quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Akira Kurosawa – “Kagemusha – A Sombra do Guerreiro” / “Kagemusha”


Akira Kurosawa – "Kagemuscha" / "Kagemuscha - A Sombra do Guerreiro"
(JAPÃO– 1980) – (179 min. / Cor)
Tatsuya Nakadai, Tsutoma Yamazaki, Kenichi Hgiwara, Jinpachi Neza, Hideji Otaki.

Akira Kurosawa é, sem qualquer margem de dúvidas, um dos maiores cineastas japoneses e mundiais mas, no entanto, no último quarto de século da sua carreira cinematográfica, em que nos ofereceu diversas obras-primas como “Dersu Uzala – A Águia das Estepes”, “Kagemusha -A Sombra do Guerreiro”, “Ran – Os Senhores da Guerra” e “Sonhos de Akira Kurosawa”, a sua Arte esteve sempre dependente do auxílio financeiro do Ocidente, em virtude de na sua pátria o seu valor já não ser reconhecido pelas novas gerações. E basta olhar para este quarteto fabuloso de obras-primas acima referidas e depois meditar na sua difícil gestação, que levou nada menos que duas décadas.


Akira Kurosawa

Mas regressemos um pouco atrás na carreira deste cineasta japonês que, em tempos idos, viu o seu génio reconhecido por todos e mais tarde caiu no esquecimento, aliás recordo-me de ter visto um doloroso documentário, no saudoso “Artes e Letras” do Canal 2 da RTP, em que encontrávamos o cineasta nos últimos anos da sua vida a habitar em casa da filha, fazendo por vezes pequenos anúncios de whisky para a televisão, a fim de sobreviver. Na época, ao ver essas imagens, foi inevitável pensar em D. W. Griffith, a viver num quarto de hotel em Hollywood, esquecido por todos e Georges Méliès, no final da vida, a vender brinquedos no pequeno estabelecimento de que era proprietário, numa estação de comboios.


Foi durante a segunda grande guerra que Akira Kurosawa se iniciou na profissão com “A Lenda de Judo” / “Sugata Sanchiro”, introduzindo a sua marca nas películas que realizava, abordando tanto os filmes de samurais num Japão medieval e feudal, como obras mais intimistas e contemporâneas, oferecendo-nos sempre um olhar profundamente interventivo. Porém, ao realizar “Rashomon” / “As Portas do Inferno”, a sua genialidade foi reconhecida por todos e um dia até uma das suas obras-primas, “Os Sete Samurais” / “Sichinin no Samurai”, viu a América fazer um “remake” intitulado “Os Sete Magníficos” / “The Magnificent Seven”, pela mão do hoje esquecido John Sturges.


Quando chegam os anos setenta (do século xx), a Nova Vaga Japonesa começa a dar cartas e Akira Kurosawa sente que o seu tempo se extinguiu, tal como sucedia com a vida de muitas das personagens dos seus filmes. Após realizar “Dosdekaden” / “Pouca Terra, Pouca Terra”, em 1970, vê nascer a indiferença dos seus contemporâneos perante este filme, cujas receitas mal deram para cobrir os custos, revelando-se um enorme fracasso. E, como não podia deixar de ser, Akira Kurosawa não resistiu à indiferença a que fora votado no seu país e tentou suicidar-se, mas felizmente a vida ainda estava do seu lado e ele, quatro anos depois, iria assinar uma das obras mais belas de toda a História do Cinema, filmando na então União Soviética essa obra-prima intitulada “Dersu Uzala” / “Dersu Uzala – A Águia das Estepes” que, como alguns devem estar recordados, teve estreia comercial entre nós no cinema Apolo 70 (hoje desaparecido) e que recentemente regressou à circulação comercial em cópia nova, o que é sempre de saudar.


E com “Dersu Uzala” (já editado em dvd no nosso país), chegou o reconhecimento internacional, com a atribuição do respectivo Oscar da Academia de Hollywood, oferecendo desta forma um novo fôlego à carreira cinematográfica do Grande Mestre Japonês. O qual, em vinte anos, irá realizar quatro obras-primas absolutas, como já referimos anteriormente.
“Kagemusha – A Sombra do Guerreiro” / “Kagemusha”, só foi possível graças aos bons ofícios (leia-se financiamento) de dois admiradores americanos, chamados George Lucas e Francis Ford Coppola. Mais uma vez Akira Kurosawa decide regressar a essa época em que o Japão se encontrava dividido em clãs, que lutavam entre si e onde o desejo de unificação se encontrava presente mas sempre distante, devido às rivalidades existentes entre as diversas famílias.


