sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Francis Ford Coppola – Uma Viagem Cinematográfica – Parte 7


"Apocalypse Now Redux"

Como todos sabemos, aquelas vinhas que o cineasta possui em Napa no norte da Califórnia foram, muitas vezes, o seu seguro de vida e após o nascimento do dvd e dos filhos andarem já pelos seus próprios pés, cinematograficamente falando, acabaram por levá-lo a repensar o cinema e a sua memória.


"Koyaanisqatsi"

Não nos esqueçamos do seu papel, por vezes tão ignorado como distribuidor e responsável do restauro do épico de Abel Gance “Napoleon” / “Napoleão”, ao qual foi adicionada música da autoria do seu pai Carmine Coppola. Ao mesmo tempo que permitia a Goddfrey Reggio a realização desse sonho intitulado “Koyaanisqatsi” e “Powaqqatsi” oferecendo, desta forma, um novo universo ao documentarismo.
Por outro lado constituiu dupla com George Lucas para conseguir o apoio necessário para que Akira Kurosawa levasse a bom porto o seu “Kagemusha”/”A Sombra do Guerreiro” e Paul Schrader concluísse com sucesso o seu “Mishima”. Sem o apoio financeiro de Francis Ford Coppola e George Lucas, estes dois projectos cinematográficos nunca teriam visto a luz do dia, acabando por serem também eles os responsáveis pela distribuição das duas películas. Estes dois cineastas cinéfilos acabariam por participar na divulgação de “Hitler” e “Parsifal” de Syberberg na América, assim como da filmografia de Jean-Luc Godard, que ambos admiravam, já lá iam longos anos.


Sequências até então inéditas, como a da imagem,
surgem pela primeira vez em "Apocalypse Now Redux"

O sucesso do dvd levou Francis Ford Coppola a ocupar-se da sua obra e tendo em conta todo o material que ficou na mesa de montagem de “Apocalypse Now”, incluindo uma mítica sequência passada na plantação francesa, decidiu fazer uma nova versão, que terminou por ser um filme bastante diferente do anterior, já que novas direcções são apontadas e novas questões colocadas.
Se o primeiro “Apocalypse Now” é um filme acerca da Loucura da Guerra, já “Apocalypse Now Redux” é uma obra sobre a Guerra do Vietname. A sequência da plantação é fundamental para alterar a leitura do filme, ao mesmo tempo que o discurso colonialista inevitavelmente surge datado.


A longa sequência passada na plantação francesa, inicialmente
cortada na íntegra, foi finalmente visível em "Apocalipse Now Redux"

Mas o que poucas pessoas sabem é que quando “Apocalypse Now” surgiu no Festival de Cannes, possuía duas versões para o final, tendo ambas sido exibidas no famoso Festival de Cinema: na primeira Willard (Martin Sheen) liquida o “rebelde” Coronel Kurtz (Marlon Brando), mas fica no “santuário” ocupando o seu lugar; já a segunda versão é a que todos conhecemos, Willard (Martin Sheen) regressa à “civilização”. Na sessão a concurso foi apresentado o primeiro final, conhecido como o favorito do cineasta, que acabaria por conquistar a Palma de Ouro do Festival.Aliás, na conferência de imprensa dada após a projecção da película, Francis Ford Coppola diria que “gosto deste fim. Há pessoas que querem que se dê ao público uma conclusão agradável, antes de o mandar para casa. Mas, honestamente, o meu fim é este.” no dia seguinte no Olympia passou a versão que é conhecida de todos. Curiosamente Coppola não esteve presente na segunda exibição do filme, onde era apresentado o outro final, declarando que não iria estar presente porque não apreciava aquela versão.



Esta nova versão oferece-nos, um novo olhar
sobre a personalidade do Coronel Kurtz (Marlon Brando)

Porém, nesta “coisa” de finais, não ficámos por aqui, porque logo na estreia da película nos Estados Unidos da América  o cineasta, após duas semanas de exibição, retirou a sequência final em que se via o bombardeamento do “Santuário” do Coronel Kurtz ao som de “The End” dos Doors, devido às leituras que foram feitas por muita da crítica da especialidade e de algum público. Essa mesma versão foi a que passou durante anos nas nossas salas de cinema e em toda a Europa e nunca me poderei esquecer do desalento que tive ao verificar que ela estava cortada em “Apocalypse Now Redux”.


Francis Ford Coppola continuou a cuidar da edição da sua obra cinematográfica para o mercado de dvd e a beleza da edição em dvd de “One From The Heart”/”Do Fundo do Coração” ou da saga de “O Padrinho”/”The Godfather” com extras fabulosos, para além dos comentários do cineasta são verdadeiras preciosidades.
 Em 2001 ainda deu uma ajudinha ao seu amigo Walter Hill na resolução de um “problema” chamado “Supernova”, um daqueles filmes de ficção-científica mal amados à nascença, cuja acção decorre no século XXII, com James Spader e Angela Bassett nos protagonistas. O seu realizador inicial, Geoffrey Wright, despediu-se em conflito com a produção, depois os produtores chamaram Walter Hill para salvar o filme, tendo Jack Sholder também dado o seu contributo a este “filho bastardo”, mas seria Francis Ford Coppola o responsável pela derradeira montagem de “Supernova”, recordando certamente os tempos mágicos passados com Roger Corman.
Quanto à autoria da obra, ela iria ser mais um filme assinado por Alan Smithee, o tal cineasta inexistente, que assina as obras cinematográficas dos realizadores que recusam a paternidade dos filmes, porque não se reconhecem neles, tais são as interferências surgidas ao longo da produção, mas como a “existência” de Alan Smithee é “reconhecida” pela Indústria de Cinema Norte-Americana, a autoria de “Supernova” acabaria por ser dada a um inexistente Thomas Lee. 

(continua)

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