quinta-feira, 30 de junho de 2016

Agatha Christie – “Hercule Poirot"




Muitas vezes se diz que as palavras são como as cerejas, quanto mais se comem mais se gosta delas e muitas vezes o mesmo sucede com os livros, especialmente quando descobrimos no protagonista alguém que nos seduz e nos leva a querer ler mais sobre ele ou as suas aventuras no universo literário.

Como sou um ser humano com qualidades e defeitos, também eu tenho o meu herói favorito no universo literário e ele, ao contrário do que se poderia pensar, não é americano, nem francês, mas sim belga apesar de muitas vezes ser visto como “esse maldito francês bisbilhoteiro” ou “franciú” como alguns já lhe chamaram, incomodados com as suas investigações.


É verdade, estou a falar de Monsieu Hercule Poirot, esse genial detective belga criado por Agatha Christie e cujos livros já li e reli inúmeras vezes, para além de devorar com uma certa regularidade as adaptações televisivas que foram feitas das suas aventuras e que tiveram o actor britânico David Suchet, a encarnar o célebre detective (que recentemente escreveu um livro intitulado "Poirot and Me", cuja leitura desde já recomendo vivamente).

As aventuras do detective Hercule Porot são na verdade a minha saga (um termo muito em voga no sec. XXI) favorita, apesar de ter outras de que também gosto bastante, como é o caso do meu amigo Antrophos, criado por Lawerence Durrell. Mas regressando à minha "saga favorita", direi que ler as aventuras de Hercule Poirot é um prazer verdadeiramente sedutor, embora a escritora Agatha Christie não tivesse um grande amor por ele, apesar de terem sido os livros que o têm como protagonista os que lhe encheram a conta bancária.


Agatha Christie preferia Misss Marple a Hercule Poirot e em muitos dos livros se percebe que o enredo foi pensado sem ele e depois, por sugestão do editor, lá o introduziu, porque na verdade são as aventuras de Hercule Poirot os livros mais vendidos de Agatha Christie, que até decidiu matar o famoso detective para ninguém dar continuação às suas aventuras.

Mas a família da escritora não foi da mesma opinião e eis que surge nesse mercado editorial do séc. XXI outra entidade a escrever novas aventuras de Hercule Poirot. No entanto prefiro ler vezes sem conta as aventuras de Poirot pela mão de Agatha Christie do que escritas por outra pessoa, neste novo século em que vale tudo, um dia destes ainda vamos ter alguém a pintar Giocondas e muitos a pensarem que Leonardo da Vinci é um jovem italiano que usa modelos da Vogue nas suas telas.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Philippe Sollers – “A Estrela dos Amantes” / "L'Étoile des Amants"


Philippe Sollers
"A Estrela dos Amantes"
Teorema, Pag. 150

Na net é possível encontrar diversos inquéritos ou questionários, se preferirem, sobre a relação dos leitores com os livros e um dia encontrei uma questão que passo a reproduzir:

Considerando que o primeiro livro da tua estante é a letra “A”, o segundo a letra “B” e por aí adiante, tira o livro correspondente à primeira letra do teu nome, depois abre na página correspondente à soma do mês e dia em que nasceste. Qual é o quarto parágrafo?


Renè Magritte

Ao ler esta pergunta sou obrigado a encará-la como uma espécie de equação "matemática" que, de imediato, ao contrário do que se julga, pratica a exclusão. E digo isto porque seguindo os dados indicados para a escolha do livro ou melhor os passos em volta da minha biblioteca, retirei o livro correspondente. E convém dizer que por razões de espaço ou a falta dele os meus livros espalham-se pelos móveis sem ordem definida, mas por tamanho de forma a utilizar o máximo de espaço possível.

Ao retirar o livro em questão descobri que se tratava de "Paradis", de um autor muito querido, Philippe Sollers, e a resposta à questão “literária” tornou-se impraticável, pois o genial "Paradis" não possui parágrafos, aliás não tem qualquer sinal de pontuação, é para se ler devagar, utilizando o leitor a sua respiração para fazer a respectiva pontuação ou seja sentir esse prazer do texto de que Roland Barthes falou/escreveu, mas se desejar conhecer este romance de Philippe Sollers, leia primeiro "Sollers écrivain" de Roland Barthes, recentemente reeditado pela Points.


Roland Barthes e Philippe Sollers
na capa de "Sollers Écrivain"

Voltando à equação desta pergunta, percebi que tinha obtido um resultado, o escritor chama-se Philippe Sollers e é um nome incontornável da Literatura. Sendo assim, decidi ir buscar o único livro editado em Portugal de Philippe Sollers de que tenho conhecimento e espero bem estar enganado. Aqui vos deixo um pouco da escrita desse genial escritor que é urgente (re)descobrir e editar no nosso país:


"Para atingir a compreensão, dizem os textos antigos, é preciso olhar a estrela do Norte virando-se para sul. Olha, é fácil e ocorre-nos por intuição. O mundo é um teatro, podemos vê-lo de todo o lado, numa sucessão. Não é por eu estar aqui que não estou lá em baixo. O passado muito antigo está pertíssimo. Eu sou ondulante, diverso, possuo mais recordações de que se tivesse seis mil anos. Assim habitei a pequena rua dos Alquimistas em Praga. O meu amigo K. e eu íamos aos bordéis da cidade, mas não fiquei por muito tempo, tinha de regressar a Paris."

