sábado, 20 de agosto de 2016

A casa e o escritor



Na casa que vemos na imagem, situada em Kalami, Corfu na Grécia, viveu o escritor Lawrence Durrell, e quando a olhamos quase que vislumbramos o escritor debruçado sobre o papel a escrever mais uma história do seu herói Antrobus, numa espécie de pausa entre os seus grandes romances que ofereceram novos horizontes à Literatura.
Se Fernando Pessoa tivesse vivido naquela casa como é que teria nascido o seu heterónimo Álvaro de Campos? Nasceria também num daqueles momentos de genialidade em que encostado a uma cómoda criaria o poeta marítimo, tendo ainda forças para escrever em nome próprio a sua “Chuva Oblíqua” ou simplesmente andaria a passear com Ricardo Reis conversando sobre a cultura helenística, até chegar aquela pequena vaga que o obrigaria a tirar o seu moleskine do bolso e fazer nascer uma ode marítima?


Lawrence Durrell 

Encontrei Antrobus no dia em que comprei “As Cenas da Vida Diplomática” e de imediato fiquei fascinado por ele e as personagens que se movimentavam nesses círculos diplomáticos tão bem conhecidos do autor. A sua publicação na época teve um efeito devastador no bom sentido, porque o humor vive em cada página com um sorriso verdadeiramente diplomático, embora algumas situações não sejam nada diplomáticas.
Lawrence Durrell escreveu três livros com o herói, foram eles: “Stiff Upper Lip” e Esprit de Corps” ambos editados em Portugal sobre o título “Cenas da Vida Diplomática” e um terceiro volume “Sauve qui Peut” editado autonomamente com o título “Salve-se Quem Puder!” (A Faber & Faber possui uma edição com diversos cartoons dos personagens). E o prazer que a sua leitura me proporcionou levou-me a compartilhar estes livros com todos os meus amigos, porque a melhor prenda que se pode dar a alguém, como todos sabemos, é um livro.


Regressando à casa do escritor temos a sensação de o encontrar a olhar a paisagem debruçado de uma das janelas, enquanto mentalmente vai criando as suas histórias com um sorriso nos olhos da alma, até chegar esse dia em que ele irá trocar de país e partir para uma outra casa, situada na Provença e ali dar nascimento a um Quinteto de Avinhão que nos deixará a todos deslumbrados. Mas para trás ficará sempre na nossa memória as areias escaldantes de Alexandria, onde viveu esse célebre Quarteto, que fez da passagem do tempo uma das mais belas histórias da Literatura.

Olhamos esta casa em Kalami e temos o desejo de fazer recuar os dias até chegarmos a esse café perdido no tempo, onde passávamos as tardes a consumir cigarros e a devorar as páginas do nosso amigo Lawrence Durrell, nesse Verão do nosso encantamento.

6 comentários:

  1. acho sempre interessante a possibilidade de comungar do ambiente, dos objectos, da paisagem... que inspiraram os artistas. Tocar nas obras, neste tempo de produção industrial e quase imaterial, em que os escritores já não usam papel, seria o ideal...

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    1. Este tempo de produção literária em massa, com as suas réntrée literárias, só em França vão sair centenas de títulos em Setembro, mostra como a respiração da literatura ficou refém do mercado, aliás essa norma quase sagrada de editar um título por ano imposta pelos editores aos escritores é na verdade absurda.
      Ao entrarmos na casa de um escritor somos transportados para a época em que ele viveu e de imediato damos por nós a imaginar como se passava o seu quotidiano.
      No quarto de Marcel Proust, que se pode visitar no Museu Carnavalet, ao olharmos para a cama, quase que o vimos deitado rodeado de folhas de papel A3 a escrever o seu "Em Busca do Tempo Perdido".
      Quantos escritores ainda escrevem os seus livros usando papel e caneta neste século XXI, possivelmente muitos mais do que pensamos, mas a maioria será certamente desconhecida do grande público e dos próprios editores.
      E depois também há esse escritor chamado Paul Auster que continua a usar a sua máquina de escrever, apesar da enorme dificuldade em encontrar as famosas fitas.
      Obrigado pela visita e comentário.
      Bom domingo

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  2. Mr Vertigo,
    Adorei ler Durrel. Achei genial a transposição de Pessoa para os locais deste escritor. Julgo que Pessoa sem estar nesta casa a vivenciou. (julgo ou quero julgar).
    Li o Quarteto de Alexandria e o Quinteto de Avinhão quando andei na Faculdade, já passaram uns anos. Será que agora os leria com os mesmos olhos?
    Não sei. Gosto de Durrel, tenho outros títulos dele na minha biblioteca que li após os que registei.
    Quanto à Grécia, estive em algumas ilhas e é realmente impressionante aquela paisagem, porém, Itália, toca-me mais fundo.
    Vinha agradecer-lhe as suas visitas aos meus registos agendados.
    Boa semana!:))

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    1. Adoro a escrita de Lawrence Durrell e tenho lido e relido todos os livros que encontro dele e sobre ele, o mais recente foi o do irmão, Gerald Durrell, intitulado "A Minha Família e Outros Animais", edição da Gradiva, que nos oferece um retrato da primeira estadia da família na Grécia, bem divertido.
      O que noto de mais curioso nos seus livros é que à medida que os anos passam por nós leitores, descobrimos um novo olhar sobre as palavras deste escritor genial.
      Obrigado pela visita e comentário.
      Boa semana :)

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  3. Já visitou a casa de Miguel Torga, em Coimbra?
    Gosto de visitar a casa dos escritores e de ver os seus objectos e o seu ambiente, a última onde estive foi em Alcala de Henares, na casa que se pensa ser de Cervantes. Voltei porque me esqueci de perguntar isto. Vale a pena visitar.:))

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    1. No passado fui com muita regularidade a Coimbra, mas nunca visitei a casa de Miguel Torga, mas numa próxima ida ao Norte do país irei tentar conhecer, tal como a Livraria Lumière, no Porto.
      Agradeço a informação literária e desejo uma boa semana:)

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