domingo, 19 de junho de 2016

Pier Paolo Pasolini - A outra margem da vida - 2



“Accatonne” revelou-se como a pedrada no charco do neo-realismo e um cineasta começava a nascer, criando uma linguagem cinematográfica única, transformando-se rapidamente num Autor. O futuro acabaria por o revelar ao mundo. Ele que fez a sua “Medea” com Maria Callas na protagonista, mas dobrando a voz da Diva nas falas, através da sua amiga Laura Betti. Para muitos um choque. Tal como foi um choque quando ele ofereceu a sua visão do catolicismo, através do fabuloso “Il Vangelo Secondo Matteo” / “O Evangelho Segundo São Mateus”.


"Os Contos de Canterbury"

Sempre polémico nos seus escritos, incompatibilizando-se com quase todos, a memória da morte do seu irmão durante a 2ª Grande Guerra às mãos dos partidários de Tito marcou-o para sempre, mas os escândalos que se foram criando à sua volta, muitos deles encenados mas alguns bem reais, começaram a tecer a sua perdição, como se fosse um pássaro de asas cortadas.
No início dos anos setenta do século xx, nasce a sua famosa “Trilogia da Vida” composta por “Il Decameron”/”Decameron”, “I Racconti di Canterbury” / “Os Contos de Canterbury” e “Il Fiore Del Mille e Una Notte” / “As Mil e Uma Noites”, que iriam elevar a sua estrela ao firmamento, com o inevitável reconhecimento do seu génio.


"As Mil e Uma Noites"

No entanto uma maçã, oferecida por uma Eva iria expulsá-lo do “Paraíso”, originando na sua escrita a criação de mais inimigos, ao mesmo tempo que as suas noites eram cada vez mais perigosas.
Por fim, num gesto perturbante, renegou a sua Trilogia da Vida e decide “encenar” cinematograficamente os 120 dias da República de Salo, criada por Mussolini e seus seguidores, protegidos por um exército alemão prestes a partir em debandada de uma Itália, à beira de ser conquistada pelas forças aliadas.


 "Saló ou os 120 dias de Sodoma"

“Salò o le 120 Giornate di Sodoma” / “Salo ou os 120 Dias de Sodoma” foi um imenso “escândalo”, tanto em Itália como em toda a Europa e foram poucos os que defenderam a simbiose da escrita do Marques de Sade com a História de Itália, onde a perversão andava de mãos dadas com a história recente.
O cineasta não conseguiria através do seu inconformismo cativar o público, embora a aura de escândalo que a película oferecia, tenha conquistado um outro público.


Maria Callas e Pier Paolo Pasolini 
durante a rodagem de "Medeia"

Na primeira exibição da película, algumas latas do filme foram roubadas da cabine de projecção e alguns pensam que as mesmas foram usadas para atrair Pier Paolo Pasolini à praia de Óstia, para as negociar e reaver, mas nessa noite fatal em que jantou pela última vez na companhia de Ninetto Davolli e a sua família, “Mama Roma” não o conseguiu levar de mota até aos braços de Anna Magnani, preferindo seguir o destino traçado pelo anjo negro de “Teorema”, ao encontro de uma morte violenta.

O mistério que envolveu a sua morte continua por deslindar, mas o seu cinema encontra-se bem vivo, continuando a oferecer uma das obras mais polémicas da Sétima Arte, à qual ninguém consegue ficar indiferente.

THE END

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