terça-feira, 28 de junho de 2016

Yukio Mishima – “O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar” / "Gogo No-Eiko"


Yukio Mishima
"O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar"
Assírio & Alvim, Pag. 184

Um dia, numa conversa num café à volta de livros e autores, alguém me perguntou se tinha algum personagem literário que gostaria que tivesse ficado esquecido pelo seu criador? E de imediato me veio à memória esse genial escritor japonês chamado Yujio Mishima, de cuja obra literária sou admirador. Recorde-se que Yukio Mishima é um dos mais importantes escritores japoneses do século XX e o mais célebre no mundo ocidental, tendo até Margueritte Yourcenar escrito um belo ensaio sobra a sua vida e obra.

Ao longo da sua extensa obra literária, Yukio Mishima aliou o erotismo com a crueldade, criando um universo extremamente sedutor, mas a sua vida era o espelho da sua obra e a sua obra o reflexo da sua vida.
O nacionalismo e a honra que defendia eram a memória dos velhos samurais, essa mesma memória de que Akira Kurosawa nos falou um dia, perdida para sempre num Japão industrializado e em muitos aspectos ocidentalizado, fruto da ocupação americana, após o final da 2ª Grande Guerra Mundial.


Foi o amor de Yukio Mishima pela escrita do sangue que o irá conduzir através dessa estrada sem retorno e sem paragem na famosa encruzilhada, que nos convida sempre a meditar sobre a decisão por ele tomada. A 25 de Novembro de 1970 decide, com quatro alunos das suas Forças, tentar um golpe de estado que sabia votado ao fracasso, para repor a Ordem Imperial. Na véspera enviara para o editor "O Mar da Fertilidade", a sua última obra, composta por quatro volumes, verdadeiro Testamento Literário e uma obra incontornável de um dos maiores escritores do século xx. Vivendo numa sociedade virada para o futuro e para o consumo e querendo impor o amor pelo passado e pela tradição, Yukio Mishima faz o "hara-kiri" perante uma multidão de soldados e jornalistas que, incrédulos, assistem à partida do Último dos Samurais.


Em “O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar”, primeiro livro de Yukio Mishima a ser publicado em Portugal, é-nos oferecida uma personagem que até gostaríamos que não tivesse sido criada pelo genial escritor japonês. Trata-se de Noburo, uma criança cruel, que no final do livro irá dar-nos a conhecer o verdadeiro sentido da palavra, mas que Yukio Mishima nos oferece com essa rara delicadeza que sempre caracterizou a sua escrita.

Descobrir este fabuloso livro de Yukio Mishima é a nossa sugestão de hoje e, se desejarem, podem sempre procurar no livro de António Mega Ferreira, que reúne diversas crónicas do autor, intitulado “A Borboleta de Nabukov” o magnifico texto que ele escreveu para o Jornal de Letras, aquando da primeira edição de “O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar”  e também nunca é demais recomendar a leitura do livro de Margueritte Yourcenar sobre Yukio Mishima.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Paul Auster – “Mr. Vertigo” / "Mr. Vertigo"


Paul Auster
"Mr. Vertigo"
Asa, Pag. 298

Nos dias de hoje fala-se muito de sequelas literárias, fruto dos tempos ou da ambição dos editores ou simplesmente o belo desejo de um autor explorar melhor os caminhos da personagem que nasceu da sua escrita. Confesso que não sou a favor de sequelas, mas se me perguntassem qual o livro de que gostaria de ver escrita uma sequela? Diria que esse acto literário teria que ser levado a cabo pelo próprio escritor e não por terceiros, como ultimamente tem sucedido nesses insondáveis caminhos da Edição do século XXI.

O escritor eleito será Paul Auster, um dos meus escritores de cabeceira, que descobri um dia ao ser publicada em Portugal a famosa “Trilogia de Nova Iorque”, na época editada pela Difusão Cultural e, desde esse dia, li tudo o que ele escreveu ao longo dos anos, fosse em edições nacionais, inglesas ou americanas. Paul Auster que, como muitos sabem, é um profundo conhecedor do nosso país, já passou por aqui diversas vezes, aliás no seu último livro escrito a duas mãos, com o escritor sul-africano J.M. Coetzee, “Here and Now – Letters 2008-2011”, ele fala da sua última estadia no Estoril e possivelmente alguns viram-no na Culturgest, já lá vai alguns anos, numa das suas leituras, para além de ter realizado um dos seus filmes, “A Vida Interior de Martin Frost”, por aqui, com produção de Paulo Branco.


Mas para não perder o fio à sequela, direi que o livro eleito seria “Mr Vertigo”, para assim poder conhecer mais  aventuras/memórias do Walt o Rapaz Maravilha, e do seu mentor o fabuloso Mestre Yehudi, os sonhos do rapaz maravilha conduzem-no ao voo e ele torna-se um ídolo da América, mas como todos os ídolos, também ele irá cair, mas depois renascerá das cinzas e voltará a conhecer o sabor amargo da perdição e já com a idade a fugir-lhe do corpo, Walt conta-nos as suas aventuras de Rapaz Maravilha e quantas histórias terão ficado por contar, ele que teve o mundo a seus pés, certamente muitas mais ficaram na pena mágica de Paul Auster ou se preferirem numa das suas famosas máquinas de escrever.

