terça-feira, 24 de maio de 2016

D. W. Griffith - “Intolerância” / “Intolerance”


D. W. Griffith – "Intolerância" / "Intolerance"
(EUA – 1916) – (197 min. – Mudo - P/B)
Mae Marsh, Robert Harron, Howard Gaye, Olga Grey, Margery Wilson, Rugene Pallette, Alfie Paget, Seena Owen.


Como sabemos David Wark Griffith foi o criador da linguagem cinematografia e, após o sucesso de “O Nascimento de Uma Nação” / “Birth of a Nation”, o seu nome tornou-se incontornável. No entanto foram muitas as acusações de racismo que caíram sobre a película e o seu autor, chegando a originar diversos tumultos junto às portas dos cinemas que exibiam o filme.


Por estas mesmas razões o cineasta irá escrever um panfleto sobre os valores morais da nação americana e durante três longos anos prepara uma obra épica, na qual pretendia retratar a intolerância ao longo da história da humanidade, situando a película em quatro épocas distintas e nas quais a intolerância falava mais alto. E nada melhor do que convocar a vida de Jesus Cristo para demonstrar isso mesmo: tema por demais universal e bem conhecido de todos.
O quadro seguinte irá situar-se no reino da Babilónia, em que nos irá narrar o amor do rei Belshazzar e da sua amada, que só irão encontrar a via do suicídio para não morrerem reféns das mãos do sanguinário Círio da Pérsia.


A terceira história de “Intolerância” situa-se em território francês, mais concretamente no reinado de Carlos IX, que irá levar a cabo um massacre terrível sobre todos aqueles que optaram pelo Protestantismo, tendo mais uma vez o amor como pano de fundo, um tema sempre grato ao cineasta. Iremos assim conhecer a vida de dois jovens, ele católico e ela protestante, cujo amor que nutrem um pelo outro ultrapassara definitivamente as poderosas barreiras religiosas da época, terminando também eles por não escaparem ao terror então instituído, em nome de Deus.


Já o último segmento da película aborda a época contemporânea, indo recair o tema nesse falso culpado, tantas vezes retratado ao longo da história do cinema. Embora neste capítulo do filme, em que mais uma vez o amor surge como elemento de toda a acção, o jovem injustamente acusado termine por ser salvo pela sua amada, no último minuto, quando se encontrava às portas da morte.


Mas ao contrário do que esperava o público da época, o cineasta decidiu elaborar uma poderosa montagem, entre as quatro histórias narradas, deixando em suspenso um segmento, para passar a outro, ao mesmo tempo que mantinha o “suspense” sobre o que se iria passar, o que motivou uma certa perplexidade entre os espectadores, que não se encontravam preparados para este tipo de planificação e montagem, tão brilhantemente elaborada.


D.W. Griffith durante as filmagens 

Os dois milhões de dollars investidos por David Wark Griffith no filme saldaram-se por um resultado profundamente negativo, conduzindo-o à bancarrota. E mesmo quando o cineasta decidiu fazer a partir da metragem de “Intolerância” duas novas películas, “The Fall of Babylon” e “The Mother and The Law”, no intuito de recuperar alguma da verba despendida, os resultados foram bastante magros.


Contando com um elenco soberbo, ao lado de mais de três mil figurantes, um guarda-roupa esplendoroso e uns cenários até aí nunca vistos, “Intolerância” que usa a montagem como trave mestra de toda a acção, nunca conseguiu obter o aplauso do público da época, embora nos dias de hoje seja considerado por todos como a obra-prima do cineasta. Recorde-se que os cenários do filme permaneceram durante largos anos no Estúdio, porque nem havia dinheiro para os mandar destruir, terminando por servirem de palco das chamas no filme do produtor David O’Selznick, “E Tudo o Vento Levou”, na famosa e memorável sequência do incêndio de Atlanta.
“Intolerância”, com as suas poderosas três horas, revela-se hoje em dia um verdadeiro monumento à Sétima Arte nascido desse génio chamado David Wark Griffith, a quem tudo devemos.

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