terça-feira, 2 de agosto de 2016

Francis Ford Coppola – Uma Viagem Cinematográfica – Parte 2


Martin Sheen em "Apocalypse Now"

Francis Ford Coppola tinha conquistado o seu estatuto de génio e, como tal, fugiu aos parâmetros de Hollywood ao realizar “Apocalypse Now”, o maior filme de sempre acerca da guerra e das suas consequências, baseado no famoso romance de Joseph Conrad “No Coração das Trevas”.


“Apocalypse Now” rapidamente se transformou num dos maiores marcos da História do Cinema, sendo a sua inclusão na lista dos melhores filmes de sempre uma realidade a que ninguém pode fugir. O Génio tinha descido do céu e mergulhado no inferno, transportando para o presente as feridas da memória.
Mas a rodagem de “Apocalypse Now” foi um verdadeiro épico, quase tragédia, inicialmente o protagonista era Harvey Keitel, no entanto Coppola não se entendeu com o actor e este acabou por ser substituído por Martin Sheen o qual iria ter, perto do final da rodagem, um ataque cardíaco. Por outro lado as condições climatéricas não eram as melhores, tendo a rodagem sido interrompida por um tufão, que destruiu os cenários construídos, ao mesmo tempo que os célebres helicópteros, que usavam a música de Wagner nos ataques efectuados às linhas vietnamitas, postos à disposição pelo governo, eram muitas vezes requisitados para irem combater a guerrilha .



 Robert Duval numa interpretação inesquecível!
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Perante um cenário destes, a esposa de Francis, Eleanor, escreveu um livro/diário intitulada “Notes on the Making of Apocalypse Now”. A famosa critica norte-americana Pauline Kael falou dele como o mais lúcido relato da aventura épica de um cineasta. E como não podia deixar de ser, esta obra-prima deu origem a um “Making of” que fez história e seria exibido nas salas de cinema, “Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse”, realizado por Fax Bahr e George Hickenlooper.


A composição do coronel Kurtz, criada por Marlon Brando,
revela-se um Monumento à Arte da Interpretação!

Francis Coppola acabaria por ganhar a Palma de Ouro em Cannes, mas falharia os Oscars. Na primeira versão distribuída comercialmente, a película terminava com a destruição/bombardeamento do Templo onde se refugiara/vivia o coronel Kurtz e os seus seguidores, ao mesmo tempo que os The Doors cantavam “The End”. Esta sequência iria gerar polémica nos Estados Unidos, já que muitos viram nela uma apologia da Guerra. E esta leitura errada teve tantos adeptos, que o cineasta, ao fim de duas semanas de exibição, mandou retirar as cópias de circulação e substituir por outras onde essa sequência era simplesmente eliminada. Em Portugal o filme foi exibido com ela, como muitos estarão recordados, tendo até a primeira versão surgida em aluguer de dvd possuído essa versão. Hoje ela encontra-se na posse de Francis Coppola, bem guardada e temos que nos contentar com a nova versão, “Apocalypse Now Redux”, melhor nuns aspectos, diferente noutros, de facto a arte da montagem é isso mesmo!
Só para terminar, convém referir que a personagem do Coronel Kurtz, criada por Marlon Brando, foi uma espécie de defesa do actor, porque foi com espanto e irritação que Coppola recebeu um Brando calvo e com demasiados quilos para o papel, mas a escola do “método”, mais uma vez, demonstrou que essa Arte de dar corpo às personagens só pertence a alguns actores.


"Do Fundo do Coração" / "One From the Heart"

O sonho de criar uma nova Hollywood, através da sua Zoetrope, ao mesmo tempo que as novas tecnologias davam passos de gigante no universo cinematográfico, levaram o visionário Francis Ford Coppola a entrar na maioria aventura da sua vida: criar Las Vegas em Estúdio, sendo a história do filme contada através de canções, utilizando toda a tecnologia ao seu dispor.



 Nastassja Kinski e Frederic Forrest

Nessa época, Francis Ford Coppola já atravessava uma determinada crise económica, mas o seu sonho, tal como o de “Tucker”, iria levá-lo à ruína, embora os apaixonados da Sétima Arte, recebessem o mais deslumbrante musical de sempre, intitulado “Do Fundo do Coração”/”One From the Heart”, de braços abertos.
Conjugando o artifício e o espectáculo com a música de Tom Waits, pena que a Ricky Lee Jones tenha deixado o Tom, porque os duetos com eles seriam fabulosos, assim tivemos a Cristal Gayle que deu boa conta do recado, nasceria uma das mais belas bandas sonoras de sempre.


Teri Garr e Raul Julia

Ao ser feita no maior segredo, a película começou a levantar fortes suspeitas no interior da indústria cinematográfica e, ao ser exibida para a crítica cinematográfica, foi pura e simplesmente trucidada. A campanha negativa foi de tal ordem, que ao fim de uma semana em exibição, com as salas praticamente desertas de público, o cineasta mandou retirar o filme do circuito de exibição e o sonho “Zoetrope” viu os seus dias contados. Os credores, que já rondavam as portas do Estúdio, não tiveram contemplações com o sonho megalómano do cineasta, mas Coppola, ao contrário de David Wark Griffith, que acabou os seus dias a “palmilhar” as ruas de Hollywood, esquecido de todos, devido ao insucesso da sua “Babilónia” (nem dinheiro havia para destruir os gigantescos cenários construídos), decidiu partir pela estrada fora e recomeçar tudo de novo!


 (continua)

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