Vale a pena descobrir o fabuloso livro de Paul Auster intitulado “Mr, Vertigo”, uma obra-prima da Literatura Mundial e se o escritor norte-americano um dia retomasse numa sequela as aventuras destes seus personagens seria simplesmente maravilhoso.

domingo, 26 de junho de 2016

Oscar Wilde – “A Importância de Ser Earnest e Outras Peças” / "The Importance of Being Earnest and Other Plays"


Oscar Wilde
"A Importância de se Chamar Ernesto e Outras Peças"
Relógio D'Água, Pag. 358

Quando alguém fala em Teatro e em nomes incontornáveis, de imediato o nome que surge na boca de todos é William Shakespeare, sendo a minha peça favorita “A Tempestade”, mas a minha memória leva-me também a outro dramaturgo, alguém cujas peças são de uma delicadeza e finura, trabalhando as palavras de uma forma sublime em todas as peças que escreveu e estou a falar desse génio chamado Oscar Wilde, de quem não me canso de ver as peças encenadas em palco, assim como as suas adaptações cinematográficas ou televisivas.


Cate Blanchett e Jeremy Northan na adaptação cinematográfica
de "Um Marido Ideal", um filme realizado por Oliver Parker

A editora Relógio D’Água editou num volume quatro das mais belas peças assinadas por Oscar Wilde: “O Leque de Lady Windemere” / “Lady Windemere’s Fan”, (1893), “Uma Mulher Sem Importância” / “A Woman of No Importance” (1894), “Um Marido Ideal” / “An Ideal Husband” (1899) e “A Importância de Ser Ernesto” / “The Importance of Being Earnest” (1899). Nestas quatro peças é-nos oferecida a Arte deste génio, que bem merece ser recordado e admirado, depois de ter sido tão maltratado pelos seus contemporâneos. Aqui vos deixo um pequeno diálogo bem saboroso de “A Importância de Ser Ernesto”, num convite a meditarem nas palavras de Oscar Wilde:


Frances O'Connor e Colin Firth / Rupert Everett e Reese Witherspoon
na adaptação cinematográfica de "A Importância de se Chamar Ernesto",
uma película também realizada por Oliver Parker, 


Cecily: - Tenho um diário para arquivar os maravilhosos segredos da minha vida. Se não os apontasse, esquecia-os com certeza.

Miss Prism: - A memória minha cara Cecily, é o diário que todos nós trazemos connosco.


"A Importância de se chamar Ernesto” - Oscar Wilde

sábado, 25 de junho de 2016

James Dean – O Eterno Rebelde!!!



A vida de James Dean foi bastante atribulada. A sua mãe morreu quando ele tinha nove anos, originando a ida de Jimmy para casa de um tio. O futuro herói da juventude acabou por entrar na universidade, da qual fugiu pouco tempo depois, para se transformar em marinheiro, quebrador de gelo e grumete num iate, até que por fim chega à Broadway. Aí representa “See the Jaguar” e “O Imoralista”, o que se traduziu no passaporte para Hollywood e a participação em “A Leste do Paraíso” / “East of Eden” (baseado no best-seller de John Steinbeck), dirigido pelo seu amigo Elia Kazan, já que ambos se conheciam do teatro e o cineasta dirigiu algumas das suas peças.


No ano seguinte – 1956 – foi a vez de Nicolas Ray o lançar em “Fúria de Viver” / “Rebel Without a Cause”, colocando-o ao lado de outros jovens actores como Natalie Wood, Sal Mineo e Dennis Hooper. Este foi, sem dúvida alguma, o filme pelo qual é mais vezes recordado, sendo ao mesmo tempo aquele em que a juventude, seja qual for a sua geração, se reconhece no écran, através da revolta contra a instituição familiar, a amizade dos grupos e o amor da rapariga desejada.
Quando toma conhecimento que George Stevens vai realizar “O Gigante”/”The Giant”, dirige-se a ele e pede-lhe, desta forma, o papel: “… é um papel para mim, senhor Stevens!”.


James Byron Dean foi o primeiro herói rebelde a surgir no écran, quebrando as normas sociais vigentes, usando blue-jeans, t-shirts, ao mesmo tempo que o seu corte de cabelo se revelava um desafio ao sistema.
Ele conseguiu alcançar tudo o que pretendia, excepto o amor de Pier Angeli, que terminou por se casar com Vic Damone, apesar da ruidosa manifestação de James Dean, na sua mota, junto à igreja, onde se realizava a sua perdição,ou seja o casamento de Pier Angeli  para grande escândalo dos presentes.
Terminadas as filmagens de “O Gigante”, Jimmy parte, de noite, no seu Porsche para Salinas, a fim de participar numa corrida, mas o seu destino acabou por ser um encontro com a morte, ou antes a Eternidade!!!


A Industria de Hollywood vivia os últimos dias do “star-system” e a tentação de prolongar a imagem de James Dean fracassou, pois nem Marlon Brando em “Wild One” de Lazslo Benedek, nem Warren Beatty em “Esplendor na Relva”, de Elia Kazan, conseguiram ocupar o lugar de eterno rebelde, que a juventude de todo o mundo e mais concretamente a norte-americana reconhecia pertencer ao eterno James Dean.
O grito de uma espectadora na estreia de “O Gigante”, ficou célebre na história do cinema: “volta Jimmy, amo-te, estamos à tua espera!”, o qual viria a servir de mote a Robert Altman para o seu maravilhoso filme “Volta Jimmy Dean, Volta Para Nós!”.


