowles. E após estas leituras todas retomem as personagens de Kit e Pot e vejam como elas se confundem com as de Jane e Paul.
No respeitante à banda sonora, aproveitem para escutar a música composta por Ryuichi Sakamoto e se tiverem curiosidade suficiente, após terem escutado os temas da autoria do próprio escritor, procurem a música que Paul Bowles foi compondo ao longo da sua estadia em Marrocos.

(1) - Bruce Chatwin foi outro viajante perfeito. 

2 comentários:

  1. Gostei muito deste post! Um percurso de descoberta em crescendo, muito prometedor e assaz interessante a diversos níveis.
    Boa tarde!

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    1. Li o livro muito antes de surgir o filme e depois foi a descoberta de um escritor verdadeiramente fascinante.
      Obrigado pelo comentário e boa semana:)

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