sábado, 18 de junho de 2016

Pier Paolo Pasolini - A outra margem da vida - 1


Pier Paolo Pasolini, o cineasta "maldito", teve em Ninetto Davoli, companheiro inseparável de Totó em “Passarinhos e Passarões”, o amigo acima de qualquer suspeita, sendo aquele que permaneceu no círculo de Pasolini desde que ele decidiu fazer cinema até ao último dos dias do cineasta. E dizemos isto porque no dia em que o realizador foi assassinado, na praia de Óstia, jantou em casa de Ninetto na companhia da mulher deste e dos seus dois filhos.


"Rei Edipo"

Mas por falar de amizades, e as de Paolo foram poucas mas duradoiras, nunca nos poderemos esquecer desse outro cineasta chamado Bernardo Bertolucci. O pai de Bernardo, um dos maiores poetas italianos, era amigo de Pasolini, tendo até editado um dos seus livros, mas no dia em que pela primeira vez o jovem Bertolucci viu Paolo, teve medo: tinham acabado de bater à porta dos Bertolucci e o filho do poeta foi abrir, quando deparou com a figura do futuro cineasta, então apenas poeta e este lhe disse que pretendia falar com o pai, Bernardo não o mandou entrar e fechou a porta, dizendo para ele esperar lá fora; Attilio Bertolucci, ao ver os receios do filho perante Pasolini, deu uma sonora gargalhada e disse-lhe que ele era um poeta seu amigo, um grande poeta, que escrevia assim a sua visão de “Roma Cidade Aberta de Roberto Rosselini…


Maria Callas em "Medeia"

“Que golpe no coração, perante aquele cartaz / já gasto… Aproximo-me, observo aquela cor / de um outro tempo que o rosto quente e oval / da heroína exibe, a palidez heróica do pobre, opaca, manifesta. / De súbito, entro! Sacudido por um clamor interior, / decidido a estremecer a cada recordação, / a consumar a glória do meu gesto. / Entro na arena, para o último espectáculo, / sem vida, personagens cinzentas, parentes, amigos dispersos pelos bancos, / perdidos na sombra, em círculos distintos / e esbranquiçados, no fresco receptáculo… / Subitamente, os primeiros enquadramentos. / Transtorna-me e arrebata-me… «l’intermitence du couer» / Encontro-me no escuro caminho da memória, nas misteriosas / câmaras onde o homem é fisicamente outro, / e o passado o banha com o pranto. /Contudo, tornado hábil pelo longo exercício, / não perco os fios: eis a Casilina, /sobre quem tristemente se abrem / as portas da cidade de Rosselini… / Eis a épica paisagem neo-realista, com os fios do telégrafo, as calçadas, os pinheiros, / os murozinhos descarnados, a mística / multidão, perdida nos afazeres quotidianos, / as tenebrosas formas de dominação nazi… / Quase emblemático já, o grito de Magnani, / sob as madeixas desordenadamente absolutas, / ressoa pelas desesperadas panorâmicas, / e nos seus olhares vivos e mudos / se adensa o sentido da tragédia. / É ali que dissolve e se mutila / o presente, e atroa o canto dos aedos.” (1)


"Decameron"

Bernardo, um pouco envergonhado pelo seu medo, convidou Pasolini a entrar e este terminou por entrar na sua vida de cineasta, ao oferecer ao jovem Bertolucci o lugar de assistente de realização, durante a rodagem de “Accattone” e assim o futuro cineasta de “1900” abandonou a poesia, tinha anteriormente recebido um prémio pela sua colectânea de poemas, decidindo partir para a conquista de outra forma de expressão: o cinema.


Silvana Mangano em "Teorema"

Curiosamente, foi devido a uma necessidade urgente de se exprimir de outra forma, para além das palavras escritas numa página em branco, que levou Pier Paolo Pasolini a se decidir pela Sétima Arte. Mas ele nada sabia dessa nova arte e quando confessou a Fellini que pretendia fazer um filme, este disse que estava disposto a produzi-lo, no entanto necessitava de visionar algum trabalho do futuro cineasta.


Pier Paolo Pasolini e Anna Magnani em "Mama Roma"

Assim Paolo e Bernardo partiram para a aventura, mas quando Fellini viu os testes… desapareceu durante dias e o mesmo fez Pasolini, tal era o medo de ambos de confrontarem ideias acerca do que fora feito. Por fim, Fellini confessou que não poderia produzir aquele filme, desistindo do projecto, mas outro produtor decidiu arriscar, oferecendo-lhe um excelente director de fotografia, para impedir os “excessos narrativos” de Pasolini, o seu nome era Tonino Delli Colli, tendo a colaboração entre os dois homens sido estendida para outras películas, ao longo do tempo.

(1) – In “La religione del mio tempos”

 “O Bosque Sagrado” - (Ed. Gota de Água)

(continua)

2 comentários:

  1. Tive a oportunidade de ver as jóias da Callas para este filme no Museu da EDP. Infelizmente não vi o filme, mas acredito pela qualidade do detalhe das peças que mais que não fosse visualmente, deve ser extraordinário!

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    1. Recomendo "A Medeia" do Pasolini com a Maria Callas é natural que o encontre na programação do canal Arte. Obrigado pelo comentário.

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