Ao longo dos anos muitas histórias se criaram acerca da possibilidade de o ídolo rebelde estar vivo, escondido algures, em virtude de as marcas do acidente serem bem visíveis no seu rosto, mas o jovem rebelde não regressou do seu território, tal como sucederia mais tarde com esse outro rebelde chamado Jim Morrison.
Um dado pouco conhecido é que James Dean nunca viu no écran os filmes em que foi protagonista, já que todos eles se estrearam após a sua morte violenta. Muitos anos depois, já num outro século, James Byron Dean permanece o Eterno Rebelde, para todos aqueles cuja memória não foi trucidada pelo conformismo e a celebridade desses famosos 15 minutos de fama!!!

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Os Peanuts são a magia do universo!!!


Charlie Brown, o ingénuo rapaz sempre tão filosófico nos seus pensamentos, um suspiro dele revela-se sempre muito mais produtivo que muitos “intelectuais” da moda, apesar de algum derrotismo por vezes presente nos seus sábios pensamentos

Snoopy, esse ser de forte personalidade, ao mesmo tempo ternurento e irrequieto, que adora dormir no telhado da sua casota vermelha (as tiras começaram a ser passadas a cores) e depois quando a noite cai e os sonhos o acordam, se transforma num audaz piloto de aviação durante a 1ª Guerra Mundial, sempre em luta com o magnifico Barão Vermelho (célebre piloto alemão da 1ª Grande Guerra), mas também temos o lado intelectual de Snoopy quando enverga o “fato” de escritor, reparem na sua azáfama com a máquina de escrever, quase sempre na bela companhia do seu fiel Woodstock, esse pássaro amarelo, que lhe dedica a maior amizade do mundo.



Linus e o seu amigo inseparável, esse cobertor que não o larga ou será ele que não larga o cobertor? Gosta também de filosofar sobre a vida de uma forma bem diferente de Charlie Brown.

Lucy, a irmã de Linus, cujo passatempo favorito é maltratar todos os rapazes que conhece, em especial Charlie Brown e o seu fiel Snoopy que, ao contrário do dono, sabe sempre responder às provocações da irritante Lucy.

Schroeder, o melómano adorador de Beethoven, que por sua vez é adorado por Lucy, mas que não lhe devolve os afectos da mesma maneira.


Bill Menendez 
O cineasta dos filmes de animação dos Peanuts 

Patty, a deliciosa ingénua do grupo, esse coração de manteiga que tanto nos diverte, apaixonada por Charlie Brown, ainda não compreendeu que Snoopy é um cão.

Marcie, a melhor amiga de Patty, também possui uma paixão secreta por Charlie Brown, miúda aplicada nos estudos com os inevitáveis óculos

Sally Brown, a irmã de Charlie Brown, ao contrário dele não tem propensão para filosofar e tudo o que diz revela os números baixos do seu QI


Woodstock, esse pássaro que dedica uma eterna amizade ao seu amigo Snoopy, gosta sempre de o acompanhar para todo o lado e divertem-se sempre muito os dois, por vezes até vêm uns amigos dele para ajudar à festa.

Obrigado Charles M. Schulz!

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Céleste Albaret - “Monsieur Proust”


Céleste Albaret
"Monsieur Proust"
(Souvenirs recueillis par George Belmonte)
Robert Laffont, Pag. 460

Céleste Albaret nasceu na província em França, numa pequena cidade chamada Auxillac, e com 21 anos apenas casou-se com um motorista de táxi parisiense chamado Odilon Albaret. Mas Odilon tinha um cliente muito especial que irá mudar para sempre a vida da jovem Céleste, esse cliente chamava-se Marcel Proust, que até lhes enviou a 27 de Março de 1913, aquando do casamento de Odilon, um telegrama a felicitá-lo pelo feliz enlace e a desejar as maiores felicidades para o jovem casal.

Após a viagem de núpcias, Odilon e Celeste regressaram a Paris, uma cidade que a jovem desconhecia por completo e poucos dias depois Odilon Albaret decidiu passar pelo número 102 do Boulevard Haussmann, para informar Marcel Proust que já tinha regressado, tendo levado consigo a jovem esposa, para quem tudo era novidade.


Céleste Albaret, o anjo de Proust,
como lhe chamou Philippe Sollers

Curiosamente, será na cozinha que a jovem Céleste Albaret irá conhecer Marcel Proust e como ela não tinha nenhum emprego em vista, o escritor decidiu oferecer de forma indirecta uma primeira tarefa para a jovem de 22 anos efectuar, com grande agrado de Odilon, que assim via a esposa a começar a ter uma ocupação na cidade das luzes e mais ainda por ficar relacionada com o seu melhor cliente, por quem aliás tinha uma enorme estima.


