quarta-feira, 22 de junho de 2016

Céleste Albaret - “Monsieur Proust”


Céleste Albaret
"Monsieur Proust"
(Souvenirs recueillis par George Belmonte)
Robert Laffont, Pag. 460

Céleste Albaret nasceu na província em França, numa pequena cidade chamada Auxillac, e com 21 anos apenas casou-se com um motorista de táxi parisiense chamado Odilon Albaret. Mas Odilon tinha um cliente muito especial que irá mudar para sempre a vida da jovem Céleste, esse cliente chamava-se Marcel Proust, que até lhes enviou a 27 de Março de 1913, aquando do casamento de Odilon, um telegrama a felicitá-lo pelo feliz enlace e a desejar as maiores felicidades para o jovem casal.

Após a viagem de núpcias, Odilon e Celeste regressaram a Paris, uma cidade que a jovem desconhecia por completo e poucos dias depois Odilon Albaret decidiu passar pelo número 102 do Boulevard Haussmann, para informar Marcel Proust que já tinha regressado, tendo levado consigo a jovem esposa, para quem tudo era novidade.


Céleste Albaret, o anjo de Proust,
como lhe chamou Philippe Sollers

Curiosamente, será na cozinha que a jovem Céleste Albaret irá conhecer Marcel Proust e como ela não tinha nenhum emprego em vista, o escritor decidiu oferecer de forma indirecta uma primeira tarefa para a jovem de 22 anos efectuar, com grande agrado de Odilon, que assim via a esposa a começar a ter uma ocupação na cidade das luzes e mais ainda por ficar relacionada com o seu melhor cliente, por quem aliás tinha uma enorme estima.


Quando Proust e Céleste se conheceram, o escritor tinha acabado de ver editado na Grasset o livro “Du côté de chez Swann”, uma edição que aliás foi paga pelo próprio escritor, que durante largo tempo viu o primeiro volume da sua obra “Em Busca do Tempo Perdido” recusado pelos editores e teve que usar o expediente de financiar a própria edição do livro. Como não podia deixar de ser, Marcel Proust encontrava-se a preparar o envio de diversos exemplares do livro devidamente autografados para amigos, familiares e críticos literários, sendo a tarefa de Céleste entregá-los nas respectivas moradas, numa cidade que já era bastante extensa e após ter cumprido esta tarefa que durou algumas semanas com sucesso, a jovem entrou ao serviço do escritor no número 102 do Boulevard Hausmann.


A actriz alemã Eva Mattes
fabulosa ao recriar Céleste no Cinema

Nos primeiros tempos Marcel Proust irá tratar Céleste Albaret por Madame mas, pouco tempo depois a jovem, já familiarizada com a forma de agir de Proust, irá solicitar ao escritor que este a trate simplesmente pelo seu nome próprio, iniciando-se assim uma das mais famosas relações de amizade, repleta de cumplicidades mútuas que irá originar um dos mais belos e sinceros testemunhos dos últimos anos de vida de Marcel Proust, assim como da feitura desse Monumento Literário intitulado “Em Busca do Tempo Perdido”.


"Celeste" do cineasta alemão Percy Adlon

Após a morte do célebre escritor muito se escreveu sobre Marcel Proust e a sua obra, mas nem sempre o que surgia escrito, fosse na imprensa ou em livro, correspondia à realidade e será isso mesmo segundo irá confessar Céleste Albaret, a contar as suas memórias a George Belmonte aos 82 anos, dando assim o seu testemunho dos anos passados ao serviço do escritor, foram as “não verdades” como ela refere que vão dar origem a este fabuloso livro intitulado “Monsieur Proust”, que se lê como um verdadeiro romance da primeira à última página.

Georges Belmonte, na introdução que nos oferece, conta-nos que nas setenta horas de conversa tidas com Céleste Albaret lhe foram dadas todas as provas necessárias da veracidade dos acontecimentos narrados por ela, sem uma única contradição nos testemunhos recolhidos, certamente porque perante ele se encontrava a mais bela e sincera das vozes: a voz da amizade.


Marcel Proust

Ao lermos “Monsieur Proust” de Céleste Albaret, deparamos com o mais belo e sincero testemunho dos últimos anos de vida desse eterno recluso chamado Marcel Proust, emboscado nas trincheiras do seu quarto contra esses terríveis ataques asmáticos que sempre o perseguiram desde criança, aliás bem retratados pelo narrador de “Em Busca do Tempo Perdido”; a sua eterna luta para concluir a obra de uma vida, que se revelaria sempre um “work in progress”, como ele confidenciou um dia à chére Céleste, esse termo bem carinhoso com que ele a tratava, ao mesmo tempo que lhe lia as páginas que ia escrevendo deitado na cama; alimentando-se nos últimos tempos quase sempre de litros de café e de croissants, só em ocasiões especiais aceitava comer um pouco de peixe ou carne, sempre por insistência de Céleste, para não perder tempo, porque “Em Busca do Tempo Perdido” era a razão da sua existência no Universo.

Céleste Albaret é a responsável pela ideia de colar as famosas páginas de formato A3 manuscritas por Proust (os célebres acrescentos) umas às outras para os tipógrafos, ao receberem as correcções das provas feitas pelo escritor, não se enganarem terminando assim com um dos grandes temores de Marcel Proust. Por outro lado, no dia em que a jovem esposa de Odilon sugeriu ao escritor para este arranjar uma secretária, este sorriu e respondeu-lhe que já tinha uma, por quem possuía uma enorme estima, chamada Céleste.


Céleste Albaret na época em que foi
editado o magnifico"Monsieur Proust"

Em “Monsieur Proust” são inúmeros os acontecimentos bem marcantes que atravessam as páginas deste fabuloso livro de memórias: o comportamento de André Gide ao receber para análise o manuscrito de “Du cotê de chez Swann”, afirmando Marcel Proust que ele nunca o leu, tendo simplesmente recusado para publicação, porque os nós do pacote vinham tal como ele os tinha feito, para o envio; a atitude de Gaston Gallimard quando “À l’ombre des jeunes filles” foi consagrado com o Prémio Goncourt(**), o segundo volume de “Em Busca do Tempo Perdido”; a famosa ida de Marcel Proust na companhia de Jean-Louis Vaudoyer ao Jeu de Paume, para ver uma exposição de quadros de Vermeer, que mais tarde irá surgir no romance, revelando-se um dos momentos mais memoráveis da obra literária de Marcel Proust.

“Monsieur Proust” da autoria de Céleste Albaret revela-se assim como uma obra fundamental para a compreensão e estudo desse Monumento Literário que é “Em Busca do Tempo Perdido” de Marcel Proust, oferecendo-nos de uma forma simples, mas profundamente mágica a relação entre o escritor e Céleste Albaret, que um dia lhe disse: «o senhor é um mágico».
 (*) “Do Lado de Swann” Ed. Relógio D’Água

(**)  “À Sombra das Raparigas em Flor” Ed. Relógio D’Água”

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