terça-feira, 19 de julho de 2016

Lawrence Kasdan – O Cineasta Acidental – Parte 2


William Hurt em "O Turista Acidental" / "The Accidental Tourist"
o genial filme de Lawrence Kasdan!!!

“The Accidental Tourist” /”O Turista Acidental” é uma das mais comoventes histórias de amor, em que a perda de um filho acaba por levar ao esquecimento do amor do casal Leary (William Hurt e Kathleen Turner) e a inevitável separação, com a habitual história de se precisar de colocar as ideias em ordem.
Para quem não viu o filme (imperdoável!!!!), convém referir que o Malcolm Leary escreve guias de viagem, daí o nome “Turista Acidental”.


Malcolm (William Hurt) reinventa a vida, 
num novo universo familiar.

O escritor compartilha a sua casa com um pequeno cão possuidor de crises de “mau humor” e na véspera de partir para Inglaterra para preparar mais um dos seus famosos livros é obrigado a deixá-lo no “Miau-Béubéu”, um dos muitos hotéis para animais existentes por esse mundo fora, onde irá conhecer a treinadora de cães Muriel Pritchett, que irá alterar o sentido da sua vida para sempre.


Quando o novo universo se afigura perfeito,
de repente o passado (Kathleen Turner) regressa esplendoroso...

Muriel (Geena Davis) adora conversar com os clientes e tem um filho, no qual Malcolm (William Hurt) começa a rever a sua criança, morta quando saía de um MacDonald’s, por um lunático que lhe deu um tiro. E quando Muriel lhe começa a traçar um rumo de vida bastante diferente do seu ele aceita, descobrindo um universo até então desconhecido para ele, mas quando Sarah (Kathleen Turner) regressa, bela e sensual, Malcolm termina por regressar para ela, iniciando-se a “luta” de Muriel para não perder o grande amor da sua vida.


Muriel (Geena Davis) ensina-nos que nunca devemos deixar de lutar, 
pela pessoa que se ama, mesmo quando ela parte.

Lawrence Kasdan assina assim um dos mais belos melodramas da história do cinema, que nos faz recordar dois dos maiores Mestres do género: John Stahl e Douglas Sirk.

A comédia apresentava-se como um género ausente da filmografia de Lawrence Kasdan, até ao momento em que o cineasta decide arregaçar as mangas e convidar o multifacetado Kevin Kline para ser a figura principal da película “Amar-te-ei Até te Matar”/”I Love You to Death”.
Joey Boca (Kevin Kline) e a mulher Rosalie (Tracey Ullman) são donos de uma pizzaria e enquanto ela pensa que o marido está a trabalhar, fazendo as entregas das famosas pizzas, ele aproveita esse período de tempo para se encontrar com as diversas amantes que vai coleccionando, até chegar esse dia inevitável em que a verdade bate à porta, deixando a fervorosa católica Rosalie à beira de um ataque de nervos.


O inesquecível sexteto de "I Love You to Death" /
"Amar-te-ei até Te Matar"

Como não podia deixar de ser, a esposa traída contando com a colaboração da sua querida mãe Nadja (Joan Plowright), decide arquitectar a morte de Joey e assassiná-lo. Devo Nod (River Phoenix), o empregado sempre prestável, decide apoiá-la e contrata os “perigosos” irmãos James (Bill Hurt e Keanu Reeves), para tratarem do caso, mas o nosso heróico Joey lá vai sobrevivendo aos atentados, fugindo da morte como o diabo foge da cruz.


Kevin Kline e a sua faceta de comediante,
nunca dispensa o bigode na personagem.

Se Kasdan pretendia entrar bem no interior da comédia não o conseguiu, em virtude da sua colagem à famigerada comédia britânica. Por outro lado, a personagem criada por Kevin Kline (de bigode, como sempre acontece, quando o actor é interprete de comédias) está muito próxima dessa maravilhosa loucura intitulada “Um Peixe Chamado Wanda” / “A Fish Called Wanda”, por outro lado o “nonsense” não funciona, porque na verdade, não é Ernest Lubitsch ou Billy Wilder quem quer.
Desta forma a abordagem encetada por Lawrence Kasdan no difícil território da comédia apresenta um saldo poco positivo, que será invertido pelo cineasta ao dirigir “French Kiss” / “O Beijo”, corrigindo os erros cometidos em “Amar-te-ei Até te Matar”.


"Grand Canyon"

“Grand Canyon”, o filme seguinte de Kasdan é o regresso, dez anos depois, a uma espécie de sequela de “Os Amigos de Alex” / “The Big Chill”, passada nos anos noventa. As personagens são bastantes diferentes e o meio onde se movem é essa grande metrópole conhecida como a cidade dos anjos / Los Angeles.
Desta feita não é só a história de cada uma das seis personagens que nos é oferecida, mas também uma certa desilusão acerca dessa cidade por parte de Lawrence Kasdan, que surge aqui muito crítico e bastante negativo.


Mary Louise Parker cria uma personagem
secundária inesquecível, em "Grand Canyon".

Tudo começa quando o carro de Mack (Kevin Kline) se avaria, ficando só e perdido na noite de L.A. e inevitavelmente surge um daqueles gangs retratados no magnífico filme de Dennis Hooper, “Reds and Blues”, para lhe “fazerem a folha” e quando tudo parecia perdido surge o reboque de Simon (Danny Glover), que consegue “levar a água ao seu moinho” e evitar a violência que estava prestes a nascer.
Estabelece-se assim uma relação de amizade entre os dois homens, oriundos de classes sociais bem diferentes, nascendo desta forma o ponto de partida para conhecermos as restantes personagens do filme, que constituem a sua essência.


Quantos segredos esconde uma vida?

Lawrence Kasdan regressa assim ao seu melhor, retratando cada uma das personagens, sejam elas principais ou secundárias, como se elas fossem a imagem perfeita dos habitantes de LA. Veja-se o sonho de Simon; o amor de Claire (Mary McDonnel) pelo recém-nascido encontrado na rua, à espera de ser salvo por uma mãe que o ame; a amante de Mack, eternamente à espera do amor que tarda em surgir; o relacionamento de Simon e Jane (Alfre Woodard) demonstrativo de que nunca é tarde para amar.


Lawrance Kasdan, o Argumentista, tornado Cineasta Acidental,
que nos deixou filmes imesquecíveis!

Por fim, iremos acompanhar a partida deste grupo a caminho de um outro horizonte, longe da cidade de betão e das suas “free-ways”, em que quase toda a gente é “bela e bronzeada”, para descobrir na beleza do Grand Canyon, o sabor da liberdade e contemplar tranquilamente, sem ruídos estranhos, o amor nascido, nas linhas cruzadas da amizade. 

(continua)

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