Quando Proust e Céleste se conheceram, o escritor tinha acabado de ver editado na Grasset o livro “Du côté de chez Swann”, uma edição que aliás foi paga pelo próprio escritor, que durante largo tempo viu o primeiro volume da sua obra “Em Busca do Tempo Perdido” recusado pelos editores e teve que usar o expediente de financiar a própria edição do livro. Como não podia deixar de ser, Marcel Proust encontrava-se a preparar o envio de diversos exemplares do livro devidamente autografados para amigos, familiares e críticos literários, sendo a tarefa de Céleste entregá-los nas respectivas moradas, numa cidade que já era bastante extensa e após ter cumprido esta tarefa que durou algumas semanas com sucesso, a jovem entrou ao serviço do escritor no número 102 do Boulevard Hausmann.


A actriz alemã Eva Mattes
fabulosa ao recriar Céleste no Cinema

Nos primeiros tempos Marcel Proust irá tratar Céleste Albaret por Madame mas, pouco tempo depois a jovem, já familiarizada com a forma de agir de Proust, irá solicitar ao escritor que este a trate simplesmente pelo seu nome próprio, iniciando-se assim uma das mais famosas relações de amizade, repleta de cumplicidades mútuas que irá originar um dos mais belos e sinceros testemunhos dos últimos anos de vida de Marcel Proust, assim como da feitura desse Monumento Literário intitulado “Em Busca do Tempo Perdido”.


"Celeste" do cineasta alemão Percy Adlon

Após a morte do célebre escritor muito se escreveu sobre Marcel Proust e a sua obra, mas nem sempre o que surgia escrito, fosse na imprensa ou em livro, correspondia à realidade e será isso mesmo segundo irá confessar Céleste Albaret, a contar as suas memórias a George Belmonte aos 82 anos, dando assim o seu testemunho dos anos passados ao serviço do escritor, foram as “não verdades” como ela refere que vão dar origem a este fabuloso livro intitulado “Monsieur Proust”, que se lê como um verdadeiro romance da primeira à última página.

Georges Belmonte, na introdução que nos oferece, conta-nos que nas setenta horas de conversa tidas com Céleste Albaret lhe foram dadas todas as provas necessárias da veracidade dos acontecimentos narrados por ela, sem uma única contradição nos testemunhos recolhidos, certamente porque perante ele se encontrava a mais bela e sincera das vozes: a voz da amizade.


Marcel Proust

Ao lermos “Monsieur Proust” de Céleste Albaret, deparamos com o mais belo e sincero testemunho dos últimos anos de vida desse eterno recluso chamado Marcel Proust, emboscado nas trincheiras do seu quarto contra esses terríveis ataques asmáticos que sempre o perseguiram desde criança, aliás bem retratados pelo narrador de “Em Busca do Tempo Perdido”; a sua eterna luta para concluir a obra de uma vida, que se revelaria sempre um “work in progress”, como ele confidenciou um dia à chére Céleste, esse termo bem carinhoso com que ele a tratava, ao mesmo tempo que lhe lia as páginas que ia escrevendo deitado na cama; alimentando-se nos últimos tempos quase sempre de litros de café e de croissants, só em ocasiões especiais aceitava comer um pouco de peixe ou carne, sempre por insistência de Céleste, para não perder tempo, porque “Em Busca do Tempo Perdido” era a razão da sua existência no Universo.

Céleste Albaret é a responsável pela ideia de colar as famosas páginas de formato A3 manuscritas por Proust (os célebres acrescentos) umas às outras para os tipógrafos, ao receberem as correcções das provas feitas pelo escritor, não se enganarem terminando assim com um dos grandes temores de Marcel Proust. Por outro lado, no dia em que a jovem esposa de Odilon sugeriu ao escritor para este arranjar uma secretária, este sorriu e respondeu-lhe que já tinha uma, por quem possuía uma enorme estima, chamada Céleste.


Céleste Albaret na época em que foi
editado o magnifico"Monsieur Proust"

Em “Monsieur Proust” são inúmeros os acontecimentos bem marcantes que atravessam as páginas deste fabuloso livro de memórias: o comportamento de André Gide ao receber para análise o manuscrito de “Du cotê de chez Swann”, afirmando Marcel Proust que ele nunca o leu, tendo simplesmente recusado para publicação, porque os nós do pacote vinham tal como ele os tinha feito, para o envio; a atitude de Gaston Gallimard quando “À l’ombre des jeunes filles” foi consagrado com o Prémio Goncourt(**), o segundo volume de “Em Busca do Tempo Perdido”; a famosa ida de Marcel Proust na companhia de Jean-Louis Vaudoyer ao Jeu de Paume, para ver uma exposição de quadros de Vermeer, que mais tarde irá surgir no romance, revelando-se um dos momentos mais memoráveis da obra literária de Marcel Proust.

“Monsieur Proust” da autoria de Céleste Albaret revela-se assim como uma obra fundamental para a compreensão e estudo desse Monumento Literário que é “Em Busca do Tempo Perdido” de Marcel Proust, oferecendo-nos de uma forma simples, mas profundamente mágica a relação entre o escritor e Céleste Albaret, que um dia lhe disse: «o senhor é um mágico».
 (*) “Do Lado de Swann” Ed. Relógio D’Água

(**)  “À Sombra das Raparigas em Flor” Ed. Relógio D’Água”

terça-feira, 21 de junho de 2016

Darwin Porter – “Brando Mas Pouco” / "Brando Unzipped"


Darwin Porter
"Brando Mas Pouco"
Pedra da Lua, Pag. 768

Esse género literário que é a Biografia teve sempre, ao longo dos anos, os seus defensores e os seus detractores, e depois há sempre as biografias apadrinhadas ou autorizadas pelos próprios biografados, como também existem as biografias não autorizadas e por vezes proibidas após uma vitória em tribunal contra o autor do livro, que por vezes até se trata de um “Ghost Writer”, assim como esse outro subgénero intitulado biografias romanceadas, como fez com sucesso a escritora norte-americana Joyce Carol Oates, quando escreveu “Blondie”, sobre Marilyn Monroe e onde Marlon Brando surge sob o nome de Anjo Negro.



