quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Eric Rohmer – O Cineasta da Palavra


"A Minha Noite em Casa de Maud"
/ "Ma Nuit Chez Maud"

Foi numa noite fria e chuvosa que, na minha pré-adolescência, entrei acompanhado por um familiar no cinema Império para ver o meu primeiro Rohmer, intitulado “A Minha Noite em Casa de Maud”, que se iria tornar no mais amado dos seus filmes. Na sala principal era exibido “Luís da Baviera” de Luchino Visconti, enquanto o conto moral do cineasta francês era apresentada na sala Estúdio. Vivia-se o tempo da cinéfilia e as salas de cinema eram verdadeiros Templos, onde se descobriam autores.


Eric Rohmer

Quando alguém se interroga entre as diferenças existentes entre um realizador e um cineasta, o melhor exemplo de autor que conheço é-me oferecido precisamente por Eric Rohmer, cujo nome de baptismo é Maurice Schérer, usado inicialmente para assinar os primeiros artigos escritos sobre a Sétima Arte, que desde muito cedo se revelou a sua grande paixão, que irá, no entanto, esconder durante largos anos dos pais, até realizar a sua primeira curta-metragem.


"Paulina na Praia" / "Pauline à la Plage"

Foi na célebre revista de cinema “Cahiers du Cinema”, dirigida nessa época das capas amarelas por André Bazin, o verdadeiro pai de toda uma critica de cinema, que Eric Rohmer começou a dar nas vistas, com o seu trabalho teórico, sendo um dos seus mais belos escritos intitulado “O Celulóide e o Mármore”. Mais tarde irá escrever a sua tese abordando o cinema do cineasta que mais amava, o alemão F. W. Murnau, nascendo “L’organisation de l’espace dans le “Faust” de Murnau”, ao mesmo tempo que dava início à escrita dos seus contos que irá organizar em séries, sendo a primeira constituída pelos “Seis Contos Morais” , que mais tarde irão conhecer a magia do écran de cinema.


"O Joelho de Claire" / "Le genou de Claire"

Nestes contos maravilhosos, Eric Rohmer transforma os mais banais diálogos do quotidiano em perfeitas obras-primas literárias, ao mesmo tempo que expõe as suas teses filosóficas, como sucede com os “Pensamentos” de Pascal, através da boca dos diversos personagens que vai criando, como irá suceder em “A Minha Noite em Casa de Maud” / “Ma nuit chez Maud”, que foi um dos maiores sucessos comerciais do cineasta.


"O Raio Verde" / "Le Rayon Vert"

Desde o início Eric Rohmer criou uma certa estrutura literária, organizando as suas películas como capítulos de um mesmo livro, embora elas se revelassem autónomas e singulares. Nascem assim naturalmente, sobre o mesmo signo, as séries “Seis Contos Morais” / “Six contes moraux”, “Comédias e Provérbios” / “Comedies et proverbes” e “Contos das Quatro Estações” / “Contes des quatre saisons”, revelando todas elas um maravilhoso e coeso trabalho de escrita cinematográfica.


"Conto de Verão" / "Conte d'Été"

Mas se pensam que ele ficou prisioneiro desta fórmula estão profundamente enganados, porque Eric Rohmer como artesão e livre-pensador criou entre este conjunto de filmes magníficos ou séries, se preferirem, obras cinematográficas tão diferentes e distantes como “A Marquesa D’O” / “Die Marquise von O”, onde tem uma breve aparição, “O Agente Triplo” / “Triple Agent”, onde a presença da palavra é verdadeiramente avassaladora e fascinante, “Les rendez-vous de Paris” / “Os Encontros de Paris”, a mais bela homenagem que se pode fazer a uma cidade, “A Inglesa e o Duque” / “L’Anglaise et le Duc”, que iria surpreender tudo e todos pela forma como foi concebido, até chegar a esse filme repleto de juventude e naturalismo que foi a sua derradeira obra “Os Amores de Astrea e Celadon” / “Les amours d’Astrée et de Céladon”, que nos revelavam um cineasta possuidor de uma juventude e inocência, profundamente surpreendentes.


"Os Amores de Astrea e Celadon" /
"Les Amours d'Astrée et de Céladon"

Quando estava prestes a completar 80 anos Eric Rohmer decidiu partir, deixando-nos como herança a magia do seu cinema, esse mesmo cinema que possui como protagonista a beleza da palavra, cabe a nós cinéfilos divulgar o seu trabalho cinematográfico às novas gerações, para que elas descubram um dos mais fascinantes cineastas da denominada Nouvelle Vague. 

2 comentários:

  1. Paulina na Praia é o meu Rohmer favorito (talvez por ter sido o primeiro que vi). A passagem do "Raio Verde" que faz para uns tempos mais modernos, a partir do livro do Júlio Verne é fabulosa.

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    1. A história de enganos da bela Paulina também é uma das minhas películas preferidas de Eric Rohmer, já lhe perdi a conta das vezes que a vi, seja no grande écran como em dvd.
      Beijinhos

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