domingo, 15 de maio de 2016

O Jazz e a ECM Records - Edition of Contemporary Music


 O produtor Manfred Eicher e o engenheiro Jan Erik Kongshaug em 1996,
na "Power Station". Os criadores da mais bela aventura discográfica do século XX

Comecei a escutar o jazz, ainda miúdo, no célebre programa “Cinco Minutos de Jazz” do José Duarte, então incluído na 23ª Hora com emissão na Rádio Renascença. Por ali fui descobrindo os sons e os nomes desse universo que nunca mais deixou a minha companhia. Depois, como não podia deixar de ser, comecei a ir ao Festival de Jazz de Cascais, nessa época em que o Luís Villas-Boas nos oferecia esse fabuloso encontro com esta maravilhosa música, trazendo tantas vezes nomes dos mais sonantes do panorama mundial. Por ali andava, tantas vezes sozinho, outras vezes acompanhado, perfeitamente fascinado com o que via e ouvia, descobrindo essa maravilhosa arte da improvisação, assim como o alegre convívio existente entre os músicos.


 O célebre selo / etiqueta dos álbuns de vinil da ECM Records

Comecei então a frequentar a loja do Valentim de Carvalho na Rua Nova do Almada, nessa época em que o cliente da zona de jazz e clássica até podia escolher o disco que pretendia escutar e levá-lo consigo até um dos gira-discos, colocá-lo no prato e ficar a ouvir a música tranquilamente. Descobri alguns intérpretes e compositores através de conversas com o Rui Neves, que por vezes andava por lá. Mas nunca mais me esqueço do dia em que escutei pela primeira vez o “Arbour Zena” do Keith Jarrett. Primeiro fiquei fascinado pela capa do disco da ECM, editora que então desconhecia e depois, ao escutar aqueles acordes de piano acompanhados por uma orquestra de cordas, mais o contrabaixo do Charlie Haden e o saxofone do Jan Garbarek, percebi que me encontrava no Paraíso. O disco era mais caro do que o habitual mas, depois de contar o dinheiro que tinha no bolso, não resisti.


 O produtor Manfred Eicher e o compositor Arvo Part.
A ECM New Series foi criada com o propósito de editar a obra 
do incontornável compositor estoniano, mas depois estendeu a sua
área de acção por outras vertentes da denominada música erudita.

Na semana seguinte fartei-me de falar sobre o disco com os meus amigos de liceu até que, talvez cansados do meu entusiasmo, decidimos ir todos até à Valentim de Carvalho, para eles ouvirem o Keith Jarrett. Curiosamente, nesse dia, a loja tinha feito uma montra só com discos da editora de Manfred Eicher, ficámos perplexos com o que víamos, pois estávamos perante uma verdadeira exposição de pintura. Mal chegámos à cave, comecei a procurar os discos para os ver melhor e escutar alguns, descobri um universo até então desconhecido e comecei a fixar os nomes de Ralph Towner, Eberhard Weber, Terje Rypdal, Pat Metheny, Jan Garbarek, entre muitos outros e, claro, a magia do piano de Keith Jarrett e os seus concertos a solo.


O conhecido interesse de Manfred Eicher pela obra cinematográfica
de Jean-Luc Godard deu origem à edição das bandas sonoras de 
"Histoires du Cinema" e "Nouvelle Vague",
assim como uma série de curtas-metragens do cineasta, em DVD.

Mais ou menos por essa época, o FM do Rádio Clube Português começou a transmitir por volta das 21h30 uma rubrica de jazz, com duração de meia-hora, da responsabilidade do Jorge Lopes (essa voz inconfundível das transmissões de desporto na RTP), em que eram divulgadas precisamente as edições da ECM Records. Fiquei de tal forma fascinado com o universo que acabara de descobrir que o rock começou a fazer parte do passado. E ainda hoje, quando olho para os meus cds, descubro que mais de metade deles pertencem à editora alemã de Manfred Eicher, que um dia nos ensinou que aquele som era o mais belo depois do silêncio, tendo até alguns naquela época catalogado esse som como jazz de câmara.


 Um exemplo das famosas capas dos álbuns de vinil da ECM Records,
o trabalho "Diary" da autoria do guitarrista Ralph Towner

Hoje, ao escutar os discos da editora, sou de imediato convidado a ser um ouvinte atento e fascinado e são muitas as vezes em que, sentado simplesmente no sofá, fico a escutar esta maravilhosa música sentindo a passagem das horas como se estivesse sentado à beira mar, numa praia deserta.
O segredo desta editora reside no cuidado com que Manfred Eicher, também ele músico e cineasta, coloca na produção dos seus discos, oferecendo-nos uma música que se transformou num som único: por ali sentimos a força do jazz e a sua liberdade, mas também a sua melancolia e beleza, ao mesmo tempo que descobrimos não existirem fronteiras entre os seus intérpretes, sejam eles americanos, europeus, árabes ou indianos, assim como a origem dos instrumentos que tocam. Com o surgimento da New Series, a editora estendeu o seu olhar também para esse outro universo denominado vulgarmente por música erudita e, mais uma vez, fomos surpreendidos pela forma como ela é abordada, desde o barroco, passando pelo período romântico até chegar a esse espaço contemporâneo onde coabitam as mais diversas expressões musicais.


 Manfred Eicher e Jan Erik Kongshaug 

A beleza da música oriunda da ECM Records – Edition of Contemporary Music ensina-nos que a harmonia no mundo é possível, basta ver a beleza do convívio musical das mais diversas raízes e paragens conseguido por Manfred Eicher como produtor, para percebermos como seria bom, um dia, os homens perceberem que o universo foi feito para ser amado e não odiado.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Tenho que confessar que a música editada pela ECM Records tem acompanhado a minha vida desde a adolescência.
      Beijinhos e obrigado pelo comentário

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