Darwin Porter escreve “Brando mas Pouco” sobre esse actor incontornável chamado Marlon Brando. Esta biografia pretende não só retratar a vida do conhecido actor do método, um dos eleitos de Elia Kazan, como muitos estão recordados, mas também oferecer ao leitor um retrato da Hollywood dos tempos áureos de Marlon Brando, essa mesma Hollywood que Darwin Porter afirma ter conhecido muito bem.

Como não podia deixar de ser fomos obrigados a comparar esta biografia da autoria de Darwin Potter com aquela que foi escrita pelo próprio Marlon Brando e o jornalista Robert Lindsey intitulada “Canções que a Minha Mãe me Ensinou” e à medida que liamos “Brando mas Pouco” a leitura do livro revelava-se não surpreendente mas sim bastante penosa e convém salientar que este livro só viu a luz do dia após a morte do actor.


Em “Brando mas Pouco” Darwin Potter pretende não só escrever sobre o actor mas também sobre o lado menos visível de Hollywood, esse lado nocturno muito pouco luminoso por onde nasciam as célebres festas privadas, onde os eleitos eram escolhidos a dedo. Pretendendo ser um conhecedor desse universo, o autor do livro confessa ter conversado com pessoas que conviveram directamente com Marlon Brando, desde colegas de profissão, até aos cineastas que o dirigiram, passando pelo círculo de amigos mas próximo. Mas se compararmos “Brando mas Pouco” com o fabuloso livro de Otto Friedrich “City of Nets”, percebemos que este último retrata Hollywood de uma forma incisiva, bem documentada, com humor e tristeza, e até sangue, suor e lágrimas, ao contrário do registo optado por Darwin Porter, que falha redondamente ao optar por um tom por vezes escabroso, vulgarizando o calão como linguagem, elegendo como cruzada a divulgação das tendências sexuais do planeta Hollywood desses anos de ouro, referindo nomes que muitas vezes deixam incrédulo o mais comum dos leitores.


Ao longo da leitura de “Brando mas Pouco”, Darwin Potter nunca fala do melhor amigo de Marlon Brando, o actor Jack Nicholson, o que deixa logo o leitor mais atento destas “coisas de Hollywood” bastante reticente, para além de apenas dedicar 15 linhas do livro para nos falar do trabalho do actor na película “Apocalipse Now” de Francis Ford Coppola (convém dizer que Eleonor Coppola, a esposa do cineasta, dedica mais linhas a Marlon Brando no seu livro  “Notes on the Making of Apocalipse Now”), mas Porter depois informa-nos que possui material sobre Marlon Brando que dava para escrever mais dez livros.


Qualquer cinéfilo atento às vidas da capital do cinema sabe que por ali não moram propriamente anjos e que a vida familiar de Marlon Brando foi bastante conturbada e a sua carreira repleta de sobressaltos, mas ler este livro da autoria de Darwin Porter revelou-se uma leitura bastante penosa, deixando-me incrédulo muitas vezes com o que lia. Se o leitor destas linhas pretende ler uma biografia desse enorme actor de Hollywood, um dos melhores representantes dessa arte denominada “o método”, recomendamos vivamente o livro “Canções que a Minha Mãe me Ensinou”, escrito a duas mãos por Marlon Brando e Robert Lindsey e depois temos sempre esses filmes inesquecíveis que Marlon Brando nos deixou e onde nos revela todo o seu talento, sugiro que comecem pelo genial “Julio César”/ “Julius Caesar” de Joseph L. Mankiewicz

segunda-feira, 20 de junho de 2016

E. M. Forster – “Pharos & Pharillon - Uma Evocação de Alexandria” / "Pharos and Pharillon (A Novelist's Sketchbook of Alexandria Through the Ages)"



E. M. Forster
"Pharos & Pharillon - Uma Evocação de Alexandria"
Livros Cotovia, Pag. 114

Há livros que nos deixam profundamente fascinados pela história de uma cidade e “Pharos & Pharillon – Uma Evocação de Alexandria”, da autoria de E. M. Forster, possui esse mesmo fascínio, revelando-nos a magnifica Arte deste escritor nascido em Londres em Janeiro de 1879 e que faleceu em 1970, deixando-nos uma obra extensa que irá passar ao cinema pelas mãos de James Ivory e David Lean, dois cineastas que sempre revelaram um enorme fascínio pela obra literária deste escritor.


