quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Martin Scorsese e a História dos Oscars



Martin Scorsese


“Em Hollywood diz-se: 
cada pessoa tem duas profissões: 
a sua e a de crítico de cinema”.

François Truffaut

Tudo começou em 1927, o Presidente da Academia era o famoso Douglas Fairbanks, marido da não menos famosa Mary Pickford, “a namorada da América” (o primeiro casal célebre de Hollywood) e o prémio escolhido para galardoar os melhores dos maiores foi uma estatueta concebida pelo escultor George Stanley. O nome para o tão desejado prémio ainda não estava dado e foi a bibliotecária da Academia, Margareth Herwick, que por mero acaso terminou por baptizar o tão cobiçado prémio quando a pequena estatueta lhe passou pelas mãos: “Olhem, parece mesmo o meu tio Oscar!”. E assim, desta forma simples, foi dado o nome ao mais famoso prémio do cinema.


"Raging Bull" / "O Touro Enraivecido"


Se formos falar nas injustiças cometidas pela Academia de Hollywood, acabaríamos por escrever um livro, tal é o número enorme de “crimes” cometidos por esta. Falemos apenas em dois, como exemplo, sem qualquer tipo de contestação: Alfred Hitchcock, o mais famoso cineasta da História do Cinema, tanto para a crítica especializada como para o grande público, nunca recebeu o Oscar para Melhor Realizador e no entanto quem gosta de cinema ao falar dos filmes da sua vida termina sempre por citar mais do que um filme do Mestre do “suspense”; já Orson Welles, o menino-prodígio descoberto por Hollywood, cineasta de um dos mais importantes filmes de sempre, senão o mais importante, “Citizen Kane” perdeu o Oscar no ano em que foi nomeado para melhor realizador, sendo posteriormente marginalizado pelo sistema, tornando-se no mais famoso “Maverick” da História do Cinema.


"Tudo Bons Rapazer" / "Goodfellas"

Martin Scorsese, o maior autor da geração conhecida como “movie-brats”, composta entre outros por Coppola, Spielberg, Lucas, Bogdanovich, nunca tinha recebido um Oscar para a melhor realização, tendo sido nomeado por seis vezes e por seis vezes foi esquecido pelos membros da Academia. Em 1980 foi nomeado por “O Touro Enraivecido” / “Raging Bull”, na época a indústria ainda não se tinha esquecido da guerra travada com os meninos prodígios e daí o seu esquecimento premeditado, com grande escândalo, apesar de ter lavado as mãos como Pilatos ao atribuir o Oscar para o Melhor Actor a Robert de Niro, porque era mesmo impossível fechar os olhos à interpretação do actor, companheiro de “route” de Martin Scorsese.


"A Idade da Inocência" / "The Age of Innocence"

Oito anos depois, em 1988, seria a vez de “A Última Tentação de Cristo” perder o Oscar devido à campanha feita contra o filme, por sinal uma das películas mais religiosas de todos os tempos, fazendo esquecer Cecil B. de Mille. Mas Martin Scorsese continuou a filmar como sempre fez e por mais reduzido que fosse o orçamento, ele transformava-o em obra-prima. Quando “Tudo Bons Rapazes” / “Goodfellas” surgiu, fazendo a síntese do seu universo filmíco, todos pensaram ter finalmente chegado a sua hora mas afinal estávamos todos enganados. Foi preciso esperar uma boa dúzia de anos, até 2002, depois de a indústria ter enterrado o machado de guerra e feito as pazes com os “movie-brats”, para vermos Martin Scorsese indigitado por “Gangs de Nova Iorque” / “Gangs of New York”, tendo Leonardo Di Caprio ocupado o lugar deixado por Robert de Niro, como uma espécie de “alter-ego” do cineasta. Falou-se então na violência do filme como desculpa para a não atribuição do Oscar. Scorsese não desistiu da sua luta e, dois anos mais tarde (2004), realizou uma obra fabulosa sobre a vida do magnata Howard Hughes, “O Aviador” / “The Aviator”, dentro dos parâmetros tão queridos dos membros da Academia e mais uma vez foi esquecido. Decididamente Martin Scorsese tornara-se o último dos “Mavericks”.


"O Aviador" / "The Aviator"

Qualquer pessoa que fale com Martin Scorsese acerca da História do Cinema ou o veja a falar sobre a Sétima Arte fica profundamente deslumbrada pelo amor com que ele fala do cinema e não é só a velocidade com que fala que nos seduz, mas também a sua famosa luta para preservar a memória do cinema, com o célebre duelo com a kodak, devido à famosa película se degradar a uma velocidade vertiginosa, como a sua batalha para a restauração de filmes e divulgação da História da Sétima Arte.

Basta vermos essa obra intitulada “Uma Viagem pelo Cinema Americano”, realizada aquando dos 100 anos do Cinema, para ficarmos profundamente fascinados por esta personagem. Recorde-se que “Taxi Driver” não foi candidato ao Oscar de Melhor Realizador.




"Hugo", a Magia do Cinema!!!

E assim chegamos à sétima nomeação de Martin Scorsese para o Oscar de Melhor Realizador e desta feita o cineasta decidiu seguir em frente e fez um filme no interior do seu universo, “Entre Inimigos” / “The Departed”. De tal forma estava desiludido com a Academia de Hollywood que nem participou na campanha levada a cabo pelo Estúdio.
Quando vimos no palco do Kodak Theatre esse trio de “movie-brats” composto por Coppola, Lucas e Spielberg, com o envelope na mão, todos os olhares se voltaram para Martin Scorsese, porque era impossível haver um trio sem Quarteto e finalmente o seu nome foi pronunciado. A alegria de Martin Scorsese foi tão grande que, quando Jack Nicholson anunciou que “Entre Inimigos” ganhara o Oscar de Melhor Filme, Scorsese nos bastidores nem se apercebia do sucedido, tendo sido Steven Spielberg a dar-lhe a notícia e o abraço dado por Jack Nicholson ao cineasta diz muito mais que todas as palavras que ainda possamos escrever.


Uma Noite Inesquecível!!!

Finalmente fez-se justiça e recorde-se que este Oscar há muito merecido não foi pela carreira, como alguns pretenderam interpretar o gesto da Academia, ele foi pelo filme “Entre Inimigos” / “The Departed” uma película acima de qualquer suspeita, uma obra-prima do cinema em todas as suas vertentes. Longa Vida a Martin Scorsese!


Os 4 Ases de "The Departed" / "Entre Inimigos":
Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Martin Scorsese e Jack Nicholson!

Nota: “Entre Inimigos” / “The Departed” recebeu os Óscares para Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Montagem e Melhor Argumento Adaptado. 

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