Akira Kurosawa, Francis Ford Coppola e George Lucas

Estamos assim em pleno século XVI, mais concretamente em 1570 e, como se estivéssemos perante uma peça shakespeariana, vamos encontrar no início do filme três personagens a dialogar num pequeno espaço interior, num longo plano sequência em que iremos lentamente descobrir as razões daquele encontro.
Ali estão o célebre samurai Shingen Takeda (Tatsuya Nakadai), o seu irmão Nobukado Takeda (Tsutoma Yamazaki), que durante largos anos foi seu duplo e o substituiu na frente de batalha mas que, com o passar dos anos, foi perdendo a semelhança com ele e um ladrão que foi resgatado da forca, porque é um verdadeiro duplo do Senhor da Guerra.
Fica então decidido que ele será o seu novo duplo, passando a viver no Palácio, mas Shingen Takeda não resiste um dia a ir à frente de batalha e fica gravemente ferido, terminando por morrer sendo assim substituído pela sua sombra, mas o ladrão por vezes leva longe demais o seu esforço e embora só os generais e os seus criados conheçam a sua verdadeira identidade, ele irá cometer pequenos erros ao longo do desempenho do seu novo papel.


Ao surgir perante as tropas a cavalo, incitando ao orgulho das suas forças, termina por cair longe do olhar de todos, depois será o seu neto a não reconhecer o avô, embora ele consiga com a sua paciência ludibriar a criança, conquistando a sua confiança e afecto, adorando este o seu novo avô, tão mudado que ele estava. Para mais tarde uma das suas mulheres descobrir que a sua célebre cicatriz, fruto de uma batalha, tinha desaparecido.
Durante três anos ele consegue personificar o guerreiro de forma assombrosa, levando a cabo a sua missão mas, quando a noite chega, os pesadelos tomam conta de si e o medo, que se vai apossando dele, irão conduzir à sua perdição.
Descoberto o seu papel de sósia é expulso do Palácio, perante a indiferença dos generais, que o usaram durante aqueles três anos cruciais e será só e abandonado, no campo de batalha, que ele irá assistir à derrota do clã Takeda, cujo novo Senhor, Katsuyori Takeda, irá lançar as suas tropas contra os seus inimigos que o cercaram, usando as antigas tácticas de guerra, que serão derrotadas pela nova estratégia do inimigo e pela introdução das armas de fogo.


Akira Kurosawa apresenta-nos, nesta obra-prima, momentos de profunda sedução, como se estivéssemos perante um pintor, que nos vai retratando na sua tela as diversas fases da batalha final, usando, como só ele sabia, a intensidade da cor e da luz.
Nessa famosa derradeira batalha, o cineasta não nos oferece o embate dos dois exércitos, mas vai-nos dando a visão que cada um deles tem do outro: vimos as espingardas a disparar e só depois a cavalaria a ser dizimada; a infantaria ataca e vimos o seu massacre pelo olhar abismado do clã Takeda, para só depois encontrarmos o campo de batalha pejado de corpos ensanguentados; assistimos a um derradeiro ataque da cavalaria e Kurosawa oferece-nos de novo o olhar mortífero dessa máquina de guerra nascida da descoberta da pólvora, para depois nos transmitir esse momento majestoso e digno em que encontramos no campo de batalha os corpos dos guerreiros mortalmente feridos a darem o seu último suspiro, ao mesmo tempo que descobrimos como a dor mortífera atingiu os animais que os transportavam para o embate final. As imagens dos cavalos feridos, caídos no campo de batalha, esse território tingido literalmente de sangue pelo pintor Akira Kurosawa, são de uma beleza transcendental.


“Kagemusha – A Sombra do Guerreiro” surge assim como uma das obras mais belas de toda a filmografia de Akira Kurosawa, que aqui regressou a um dos seus temas favoritos: o Japão medieval ou o nascimento de uma nação.
No seu filme seguinte “Ran – Os Senhores da Guerra”, onde de certa forma “King Lear” é revisitado, ou seja Shakespeare permanece presente, Akira Kurosawa irá atingir novamente o sublime nas sequências das diversas batalhas, oferecendo-nos a sua visão de pintor, através da cor das armaduras dos diversos oponentes, ao mesmo tempo que retira o som natural da batalha, sendo o confronto pontuado por música sinfónica de uma beleza estonteante.


E como falámos aqui de Akira Kurosawa como pintor, nunca é demais deixar o convite para reverem esse episódio de “Sonhos de Akira Kurosawa”, em que o turista japonês, que admira os quadros de Van Gogh, acaba por se encontrar no interior da tela, percorrendo a paisagem criada pelo artista, num dos momentos mais mágicos de toda a História do Cinema.

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