A Biblioteca de Alexandria
A morada do saber da Antiguidade

O livro “Passagem Para a Índia” / “A Passage to India” esperou 14 anos para ser publicado, tendo sido levado muitos anos depois ao cinema pelo britânico David Lean, revelando-se como a última obra do cineasta.
“Quarto com Vista” / “A Room With a View” (1908) e “Howard’s End” (1910) chegaram ao cinema pela mão do americano James Ivory, assim como “Maurice”, uma obra literária que só viria a ser publicada um ano após a morte do escritor, de acordo com o seu desejo.


“Pharos & Pharillon – Uma Evocação de Alexandria”, editado pelos Livros Cotovia, oferece-nos uma viagem por Alexandria, essa cidade egípcia que tanto fascinou o Ocidente e os seus escritores, bastando recordar o célebre “Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell um dos maiores monumentos do mundo literário, para nos situarmos no interior da cidade que E. M. Forster nos retrata desde o tempo da sua fundação até aos dias da escrita deste livro, convidando-nos a acompanhar diversas figuras que marcaram a vida da cidade, muito anos antes de Cristo nascer, até chegarmos ao período contemporâneo e descobrirmos o maior poeta que habitou a cidade de Alexandria, o grego K. P. Kavafis, que nos irá deixar uma obra poética admirável e inesquecível.


O Farol de Alexandria
Uma das Sete Maravilhas do Mundo da Antiguidade

Enquanto desfolhamos as páginas de “Pharos & Pharillon – Uma Evocação de Alexandria”, mergulhamos na vida desta conhecida cidade Egípcia desde a Antiguidade até à época contemporânea, sempre conduzidos por uma escrita fascinante, que nos vai relatando as inúmeras histórias dos seus habitantes mais ilustres, desde os sábios da Antiguidade, passando por Alexandre o Grande e Santo Agostinho, até chegarmos ao famoso Farol, para depois entrarmos no século XX e sentirmos a temperatura da cidade e das pessoas que a povoavam, tantas de forma anónima ou outras como Kavafis, que na solidão do seu quarto foi criando uma obra poética imortal e que bem merece ser (re)descoberta,  já que na nossa língua possui em Jorge de Sena um dos seus melhores tradutores.


C.P. Cavafy

“Pharos & Pharillon – Uma Evocação de Alexandria” de E. M. Forster, não é um livro de viagens, mas sim uma monumental obra-literária que fascina o leitor da primeira à última página, levando-o a caminhar através dos tempos pelo pulsar de Alexandria, essa cidade profundamente literária que, apesar dos tempos conturbados que se vivem neste século XXI, continua a fascinar todos aqueles que a visitam.

domingo, 19 de junho de 2016

Pier Paolo Pasolini - A outra margem da vida - 2



“Accatonne” revelou-se como a pedrada no charco do neo-realismo e um cineasta começava a nascer, criando uma linguagem cinematográfica única, transformando-se rapidamente num Autor. O futuro acabaria por o revelar ao mundo. Ele que fez a sua “Medea” com Maria Callas na protagonista, mas dobrando a voz da Diva nas falas, através da sua amiga Laura Betti. Para muitos um choque. Tal como foi um choque quando ele ofereceu a sua visão do catolicismo, através do fabuloso “Il Vangelo Secondo Matteo” / “O Evangelho Segundo São Mateus”.


"Os Contos de Canterbury"

Sempre polémico nos seus escritos, incompatibilizando-se com quase todos, a memória da morte do seu irmão durante a 2ª Grande Guerra às mãos dos partidários de Tito marcou-o para sempre, mas os escândalos que se foram criando à sua volta, muitos deles encenados mas alguns bem reais, começaram a tecer a sua perdição, como se fosse um pássaro de asas cortadas.
No início dos anos setenta do século xx, nasce a sua famosa “Trilogia da Vida” composta por “Il Decameron”/”Decameron”, “I Racconti di Canterbury” / “Os Contos de Canterbury” e “Il Fiore Del Mille e Una Notte” / “As Mil e Uma Noites”, que iriam elevar a sua estrela ao firmamento, com o inevitável reconhecimento do seu génio.


"As Mil e Uma Noites"

No entanto uma maçã, oferecida por uma Eva iria expulsá-lo do “Paraíso”, originando na sua escrita a criação de mais inimigos, ao mesmo tempo que as suas noites eram cada vez mais perigosas.
Por fim, num gesto perturbante, renegou a sua Trilogia da Vida e decide “encenar” cinematograficamente os 120 dias da República de Salo, criada por Mussolini e seus seguidores, protegidos por um exército alemão prestes a partir em debandada de uma Itália, à beira de ser conquistada pelas forças aliadas.


 "Saló ou os 120 dias de Sodoma"

“Salò o le 120 Giornate di Sodoma” / “Salo ou os 120 Dias de Sodoma” foi um imenso “escândalo”, tanto em Itália como em toda a Europa e foram poucos os que defenderam a simbiose da escrita do Marques de Sade com a História de Itália, onde a perversão andava de mãos dadas com a história recente.
O cineasta não conseguiria através do seu inconformismo cativar o público, embora a aura de escândalo que a película oferecia, tenha conquistado um outro público.


Maria Callas e Pier Paolo Pasolini 
durante a rodagem de "Medeia"

Na primeira exibição da película, algumas latas do filme foram roubadas da cabine de projecção e alguns pensam que as mesmas foram usadas para atrair Pier Paolo Pasolini à praia de Óstia, para as negociar e reaver, mas nessa noite fatal em que jantou pela última vez na companhia de Ninetto Davolli e a sua família, “Mama Roma” não o conseguiu levar de mota até aos braços de Anna Magnani, preferindo seguir o destino traçado pelo anjo negro de “Teorema”, ao encontro de uma morte violenta.

