quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Robert Wise versus Orson Welles


"The Sound of Music" / "Música no Coração"
de Robert Wise

Todos nós associamos o nome de Robert Wise a um dos filmes que mais tempo esteve em cartaz nos cinemas Portugueses, falamos de “Música no Coração”/”The Sound of Music”, que vi quatro vezes durante esse ano. Mas voltemos atrás no tempo.
Tudo começou no dia 10 de Setembro de 1914, numa povoação do estado de Indiana, cujo nome é o da célebre espingarda “Winchester”. Robert Wise foi cedo para Hollywood e rapidamente se introduziu nos Estúdios como mensageiro do departamento de montagem, por acaso conhecem o célebre livro de Budd Schulberg “O Que Faz Correr Sammy”? Recomendo a sua leitura!

Lentamente, o futuro cineasta subiu degrau a degrau na profissão e foi aprendendo os seus segredos, mesmo aquela terrível “moral” em que os patrões dos Estúdios têm sempre razão e os seus desejos são ordens para se cumprirem, mesmo que elas sejam conducentes a destruir obras-primas do cinema.


Robert Wise

Quando a RKO deu carta branca a Orson Welles para realizar “Citizen Kane” e ofereceu todos os meios disponíveis para o “wonder-boy” realizar os seus sonhos no grande écran, nunca pensou que ele iria, de uma forma pouco discreta, retratar a vida do mais poderoso magnata da imprensa da época e os resultados não se fizeram esperar.

Robert Wise foi o responsável pela fabulosa montagem do filme, mas as indicações eram de Orson Welles. E quando o filme perdeu a corrida dos Óscars para o belíssimo “O Vale era Verde”/ ”How Green Was My Valey” de John Ford, ninguém conseguiu contestar o sucedido em virtude de estarmos perante duas obras-primas do cinema mas, como todos sabemos,  a película de Orson Welles ofereceu um Novo Mundo ao Cinema, como outrora David Wark Griffith fez, esse criador da linguagem cinematográfica que terminou os seus dias a passear a sua solidão pelas ruas de Hollywood, esquecido e ignorado por todos.


"Citizen Kane" / "O Mundo a Seus Pés"
de Orson Welles

Quando Orson Welles terminou a rodagem de “The Magnificent Ambersons”/”O 4º Mandamento”, a película que realizou após a feitura de “Citizen Kane” / “O Mundo a Seus Pés” e partiu para o Brasil para rodar o documentário “It’s All True”, enviava semanalmente memorandos para Robert Wise, acerca da forma como a película deveria ser montada.

Mas Orson Welles nunca imaginou que os executivos do Estúdio se iriam assustar com a metragem de 132 minutos de “O 4º Mandamento” / “The Magnificent Ambersons” e iriam encarregar Robert Wise de eliminar cerca de 40 minutos da película, refazer novas sequências e criar um novo final de acordo com as regras de Hollywood, ou seja o célebre “Happy-end”, tão querido dos Estúdios! E Robert Wise assim fez, sem pestanejar, seguindo as ordens ditadas pelos executivos da RKO.


"The Magnificent Ambersons" / "O 4º Mandamento"
de Orson Welles

Depois de Orson Welles se ver impossibilitado de concluir o documentário “It’s All True”, devido à morte do protagonista (um pescador), o cineasta regressou a Hollywood, para se ver confrontado com um filme que imediatamente reconheceu ter sido profundamente mutilado, destruindo a ideia que estava implícita na sua realização. As relações entre Orson Welles e Robert Wise terminaram e a carreira de Welles, esse magnifico “wonder-boy” terminara no interior do sistema dos Estúdios, passando de “wonder-boy”, ao mais famoso dos “mavericks” da História do Cinema (*).



