sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Era uma vez o Cinema!


Quando George Méliès pretendeu comprar a invenção dos Lumiére, Antoine Lumiére respondeu-lhe: "Sr. Méliès a nossa invenção não é para ser vendida. Pode ser explorada durante algum tempo como curiosidade científica, mas não tem nenhum interesse comercial."
Os factos desmentiram as palavras ditas. E uma nova Indústria nasceu. O cinema era o espectáculo das multidões, a evasão do quotidiano (1), a aquisição do comportamento das imagens e dos heróis (2).


Quando o cinema deixou de ser mudo (3) e passou a ser sonoro, foi uma verdadeira revolução, muitas estrelas nasceram, mas outras viram os seus dias no firmamento terminarem devido à "falta de voz", época excelentemente retratada em "Singing in the Rain" / “Serenata à Chuva”.
Com o final da Segunda Grande Guerra, o cinema começou a perder a magia que arrastava as multidões. A origem da quebra de audiências centrava-se no decréscimo da natalidade, motivada pela Guerra, e no seu futuro rival, que entretanto tinha nascido, a televisão, essa caixa que irá mudar o mundo, como todos sabemos.


A televisão, dizia a publicidade, "é o cinema em sua casa" e os resultados não se fizeram esperar. A indústria cinematográfica perdeu cerca de metade dos seus espectadores. A "economia" de que a TV era portadora reforçou essa tendência.
A resposta encontrada pela Sétima Arte foi o Cinerama e o Cinemascope em 1952, mas os tempos já eram outros e o mercado das imagens tornava-se competitivo, ao mesmo tempo que os Estúdios perdiam o seu poder de tudo controlar, já que a lei “anti-trust” terminou com o monopólio de que eram detentores, sendo obrigados a vender as salas de cinema que controlavam e as respectivas distribuidoras de que eram detentoras.


.No entanto a Sétima Arte, ao mesmo tempo que ia perdendo os seus adeptos, com o passar dos anos, viu renovada a sua audiência. Já não era o público de meia-idade que a procurava, pois esse estava em casa no conforto do lar a ver as imagens oferecidas pela televisão, mas sim os jovens em busca de novas paisagens, nascendo uma geração de cinéfilos que ofereceu muitos cineastas ao grande écran, bastando recordar as origens das novas vagas, fossem elas francesa, a célebre ”nouvelle vague”, depois a alemã nascida com o Manifesto do Festival de Oberhausen ou americanas com a chegada dos ”movie-brats” ao grande écran.


A passividade de que tantas vezes a televisão é portadora foi recusada pela juventude de então, em busca de novas experiências, que optou por eleger as imagens que desejava ver projectadas nos écrans. O nascimento dos Multiplex, com as suas numerosas salas, provocou uma oferta muito maior, aumentando a procura do cinema.


Com o nascimento do formato vídeo, novos dados foram lançados na paisagem audiovisual, ao mesmo tempo que o sonho de inventar e estudar as imagens tornava-se mais acessível. Entretanto, o formato Super-8 foi atingido pelo Inverno.

O vídeo acabou por se tornar autónomo, no interior das imagens, já que ele irá ser também um elemento cinematográfico, como foi o caso de diversas aproximações fílmicas entretanto surgidas: "Número Dois"/ “Numero Deux” de Jean-Luc Godard, "Mistério de Oberwald" / “Il mistero di Oberwald” de Michelangelo Antonioni e "Do Fundo do Coração" / “One From the Heart” de Francis Ford Coppola ou essa obra ímpar intitulada "Morte em Veneza" / “Death in Venice” de Tony Palmer, segundo a ópera de Benjamin Britten e do romance de Tomas Mann.


Quando a Industria discográfica lançou o cd, muitos sonharam num formato idêntico para substituir o vídeo já que, como era o nosso caso, nunca aceitámos a manipulação e mutilação do plano e o vídeo ao usar o processo "pan-and-scan" para encher os televisores das nossas casas, que adulterava a maioria das obras cinematográficas.
Antes de surgir o famoso dvd, a industria lançou o “laser-disc” no mercado, mas sem grande sucesso, excepto em alguns países do continente Asiático, com economias prósperas e nos quais as salas de cinema são um refúgio perfeito da humidade.


Nasce então, após intermináveis negociações a nível económico, no que diz respeito ao formato, o dvd, com as suas célebres quatro zonas, para mal da cinéfilia, que rapidamente entrou nos nossos lares e se tornou numa peça de estimação dos cinéfilos, alguns deles repletos de extras, incluindo os célebres comentários dos realizadores. E mais tarde, como sabemos, irão nascer os famigerados canais por cabo, são centenas e muitos dedicados ao cinema, onde é possível encontrar inúmeras pérolas da Sétima Arte, assim como na Net, que através do YouTube e de sites de referência, nos proporcionam um leque enorme de opções cinematográficas, para nosso encantamento!


(1) - Duas recomendações sobre o tema: o livro de Howard Fast, "Max O Imperador de Hollywood"; o filme de Peter Bogdanovich "O Vendedor de Sonhos".

(2) - Um livro fundamental: "As Estrelas de Cinema" do Edgar Morin, 

(3) – E que tal uma leitura pelas "Reflexões" do René Clair, um divertimento acerca do que foi escrito sobre a arte do mudo e a arte do sonoro, onde o próprio autor e cineasta "dá a mão à palmatória!"

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