sábado, 27 de agosto de 2016

Os Livros e a Biblioteca


Ernest Hemingway

Em cada casa existe uma biblioteca, por muito poucos que sejam os livros que por ali habitam e, muitas vezes, quando retiramos um livro do móvel e olhamos a capa, de imediato essa maravilhosa máquina denominada memória nos oferece essa viagem ao passado, que muitas vezes nos ajuda a compreender o presente.
A capa do livro, muitas vezes, até parece que nos sorri, nascendo então esse desejo de abrir o livro e começar a ler as palavras que o escritor um dia decidiu oferecer-nos, perpetuando desta forma o seu labor literário, tantas vezes efectuado durante a noite, pela madrugada fora, em busca da escrita perfeita.


Lawrence Durrell 

“O mar está novamente agitado hoje, com rajadas de vento que despertam os sentidos. Em pleno Inverno, a Primavera começa a sentir-se. Toda a manhã o céu esteve de uma pureza pérola; há grilos nos recantos sombrios; o vento despoja e fustiga os grandes plátanos… “. Assim começa o primeiro volume de “O Quarteto de Alexandria/Justine” que Lawrence Durrell decidiu oferecer ao mundo, uma obra que influenciou decididamente a Literatura e que nos relata a passagem do tempo, através do olhar/vida de quatro personagens nessa Alexandria que fascinou tantos escritores.


Jean-Paul Sartre

Na nossa biblioteca temos livros que amamos ao correr do tempo, livros que chamamos de cabeceira, porque a sua leitura nos oferece um enorme prazer, como é o caso da obra de Lawrence Durrell ou a obra monumental de Marcel Proust, a brilhante escrita de Umberto Eco, sempre com esse olhar bem incisivo sobre a sociedade contemporânea ou o labor literário e a magia de Philippe Sollers e a pouco e pouco criamos esse hábito de abrir o livro e ler um pouco, antes de o sono nos convidar ao sonho. E como é belo adormecer a ler palavras fascinantes como estas, escritas por Proust no seu quarto forrado a cortiça devido aos ataques de asma: “Os lugares que conhecemos só pertencem ao mundo do espaço em que os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia por entre impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de uma determinada imagem não passa da nostalgia de um determinado momento e as casas, as estradas, as avenidas, são infelizmente fugazes, como os anos.”.


 Rolland Barthes

O tempo, esse grande escritor, oferece-nos um olhar que se transfigura à medida que vamos navegando no território literário e sempre que retiramos um livro da estante, entramos nesse território do sonho, que nos é oferecido pelo escritor e descobrimos esse enorme prazer do texto de que um dia nos falou Rolland Barthes.
Nas páginas que constituem o livro descobrimos personagens que nos fascinam e são muitas as vezes, em que ficamos simplesmente maravilhados com a sua existência, por vezes até as reencontramos num écran de cinema, mas quase sempre acabamos por descobrir um herói diferente daquele que habitava o universo do escritor. Os traços da personagem criada pelo autor estão ausentes da tela e sentimos a fraude perante o nosso olhar. Resta-nos então regressar à leitura da obra e apaziguar os sentimentos, (re)vivendo essa arte da escrita que tanto nos fascina.


 Umberto Eco

Muitas vezes, ao entrar em casas de amigos, o meu olhar dirige-se de imediato na direcção da Biblioteca, em busca dos títulos dos livros, no intuito de descobrir as águas em que eles se encontram a navegar e não é raro encontrar aquela obra que sempre desejei ler, mas que nunca tive até então oportunidade, muitas vezes porque o livro está esgotado. E de imediato sinto o desejo de o pedir emprestado, porém, sinto-me inibido em fazer o pedido, apesar da amizade que nos une, porque os livros são como os filhos. Desejo então tornar-me um copista da Idade Média fechado numa sala a queimar a vista à luz da vela, enquanto transcrevo as palavras mágicas oferecidas ao mundo pelo escritor, para que elas perdurem para as gerações que hão-de vir.


 Philippe Sollers

Decido procurar o livro que tanto desejo ler nas livrarias, mas só encontro as novidades editoriais e, quando pergunto pelo seu paradeiro, respondem-me que está esgotado ou foi retirado do catálogo e nesse momento sinto a tristeza invadir-me. Mas não desisto da busca e percorro os alfarrabistas, mas a resposta permanece negativa. Encho-me de coragem e peço o livro emprestado e passo um fim-de-semana na sua companhia, roubando horas ao sono, perfeitamente deliciado e ao chegar à última página, sinto-me feliz e tranquilo, apesar de saber que esse livro maravilhoso vai regressar para a biblioteca dos meus amigos. Na semana seguinte trocamos impressões sobre a obra mas, ao sair, sinto um vazio, apesar da minha memória ter ficado mais completa, porque li aquele livro, embora sinta a sua falta na minha biblioteca, até que nasce esse dia em que ele se encontra comigo num outro país, numa daquelas livrarias em que o universo das letras habita o espaço perfeito.


Regresso a casa feliz e de imediato mergulho na sua leitura e, quando a termino, ofereço-lhe um lugar na minha Biblioteca. Ele ali fica sorrindo, convivendo com os irmãos numa harmonia perfeita, essa harmonia tantas vezes esquecida pelo mundo que nos rodeia.

Bom fim-de-semana e boas leituras!

3 comentários:

  1. Respostas
    1. Os livros que navegam na biblioteca são o espelho de uma casa.
      Bom fim-de-semana

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  2. Adoro entrar numa casa cheia de livros! Só pode ser espelho da alma de uma boa pessoa!

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