domingo, 12 de junho de 2016

John Ford - My name is Ford I make westerns - 2


Continuando no “western” não podemos deixar de referir duas obras-primas do Cinema: “A Desaparecida” / “The Searchers” e “O Homem Que Matou Liberty Valance” / “The Man Who Shot Liberty Valance”.

“A Desaparecida” / “The Searchers” é, acima de tudo, um filme sobre a vida no Oeste, muito distante do “Shane” de George Stevens, já que a narração de John Ford se prende não com a vitória de um Homem, mas sim com a derrota de um Homem, porque a personagem interpretada por John Wayne é a de um Homem sem “casa”, após a derrota dos confederados, encontrando na procura de uma criança branca (Natalie Wood), raptada pelos índios, a sua razão de viver.


 "A Desaparecida" / "The Searchers"

Ethan Edwards (John Wayne) parte na sua busca infinita, mas quando encontra a antiga criança já adulta, casada com um guerreiro índio, quase decide partir sem ela, porque ela representa o fim da sua última missão, vendo na jovem apenas mais uma pele-vermelha e não a rapariga do seu sangue. O último plano do filme com a partida de Ethan rumo ao desconhecido, visto do interior da casa, até que a sua figura se confunde com o horizonte, representa bem a solidão que tantas vezes atingiu os personagens, que habitam de forma sublime os filmes de John Ford.


“O Homem Que Matou Liberty Valance” / “The Man Who Shot Liberty Valence” revela-se o “western” nostálgico por natureza, já que nele o herói (James Stewart), um advogado de Leste que serve no “saloon”, se vê constantemente confrontado com esse “western selvagem” protagonizado por Liberty Vallance (interpretado por um Lee Marvin inesquecível) e apenas um homem pode fazer frente à selvajaria de Liberty Vallance, o rancheiro Tom Doniphon (John Wayne), esse mesmo rancheiro que se encontra apaixonado por Hallie (Vera Miles) (3), mas a presença e os modos delicados de Ramson (James Stewart) começam a apoderar-se do coração de Hallie.


James Stewart, Lee Marvin e John Wayne
um trio de luxo num western nostálgico!

“O Homem Que Matou Liberty Valance” fala-nos acima de tudo da chegada da “civilização” ao velho Oeste, mas será essa mesma “civilização”, que irá (re)escrever a história, publicando a lenda e ignorando a verdade dos factos.
Nunca John Wayne esteve tão bem, como na sequência em destrói a casa construída por si para albergar o amor da sua vida, cheio de amargura e raiva, após ter perdido a mulher amada, ele que afinal até tinha morto Liberty Valance na escuridão da noite, para salvar o indefeso Ransom Stoddard.


Henry Fonda em "As Vinhas da Ira" 
uma interpretação inesquecível!

Para terminar gostaríamos de salientar uma trilogia de obras-primas do universo Fordiano: “As Vinhas da Ira”, “O Vale Era Verde” e Mogambo”.
“As Vinhas da Ira” / “ The Graphes of Wrath”, baseado no famoso romance de John Steinbeck, retrata-nos a recessão e a deambulação de uma família em busca de trabalho e a revolta de Tom Joad (Henry Fonda, numa interpretação memorável) perante as condições de sobrevivência e a injustiça que se abate sobre eles. Inesquecível o grito de revolta da personagem e interpretada pelo genial Henry Fonda no final da película, porque enquanto existir um oprimido, o seu grito de revolta estará lá, para nunca mais ser esquecido.


Ava Gardner, Grace Kelly e Clark Gable
o inesquecível triângulo ardente de "Mogambo"!

Já “Mogambo” é um “remake” de “Red Dust” / “Terra Abrasadora”, no qual Clark Gable regressa à personagem interpretada no primeiro filme realizado por Victor Fleming, desta feita ao lado do “mais belo animal do mundo” de seu nome Ava Gardner, que na película de John Ford interpreta a personagem anteriormente assumida pela também bela Jean Harlow.
Estamos em África, essa terra inóspita para as mulheres, mas será esse território africano do universo dos safaris, tão atraente para as paixões avassaladoras em busca desse amor ardente propiciado pelo clima? Em “Mogambo” (sobre o qual já escrevemos aqui em detalhe), temos um duelo memorável interpretado por Ava Gardner e Grace Kelly. Aliás o duelo foi tão vibrante e intenso, que ambas ganharam o “Oscar” de Hollywood. Ava Gardner para Melhor Actriz Principal e Grace Kelly para o de Melhor Actriz Secundária, embora na película ambas dividam o coração de Marswell (Clark Gable) e tenham a mesma intensidade interpretativa.


No que diz respeito a“O Vale Era Verde” / “How Green Was My Valley” trata-se “apenas” do filme que “roubou” os “Oscars” a “Citizen Kane” de Orson Welles.
Todos sabemos como Orson Welles foi vítima da campanha do Magnata da imprensa norte-americana da época, o célebre Hearst, que se viu retratado no filme de Welles, mas a obra de John Ford e a sua história de uma família numa pequena cidade mineira é de uma ternura e sensibilidade comoventes. Na verdade estamos perante duas obras-primas da Sétima Arte e a Academia de Hollywood optou por uma, mas aqui não há vencedores nem vencidos. A história daquela aldeia contada por Huw Morgan (Roddy McDowell) e a vida e luta da sua família é um dos mais belos retratos oferecidos pelo Cinema.

Neste século XXI em que por vezes a memória parece perdida, nunca é demais recordar John Ford e o seu Cinema, com ele sentado na sua cadeira de realizador em Monument Valley tirando o seu lenço do bolso, para soprar nele, enquanto o tabaco continua a ser fumado e mascado, na pausa das filmagens. Ao mesmo tempo que confessa ao seu amigo Peter Bogdanovich: my name is Ford, and I make westerns.


(3) – Vera Miles a actriz que Hitchcock escolheria para protagonista de “Vertigo”, mas que renunciou ao papel em virtude de se encontrar grávida, para profunda tristeza do Mestre, que aceitou contrariado Kim Novak, que fora proposta pelo Estúdio. Alfred Hitchcock ficou tão abalado com o sucedido, que sempre que falava de “Vertigo” ao referir a protagonista, a tratava sempre pelo nome da personagem, a inesquecível Madelaine.

THE END 

2 comentários:

  1. O "Directed by John Ford" está fabuloso! Gosto imenso deste realizador, especialmente de "Mogambo"! Dos que fala aqui falhou-me as "Vinhas...". Boa semana!

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    1. John Ford na sua simplicidade , sempre nos ofereceu um olhar soberbo dos espaços, revelando também ser um profundo conhecedor dessa psicologia que habitava os seus heróis e quando o medo invadiu os Estúdios, nesses anos 50 de má memória (séc. XX), ele fez ouvir a sua voz,
      Recomendo que veja "as Vinhas da Ira" e descubra uma das maiores interpretações desse genial actor chamado Henry Fonda.
      Boa semana.

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