O mistério que envolveu a sua morte continua por deslindar, mas o seu cinema encontra-se bem vivo, continuando a oferecer uma das obras mais polémicas da Sétima Arte, à qual ninguém consegue ficar indiferente.

THE END

sábado, 18 de junho de 2016

Pier Paolo Pasolini - A outra margem da vida - 1


Pier Paolo Pasolini, o cineasta "maldito", teve em Ninetto Davoli, companheiro inseparável de Totó em “Passarinhos e Passarões”, o amigo acima de qualquer suspeita, sendo aquele que permaneceu no círculo de Pasolini desde que ele decidiu fazer cinema até ao último dos dias do cineasta. E dizemos isto porque no dia em que o realizador foi assassinado, na praia de Óstia, jantou em casa de Ninetto na companhia da mulher deste e dos seus dois filhos.


"Rei Edipo"

Mas por falar de amizades, e as de Paolo foram poucas mas duradoiras, nunca nos poderemos esquecer desse outro cineasta chamado Bernardo Bertolucci. O pai de Bernardo, um dos maiores poetas italianos, era amigo de Pasolini, tendo até editado um dos seus livros, mas no dia em que pela primeira vez o jovem Bertolucci viu Paolo, teve medo: tinham acabado de bater à porta dos Bertolucci e o filho do poeta foi abrir, quando deparou com a figura do futuro cineasta, então apenas poeta e este lhe disse que pretendia falar com o pai, Bernardo não o mandou entrar e fechou a porta, dizendo para ele esperar lá fora; Attilio Bertolucci, ao ver os receios do filho perante Pasolini, deu uma sonora gargalhada e disse-lhe que ele era um poeta seu amigo, um grande poeta, que escrevia assim a sua visão de “Roma Cidade Aberta de Roberto Rosselini…


Maria Callas em "Medeia"

“Que golpe no coração, perante aquele cartaz / já gasto… Aproximo-me, observo aquela cor / de um outro tempo que o rosto quente e oval / da heroína exibe, a palidez heróica do pobre, opaca, manifesta. / De súbito, entro! Sacudido por um clamor interior, / decidido a estremecer a cada recordação, / a consumar a glória do meu gesto. / Entro na arena, para o último espectáculo, / sem vida, personagens cinzentas, parentes, amigos dispersos pelos bancos, / perdidos na sombra, em círculos distintos / e esbranquiçados, no fresco receptáculo… / Subitamente, os primeiros enquadramentos. / Transtorna-me e arrebata-me… «l’intermitence du couer» / Encontro-me no escuro caminho da memória, nas misteriosas / câmaras onde o homem é fisicamente outro, / e o passado o banha com o pranto. /Contudo, tornado hábil pelo longo exercício, / não perco os fios: eis a Casilina, /sobre quem tristemente se abrem / as portas da cidade de Rosselini… / Eis a épica paisagem neo-realista, com os fios do telégrafo, as calçadas, os pinheiros, / os murozinhos descarnados, a mística / multidão, perdida nos afazeres quotidianos, / as tenebrosas formas de dominação nazi… / Quase emblemático já, o grito de Magnani, / sob as madeixas desordenadamente absolutas, / ressoa pelas desesperadas panorâmicas, / e nos seus olhares vivos e mudos / se adensa o sentido da tragédia. / É ali que dissolve e se mutila / o presente, e atroa o canto dos aedos.” (1)


"Decameron"

Bernardo, um pouco envergonhado pelo seu medo, convidou Pasolini a entrar e este terminou por entrar na sua vida de cineasta, ao oferecer ao jovem Bertolucci o lugar de assistente de realização, durante a rodagem de “Accattone” e assim o futuro cineasta de “1900” abandonou a poesia, tinha anteriormente recebido um prémio pela sua colectânea de poemas, decidindo partir para a conquista de outra forma de expressão: o cinema.


Silvana Mangano em "Teorema"

Curiosamente, foi devido a uma necessidade urgente de se exprimir de outra forma, para além das palavras escritas numa página em branco, que levou Pier Paolo Pasolini a se decidir pela Sétima Arte. Mas ele nada sabia dessa nova arte e quando confessou a Fellini que pretendia fazer um filme, este disse que estava disposto a produzi-lo, no entanto necessitava de visionar algum trabalho do futuro cineasta.


Pier Paolo Pasolini e Anna Magnani em "Mama Roma"

Assim Paolo e Bernardo partiram para a aventura, mas quando Fellini viu os testes… desapareceu durante dias e o mesmo fez Pasolini, tal era o medo de ambos de confrontarem ideias acerca do que fora feito. Por fim, Fellini confessou que não poderia produzir aquele filme, desistindo do projecto, mas outro produtor decidiu arriscar, oferecendo-lhe um excelente director de fotografia, para impedir os “excessos narrativos” de Pasolini, o seu nome era Tonino Delli Colli, tendo a colaboração entre os dois homens sido estendida para outras películas, ao longo do tempo.

(1) – In “La religione del mio tempos”

 “O Bosque Sagrado” - (Ed. Gota de Água)

(continua)