terça-feira, 27 de setembro de 2016

Alfred Hitchcock – “Chamada Para a Morte” / “Dial M for Murder”



Alfred Hitchcock – "Chamada Para a Morte" / "Dial M For Murder"
(EUA – 1954) – (105 min. / Cor)
Ray Milland, Grace Kelly, Robert Cummings, John Williams, Anthony Dawson.



“Chamada Para a Morte” / “Dial M for Murder” de Alfred Hitchcock é um daqueles filmes do Mestre que poucos tiveram a oportunidade de visionar da forma como foi pensado. E dizemos isto porque ele foi feito no sistema 3D, as célebres três dimensões, que possibilitava ao espectador viver sensações únicas no écran, embora Alfred Hitchcock tenha trabalho o sistema de forma diferente da usada por outros cineastas, já que estes o utilizaram acima de tudo para criar o medo no espectador, enquanto Hitch pretendeu dar mais ênfase à questão do suspense e composição do plano: veja-se a forma como ele nos oferece a conversa entre Ray Milland e Anthony Dawson, primeiro filmando-os de cima, para depois os captar ao nível do chão, criando para isso um pequeno fosso para o operador. Depois, como todos sabemos, o filme acabou por ser distribuído comercialmente, numa cópia normal, sem a magia das três dimensões, por todo o mundo.


Esta obra de Alfred Hitchcock marca também o seu encontro com Grace Kelly, essa loura “fria”, que tão bem escondia o “vulcão” que nela vivia, como nos “mostrou” o cineasta nessa noite de “fogo-de-artifício” em “Ladrão de Casaca” / “To Catch a Thief”, sendo a outra colaboração entre os dois o célebre “Janela Indiscreta” / “Rear Window”.
Nunca saberemos quantos filmes faria Grace Kelly com Hitchcock, se um dia não tivesse querido ser Princesa, porque ela fez três filmes seguidos com ele e quando o projecto de “Marnie” surgiu, o cineasta lembrou-se dela e ela dele, mas o “povo do Mónaco” não deixou a sua Princesa regressar a esse “antro de perdição” chamado Hollywood.


“Dial M for Murder” / “Chamada Para a Morte” é baseado numa peça de teatro da autoria de Frederick Knott, que também assina o argumento, e Alfred Hitchcock decidiu apresentar-nos o filme nunca escondendo que se tratava de uma peça, sendo os únicos exteriores a entrada do prédio, com a respectiva rua, transeuntes e automobilistas. Nunca veremos o jardim da casa, e só conheceremos o interior do restaurante, onde decorre o jantar de Ray Milland com um grupo de americanos, nessa noite da fatal chamada telefónica.


Tony Wendice (Ray Milland) é um conhecido jogador de ténis que já deixou a carreira, embora seja ainda bastante recordado pelos seus sucessos. Casado com a linda Margot (Grace Kelly), dona de uma bela fortuna, irá descobrir um dia, por uma carta que encontra, que ela mantém um caso com o escritor americano Mark Halliday (Robert Cummings), que elegeu o romance policial como o seu género literário.
Mark é jovem, belo e romântico, a personagem perfeita para ela cometer adultério, mas quando ele regressa ao Novo Mundo, deixando-a a ela e Inglaterra para trás, o romance vai-se apagando como a chama de uma vela, começando as cartas dele a não terem resposta. Mas o marido volta a sentir-se traído e decide preparar a sua vingança, quando sabe que o escritor vai regressar a Inglaterra, sendo natural que o adultério seja retomado.


A forma como Hitchcock nos apresenta Margot Wendice (Grace Kelly) no início da película, no seu vestido vermelho, diz bem do fogo do pecado que por ali vive: o reencontro dos dois amantes será fatal para um deles.
Tony Wendice (Ray Milland) é o cavalheiro por excelência, senhor de uma inteligência muito acima da média, que consegue contornar os obstáculos que lhe irão surgir pelo caminho. Veremos isso na sua abordagem ao capitão Lesgate (Anthony Dawson), que ficaremos a saber chamar-se Charles Swann, não passando de um elegante e pobre vigarista, que abandona os quartos onde vive, depois de deixar de pagar a renda.
Charles Swann (Anthony Dawson), que fora colega de Tony Wendice na faculdade, ao ver a sua identidade descoberta, decide sair imediatamente de casa de Tony, mas curioso com a proposta do ex-colega acaba por ficar na sala, para perceber melhor o intuito daquele marido traído. E aqui temos um verdadeiro show da arte de representar, que nos é oferecido por esse grande actor chamado Ray Milland. A sua personagem nada tem a ver com esse desconhecido do norte-expresso, de seu nome Bruno Anthony (o fabuloso Robert Walker), porque este Tony não está à beira da loucura, ele é simplesmente o marido traído que deseja ajustar contas com a mulher que o atraiçoou.


Como iremos ver, o seu plano é perfeito, mas o sinal para o pôr em marcha será sabotado pelo seu relógio de pulso, que entretanto parou, impedindo-o de ligar à hora combinada para Charles Swann agir e matar a sensual Margot Mary Wendice.
A partir de então a sua vingança irá estar suspensa no arame, começando a agir de acordo com os acontecimentos, sempre de forma inteligente para incriminar a sua mulher da morte de Charles Swann. Porque na verdade o “feitiço virou-se contra o feiticeiro”, já que o assassino contratado, ao tentar matar Margot, acaba por ser ele próprio morto, com a célebre tesoura de costura, que se encontrava junto do telefone, quando ela atendeu o telefonema feito pelo marido, o sinal para Swann agir, que chegou tarde demais. A forma como Alfred Hitchcock nos oferece a sequência, com Ray Milland do outro lado do telefone a escutar o assassínio da mulher é soberba e depois ao ver que ela sobreviveu, irá agir de forma a incriminá-la, parecendo que a está a defender. No entanto no seu caminho irá surgir esse gentleman da polícia londrina, o inspector Hubbard (John Williams), que tudo irá fazer para deslindar este caso intrincado, começando por tentar perceber como é que o assassino entrou na casa, nascendo assim o mais célebre elemento do filme: a chave!


(Re)ver “Chamada para a Morte”/ “Dial M for Murder” é um maravilhoso convite a entrar no universo Hitchcockiano, e conhecer a sua relação com o teatro. Se programarmos este filme com “Rope” / “A Corda”, iremos ter uma sessão dupla memorável.

4 comentários:

  1. Um dos meus favoritos do Hitchcock! O vilão cavalheiro, do qual quase chegamos a desejar que não seja apanhado!

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    1. Foi o primeiro filme de Grace Kelly com Hitchcock, mas será Ray Milland, esse extraordinário actor, a cativar o espectador pela fineza da sua interpretação em "Chamada para a Morte". :)

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  2. A ver se revemos ambos, como sugere. Depois do post, apetece. E uma boa sessão de cinema em casa, nas noites frias que se aproximam, sabe sempre bem. :-) Mantinhas e chá já estão a postos.
    Bom dia!

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    1. Este filme de Hitchcock, pouco conhecido, merece sempre ser revisto, porque o trabalho dos actores é soberbo, por outro lado, como diz muito bem, com a chegada do Outono, o convite é mesmo para se ficar em casa a ver um bom filme, ler um livro, escutar uma música de que se gosta ou simplesmente meditar. :)
      Obrigado pela visita e comentário.
      Boa Tarde!

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