segunda-feira, 9 de maio de 2016

Ridley Scott - “Gangster Americano” / “American Gangster


Ridley Scott – "Gangster Americano" / "American Gangster"
(EUA – 2007) – (157 min. / Cor)
Denzel Washington, Russell Crowe, Armand Assante, Josh Brolin, Chiewet Ejifor, Cuba Gooding Jr.

Ridley Scott, o britânico que elegeu a América como território de eleição para as suas películas e cujo sucesso se tem revelado enorme, oferece-nos mais um filme com Russell Crowe. Convém dizer que Ridley Scott, em “American Gangster”, apresenta uma obra sem os maneirismos de que é tão acusado por todos aqueles que não gostam do seu cinema e apenas numa sequência é possível encontrar essa marca oriunda da publicidade, o célebre “slow-motion”, de resto ele constrói um filme que nos deixa a todos boquiabertos pela eficácia narrativa, graças a um argumento espantoso de Steven Zailan.


“Gangster Americano” possui uma reconstituição da época, anos setenta, muito eficaz e se muitos já apontaram inúmeras gafes, basta ver o IMDB, temos que lhes passar por cima porque o que encontramos aqui é o trabalho honesto de um profissional e com ele um conjunto de actores que nos oferecem o seu melhor, desde as estrelas ao mais esquecido dos secundários e por falar de secundários foi com enorme prazer que revimos Armand Assante na figura do traficante francês Dominic Cattano.


Estamos nos anos setenta, como já referimos e a América está em guerra porque o Vietname, embora fosse uma guerra fora de portas, era também uma guerra dentro de portas com os inúmeros protestos e manifestações contra a permanência dos soldados americanos no Sudoeste Asiático e quando as coisas são assim há outras guerras que se deixam de combater, neste caso concreto a batalha contra a droga. 

New York era uma cidade onde a corrupção das forças policiais era enorme, como veremos ao longo do filme e onde eram poucos os polícias honestos, sendo Richie Roberts um desses polícias (o argumento baseia-se em personagens reais) que, ao encontrar um milhão de dollars no porta-bagagens de um carro os entrega na esquadra, ficando marcado para sempre pelo seu gesto.


O filme de Ridley Scott, ambientando-se em territórios já explorados pelo cinema com enorme sucesso dos quais basta recordar o “Serpico” de Sydney Lumet ou os “Incorruptíveis Contra a Droga” de William Friedkin, consegue explorar com eficácia esse território onde mafiosos, gangsters e polícias travavam uma terrível guerra. Se os dois primeiros chegavam a combater entre eles por zonas de influência, já os terceiros, como referimos, eram muitas vezes simples espectadores passivos. 

Será curioso salientar que, durante a película, quando Richie Roberts (Russell Crowe) anda louco a procurar a identidade do novo senhor dessa droga chamada “Blue Magic”, heroína da mais pura, um colega seu lhe diz que possivelmente “ele é o Fernando Rey”, numa referência ao filme de William Friedkin “French Connection”, onde este actor espanhol interpretava a figura do barão da droga que, a partir de Marselha, introduzia os estupefacientes nos Estados Unidos.


Ora o filme de Ridley Scott conta-nos a história simples de um motorista que se transformou no dono das ruas de Harlem e foi, durante anos, o senhor do comércio de heroína na América, ao constituir um verdadeiro Império sem intermediários, usando os métodos do capitalismo com sucesso, ao oferecer o produto muito mais barato e com uma pureza até então desconhecida. Vamos assim assistir à ascensão e queda de Frank Lucas, um Denzel Washington que mais uma vez consegue vestir a pele da personagem com um rigor maravilhoso.

Frank Lucas aprendeu, com o seu antigo patrão e gangster Bumpy Johnson (que morreu nos seus braços após um ataque cardíaco), que o importante é nunca dar nas vistas e nada como constituir como parceiros no negócio a própria família, porque só assim ele poderá controlar efectivamente o negócio sem possibilidades de fugas de informação, porque elas serão sempre fatais.


Ao importar directamente a heroína de um campo de cultivo de droga no próprio Sudoeste Asiático e transportando-a em segurança, através do seu contacto no exército americano (“um primo branco”), ele irá instalar no coração do Harlem a sua fábrica, onde o produto é trabalhado. Ali não há polícia que chegue, ele é dono do território e quando os resultados começam a surgir, a marca Blue Magic impõe-se no comércio de rua, ele é um verdadeiro senhor, dono de um clube, com uma vida pacata e detentor de uma casa esplendorosa, indo todos os domingos à missa com a mãe.


No entanto será através do desejo de agradar à mulher, ao vestir um casaco de peles para ir assistir ao célebre combate que opôs Cassius Clay a Joe Frazier, que ele irá levantar suspeitas, além disso estava sentado à frente do conhecido traficante Dominic Cattano (Armand Assante), que o ajudou a expandir o negócio no continente americano. 

A partir de então, Frank Lucas irá começar a ser investigado por esse polícia chamado Richie Roberts, um detective que tem a sua vida privada destroçada e que é odiado pelos seus próprios colegas, ao ponto dos seus superiores decidirem oferecer-lhe um trabalho longe dos olhares policiais, o de investigar o mundo do crime e da droga, ambos mais que relacionados, recorde-se que Frank Lucas (Denzel Washington) nas ruas de Harlem não tem o mínimo problema de liquidar quem se lhe opõe, olhos nos olhos, como se aquele território fosse um verdadeiro “far-west”. 


Mas para além desse combate, o que mais interessa a Richie Roberts (um Russell Crowe que perdeu algum peso) é, na verdade, descobrir os polícias corruptos que pactuam com o tráfego de droga e no final iremos saber que era mais de metade da corporação policial dessa época, na cidade de New York.

A história deste duelo entre Frank Lucas e Richie Roberts é-nos contada de uma forma que agarra o espectador à cadeira do primeiro ao último minuto do filme, e nunca é demais salientar que neste filme Ridley Scott abdicou do Scope, oferecendo-nos uma verdadeira viagem até aos anos setenta.
Frank Lucas irá ser traído, como acontece sempre nestes casos e a operação da sua captura é um dos momentos fortes da película, à porta da igreja onde tinha ido assistir à habitual missa dominical na companhia da mãe e da mulher (uma ex-Miss de Porto Rico que o irá abandonar após a sua prisão).


Curiosamente Richie Roberts, depois de capturar o mais famoso gangster negro americano (odiado por toda a Máfia, pois tinha-lhes dado cabo do negócio), decide chegar a um acordo com ele, pedindo uma redução da sua pena caso ele colabore na identificação dos agentes corruptos e o pacto é selado. Frank Lucas é condenado a setenta anos de prisão mas Richie Roberts, que se tornara advogado, vai ter como primeiro cliente precisamente o célebre gangster americano, conseguindo que a sua pena seja reduzida para 15 anos, saindo este em liberdade em 1991, sendo com essa imagem, a saída da prisão e o primeiro confronto com a rua de um mundo que mudou, que Ridley Scott finaliza mais um excelente trabalho, não só pela reconstituição de época, mas também pela excelente direcção de actores, ostentando este “American Gangster” a mais sóbria realização do cineasta.

2 comentários:

  1. Até pode haver críticos que não gostam, mas eu nunca vi um mau filme deste senhor. Vale a pena!

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    1. Concordo em absoluto consigo, obrigado pelo comentário.
      Beijinhos

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