"It's All True" de Orson Welles, rodado no Brasil

Após o trabalho de corte e montagem efectuado por Robert Wise, o produtor e cineasta Val Lewton oferece a cadeira de realizador ao técnico de montagem, nascendo “”Curse of the Cat People”/”A Maldição da Pantera”. Mais tarde seguiram-se filmes como “Body-Snatcher” / “O Túmulo Vazio”; “The Set-Up”/”Nobreza de Campeão” até que o seu nome ficou ligado a um dos grandes clássicos da ficção cientifica “”The Day the Earth Stood Still” / ”O Dia em que a Terra Parou” (1952) e a carreira de realizador de Robert Wise prosseguiu com uma média de um filme por ano, abordando os mais diversos géneros até que, no início dos anos sessenta, mais concretamente com a ajuda imprescindível do coreógrafo Jerome Robbins e do maior compositor norte-americano do século XX, Leonard Bernstein, o realizador criou um dos mais belos musicais de sempre, o célebre “West Side Story”/”Amor Sem Barreiras”, uma obra imortal no interior do género e cuja direcção é forçosamente atribuída a estas três figuras, tal é a interligação entre elas, já que ninguém consegue imaginar o filme sem a música de Bernstein, a coreografia de Robbins ou a sólida direcção de actores de Wise.


"West Side Story" / "Amor Sem Barreiras"
de Robert Wise

Os Óscares não se fizeram esperar. Mas nessa mesma época eles voltariam de novo às mãos de Robert Wise através de um outro musical, desta feita “The Sound of Music” / "Música no Coração", com uma Julia Andrews e um Christopher Plummer inesquecíveis, que fizeram as delícias dos corações de quem viu o filme. Com o nome mais que firmado, “Yang-Tsé em Chamas”/ “The Sand Pebbles” e “A Ameaça da Andrómeda” / “The Andromeda Strain” foram quase uma espécie de despedida do cineasta.


"The Sand Pebbles" / "Yang-Tsé em Chamas"
de Robert Wise

Os anos setenta estavam aí, o mundo mudava e os Estúdios foram obrigados a adaptar-se aos ventos da História. Nascia então uma nova geração de cineastas formados nas cadeias de televisão, fazedores de filmes de baixo orçamento e com um novo público disposto a receber de braços abertos os seus filmes. Foi assim que, numa espécie de volte-face fruto de tempos passados ou paixão pela ficção-cientifica (cada um que tire as suas conclusões) que, após ter realizado ”Amor Sem Promessa” / “Two People”, Hindenburg” e As Duas Vidas de Audrey Rose” / “Audrey Rose”, Robert Wise em 1979, decide levar ao cinema “Star Trek”/”O Caminho das Estrelas”, com o sucesso que todos conhecemos, mas os “wonder-boys” já andavam por aí maravilhando as audiências e os "mavericks" do cinema também não se esqueceram dele.


"Star Trek" / "O Caminho das Estrelas"
de Robert Wise

Em 1989, num período em que os "remakes" tinham decididamente entrado na moda, Robert Wise decide fazer o "remake" de “West Side Story”, com o título “Roof Tops” / “Telhados de Nova Iorque”, mas a película não atingiu os objectivos pretendidos, revelando-se um insucesso comercial e muito poucos se recordam dela hoje em dia, apesar de ter passado no nosso País.

Robert Wise é o co-autor de “West Side Story” e o realizador de “A Música no Coração”, fez dezenas de filmes ao longo da sua carreira, subiu a pulso na profissão e deu o seu melhor, mas no momento em que deveria ter batido com a porta, disse "sim, podem contar comigo" aos executivos dos Estúdios, terminando com a carreira de Orson Welles em Hollywood, mas e se tivesse dito "não contem comigo", a história teria sido alterada?
Possivelmente outro "funcionário" dos Estúdios teria sido encarregue dessa missão espinhosa pelos seus patrões, não nos esqueçamos que o homem que terminou "Macao" de Joseph von Sternberg, se chamava Nicholas Ray.


Robert Wise durante a rodagem de "Star Trek"

Ao longo da sua carreira. Robert Wise transportou consigo este fardo silenciosamente, até ao dia em que confessou numa entrevista, já no final da vida, que tivera uma conversa com Orson Welles, muitos anos depois, sobre o sucedido com "O 4º Mandamento" / “The Magnificent Ambersons” e que este lhe tinha perdoado.

(*) - Recomendamos vivamente a leitura do livro que Peter Bogdanovich escreveu sobre Orson Welles.

2 comentários:

  1. É pena que tenha "estragado" o filme de Welles. Mas mais que não fosse pelo Star Trek, tem todo o meu respeito enquanto realizador!

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    1. Robert Wise mutilou a obra de Orson Welles, mas se tivesse recusado essa estranha missão, o que fariam os patrões do Estúdio? Incumbiam outro técnico de montagem para o fazer ou desistiriam da ideia? Nunca o saberemos.
      Beijinhos :)

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