sábado, 11 de junho de 2016

John Ford - My name is Ford and I make westerns - 1


A frase de John Ford “My name is Ford and I make westerns”, por ele proferida, ficou célebre e o “velho” senhor sabia muito bem o que com ela pretendia dizer. Melhor do que ninguém este cineasta que em tempos idos, ou seja, durante a “guerra” que opôs duas revistas de referência na crítica cinematográfica francesa, a “Positif” e os “Cahiers du Cinema” nos anos cinquenta, com o célebre grito dos “Cahiers”: “Viva Wyler, Abaixo Ford”, acabaria por ficar na história da crítica de cinema, como um dos grandes erros de análise à obra de um grande cineasta. Alguns anos depois os célebres “Cahiers du Cinema” retrataram-se, reconhecendo a sua genialidade.


John Wayne em "Stagecoach" / "Cavalgada Heróica"

Sean Aloysius O’Fearna nasceu a 1 de Fevereiro de 1895 na Irlanda, a sua terra sempre amada. A sua infância foi dura e a fome era um elemento preponderante da vida dos irlandeses, devendo-se a isso a sua partida para os EUA, esse Novo Mundo, que Dvorak tão bem retratou na sua Sinfonia mais célebre, que acabaria por vir a ser a sua Pátria.
Chegado lá, John Ford partiu para essa “granja” que então nascia num território chamado Hollywood, onde executou as mais diversas funções no mundo do Cinema, esse mundo então nascente, a par de uma Indústria, denominada Cinema.



John Ford dirigindo uma sequência de 
"O Homem que Matou Liberty Valance" 

Na época, o Cinema era mudo e o ano de “O Cantor de Jazz” / “The Jazz Snger” estava ainda muito distante. Começou a realizar “westerns” para Harry Carey nas mais duras condições e será talvez o cineasta com mais filmes perdidos da época do Mudo. Nesses anos assinava os “movies” como Jack Ford, até que em 1923 ao realizar “Cameo Kirby”, coloca a assinatura que ficaria para a História do Cinema: JOHN FORD.
O seu filme mais célebre desse período, cuja visibilidade é maior neste século xxi é “The Four Sons” / “Os Quatro Filhos”, em que uma mãe vê os seus filhos partir para a Guerra, onde três deles irão morrer, nessa enorme carnificina, que foi a Primeira Guerra Mundial (1).


 John Wayne e Maureen O'Hara em "Rio Grande"

Ao longo dos anos o “western” será o seu território privilegiado, daí a célebre frase “my name is Ford, I make westerns”, citada por aquele que melhor o conheceu e estudou, de seu nome Peter Bogdanovich. Seria aliás o facto de Bogdanovich e Ford se tratarem por tu, tal como vai suceder na relação de Bogdanovich com Orson Welles, que irá criar imensas invejas ao futuro cineasta ao longo da sua carreira. Mas fechemos este parêntesis, para recordar que se o “western” era o género de eleição de John Ford, “Monument Valley” irá revelar-se como o território mítico, onde rodou inúmeros filmes e onde se poderá encontrar o célebre “Ford Point” para o cinéfilo em férias, onde a planície e as rochas e mesetas se cruzam e interligam numa paisagem, onde estamos sempre à espera do aparecimento da cavalaria, sobre o comando de John Wayne.


John Wayne, o irlandês que regressa a casa, 
em "O Homem Tranquilo" / The Quiet Man"

Mas se o “western” foi o território por excelência para John Ford, a sua Irlanda Natal que esteve sempre no seu coração, também servirá de paisagem a algumas das suas películas mais célebres e basta recordar filmes como essa obra-prima que vi pela primeira vez aos dez anos de idade, intitulada “O Homem Tranquilo” / “The Quiet Man” (1952) possivelmente o mais irlandês dos filmes da sua filmografia.
Aliás as suas simpatias pelos independentistas irlandeses nunca foram escondidas, tanto no dia a dia, como no fenomenal “O Denunciante” / “The Informer” (1935) ou “A Primeira Batalha” / “The Plough and The Stars”, onde o expressionismo respira por todos os poros e o amor pela independência da sua terra natal se encontra sempre bem patente.


John Ford (à direita na foto) com alguns
dos protagonistas de "O Homem Tranquilo"

John Ford foi o irlandês que um dia se apaixonou por esse território ainda virgem conhecido como o Oeste, tornando-o numa verdadeira personagem das suas películas e se formos até lá, encontramos um “mundo” inalterado: os índios continuam a viverem no território dos seus antepassados, esquecidos por todos, como se permanecessem numa reserva e sabemos que esses mesmos índios encontravam o seu ganha-pão nos “westerns” de John Ford o consideravam como um pai, porque foram muitas as vezes em que a fome rondou a sua terra e quando as notícias das deploráveis condições de vida chegavam ao cineasta em Hollywood, ele dizia: “meus senhores, vamos até Monument Valley rodar mais um “western”.

Mas nada melhor do que dar a palavra ao próprio cineasta: “Sou de origem irlandesa, mas de cultura “western”. Interesso-me pelo folclore do Oeste, porque me interessa mostrar o real, num quase documentário. Eu próprio já fui “cow-boy”. Gosto do ar livre, dos grandes espaços. O sexo, a obscenidade, os degenerados são coisas que não me interessam.”


"A Desaparecida" / "The Searchers"

A sua obra tem sido editada em DVD lentamente, sem grande alarido. Existe uma caixa contendo o famoso ciclo da Cavalaria, que inclui: “Forte Apache”, “Rio Grande” e “Os Dominadores” / ”She Whore a Yellow Ribbon” (2). “Os Dominadores”, certamente o meu favorito, relata-nos os últimos dias de um capitão de cavalaria (John Wayne) e a sua vida no forte que terá que deixar, embora os índios continuem a fazer os seus estragos, talvez menores que os da jovem mulher faz no coração de dois dos seus oficiais, que aspiram a conquistar o coração daquela que usa a célebre fita amarela da cavalaria a prender o seu cabelo. A acção da película situa-se após a célebre batalha de Little Big Horn, onde o controverso General Custer perdeu a vida, acompanhado pelos seus homens do 7º Cavalaria, revelando-se este “She Whore a Yellow Ribbon” uma das mais belas películas realizadas por esse bom gigante do cinema chamado John Ford-


(1) – Será curioso comparar esta película de John Ford, onde o expressionismo é bem patente, com o mote de “Saving Private Ryan” de Steven Spielberg, a mesma premissa, muitos anos depois, numa outra guerra, onde a carnificina se juntou à irracionalidade do Homem.

(2) - “Yellow Ribbon” o célebre laço amarelo que a mulher trás no cabelo, sinónimo do compromisso amoroso, mas “secreto”, com um homem da cavalaria.

(continua)

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