terça-feira, 12 de julho de 2016

Sydney Pollack – O Último Cineasta Clássico – Parte 2


Meryl Streep e Robert Redford em
"África Minha! / "Out of Africa"

Quando se começa uma carreira no palco, mais tarde ou mais cedo as saudades dele renascem e assim sucedeu com Sydney Pollack, passando para a frente da câmara em “Tootsie”, ao lado de Dustin Hoffman e Jessica Lange.
“Tootsie” oferece-nos uma crítica feroz e mordaz às famosas “soap” (as célebres telenovelas americanas que se arrastam anos e anos e que assim ficaram denominadas, devido aos produtos vendidos pelos seus patrocinadores, quando foram lançadas na TV. americana) e ao papel do actor como individuo dentro e fora do palco.


Al Pacino no universo do automobilismo em
"Um Momento, Uma Vida" / "Bobby Deerfield

Dustin Hoffman é obrigado a “travestir-se” para fugir ao desemprego e apaixona-se por uma colega de profissão (Jessica Lange), que vê nele/nela a sua melhor amiga. Encontramo-nos assim de volta ao tema da máscara: quem se esconde por detrás dela? Embora a máscara, neste caso concreto, se refira ao corpo na sua potencialidade.
Com “Tootsie”, Pollack voltou às primeiras páginas da imprensa, para depois um silêncio profundo invadir o seu nome. Era a fase da longa e complexa produção de “África Minha”/”Out of Africa”, onde todos iríamos descobrir as memórias de Karen Blixen, escritora dinamarquesa que surpreendeu tudo e todos na sua época.


Robert Redford em "Jeremiah Johnson" /
"As Brancas Montanhas da Morte"

Três anos durou a feitura deste filme admirável, cujos custos rondaram os trinta milhões de dollars, assumindo Sydney Pollack a produção do mesmo, para desta forma controlar todo o processo e impedir a interferência de terceiras na obra que tão arduamente preparara. Os actores foram o inevitável Robert Redford, actor favorito de Sydney, quase um “alter-ego” do cineasta e Meryl Streep, a maior Diva do cinema norte-americano.
Mas se grande parte do êxito desta película, que obteve cinco Oscares, incluindo o de melhor filme e melhor realização, se deve ao trabalho dos actores (esquecidos pela Academia), ele só foi possível devido ao clima romântico/emocional que Sydney Pollack vai criando em cada fotograma, obrigando-nos a viver as imagens e as vidas dos seus protagonistas, esse par apaixonante constituído por Karen e Dennys.
“África Minha”/ “Out of Africa” marcou decididamente o apogeu de uma carreira, iniciada vinte anos antes. O cineasta, com esta obra, oferece-nos um dos mais belos romances cinematográficos do século xx.


Dustin Hoffman em "Tootsie"

Depois da chuva de Oscares e com uma visibilidade a nível planetário, tudo indicava que Sydney Pollack iria descansar, mas ele decidiu fazer mais uma vez uma daquelas obras que nos deixam perfeitamente fascinados na sala escura do cinema olhando maravilhados o écran mágico. Falo evidentemente desse seu filme, infelizmente ainda pouco amado pelo público, intitulado “Havana”.
No elenco temos mais uma vez Robert Redford, o jogador de poker, que nos faz recordar esse Icon chamado Humphrey Bogart ou direi melhor o dono desse clube em Casablanca, e a sueca Lena Olin, (que anteriormente trabalhara com Ingmar Bergman), na figura da esposa do resistente que luta contra o regime de Batista, podendo também ela chamar-se Ilsa e ser esposa de um “tal” Viktor Laszlo fugido dos nazis e que se refugia em Casablanca para adquirir o tal visto que lhe possibilita chegar a Lisboa, para então partir para os EUA. E, para além deste par, nunca nos poderemos esquecer desse grande actor chamado Raul Julia na figura do revolucionário cubano.


Jane Fonda e Robert Redford em
"O Cow-Boy Eléctrico"  / "The Electric Horseman"

Sydney Pollack com “Havana” refez a história de “Casablanca”, com a mesma intensidade desse mítico filme da Sétima Arte. Infelizmente os espectadores não fizeram dele o êxito que bem merecia, mas se nos recordarmos da história no “Box Office” de “Casablanca”, o sorriso no nosso rosto é a sinceridade da memória.
Como alguns se devem recordar, “Casablanca” teve imensos problemas ao longo da sua produção, primeiro no que diz respeito ao elenco, Ingrid Bergman foi uma segunda escolha e Humphrey Bogart a terceira escolha. O argumento era alterado diariamente e ninguém sabia, incluindo os actores, como iria terminar o filme.
Na época da sua estreia foi apenas “mais um” dos muitos filmes produzidos pelos Estúdios de Hollywood para apoiar o esforço de guerra e rapidamente caiu no esquecimento, como muitas outras películas desse período. E seria no início de sessenta, quando a cinéfilia começou a nascer e a dar os seus frutos, que um grupo de estudantes britânicos “descobriram” neste filme a essência do melodrama, fazendo dele o “cult-movie” por excelência e o filme da vida de muitos milhões de espectadores.


Paul Newman e Sally Field em 
"A Calúnia" / "Absense of Malice"

“Havana” é na verdade um novo “Casablanca” moderno, só que desta vez a história é passada numa ilha e nele estão contidas todas as variantes da obra de Michael Curtiz. Por outro lado tanto Robert Redford como Lena Olin estão perfeitos e sedutores nas figuras outrora protagonizadas por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman e claro não nos podemos esquecer de Raul Julia, perfeito no homem dedicado a uma causa.


Sydney Pollack e Sidney Poitier numa pausa 
das filmagens do primeiro filme do cineasta

Já o final que nos oferece “Havana” é tão belo como o protagonizado por Claude Rains e Humphrey Bogart, a diferença é que desta vez temos o herói na praia olhando o horizonte e essa ilha perdida ao longe, onde ficou o grande amor da sua vida, e aqui descobrimos em todo o seu esplendor a essência do melodrama.

(continua)

4 comentários:

  1. Não posso deixar de ver o Dustin Hoffman nesta foto de Tootsie que não pense imediatamente na música dele/a: "Go Tootsie Go!"

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  2. Bons filmes e bons actores.
    Adorei o "África Minha"!

    Boa noite:)

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    1. E sempre difícil eleger qual o melhor filme de Sydney Pollack, mas o "África Minha" permanece um dos meus favoritos. Recomendo também o "Havana" porque é muito pouco conhecido, assim como "Os Três Dias do Condor" e "A Calúnia", para que não caiam no esquecimento.
      Obrigado pelo comentário e bom fim-de-semana.

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