domingo, 8 de maio de 2016

Alfred Hitchcock - “O Inquilino Sinistro” / “The Lodger”


Alfred Hitchcock – "O Inquilino Sinistro" / "The Lodger"
(ING – 1927) – (75 min. / Mudo)
Ivor Novello, June Tripp, Marie Ault, Arthur Chesney, Malcolm Keen.


“O Inquilino Sinistro”, o célebre “The Lodger: A Story of the London Fog”, foi eleito pelo próprio cineasta como o seu verdadeiro primeiro filme, ou seja “the first hitchcock’s movie”, com tudo aquilo que implica esta afirmação: o nascimento do célebre “suspense”, que iria ser a marca do Mestre; a criação do móbil da acção, que ficará conhecido como o “macguffin”; o inocente ou falso culpado como protagonista.

Para trás ficara o filme de estreia de Hitch, “The Pleasure Garden”, pelo qual o Mestre não tinha nenhum amor e uma outra obra que o tempo se encarregou de fazer desaparecer intitulada “The Mountain Eagle”, considerada hoje como um filme perdido e do qual também Hitchcock não gostava de falar, referindo-se a ele como “um mau filme”.


Entremos então no argumento de “O Inquilino Sinistro”, nessa Londres dos anos vinte, em que o nevoeiro esconde a cidade e deixa impunes os assassínios que um misterioso vingador comete às terças-feiras, escolhendo sempre raparigas louras como vítimas. Logo nos primeiros minutos percebemos o pânico que invade os habitantes da cidade, com a imprensa escrita a não largar da primeira página este caso que fazia recordar a época de Jack O Estripador.
A forma como Alfred Hitchcock nos mostra o palpitar de toda uma população, desconfiada do seu semelhante, é soberba, ao mesmo tempo que com a sua câmara nos introduz no universo da imprensa escrita, oferecendo-nos um retrato perfeito da labuta dos operários e das rotativas, até o jornal chegar ás ruas, onde o espera um público ávido de notícias.


Temos assim um retrato do clima que se vive na capital londrina, nesses dias de terror, em que todas as terças-feiras era morta uma rapariga loura, apesar da intensa vigilância policial. Depois, o cineasta passa para um outro registo e convida-nos a conhecer o quotidiano da família Bunting, pai, mãe e filha, que surgem assim como o retrato de uma pacata família londrina desses anos vinte, ao mesmo tempo que descobrimos que os Bunting alugam quartos, sendo um dos hóspedes um detective da polícia, que por sinal possui uma profunda atracção pela jovem Daisy, filha do casal, que trabalha como manequim e que é loura, como não podia deixar de ser.
Naquela casa tudo se desenrola com naturalidade, mesmo os namoros de Joe com Daisy são encarados com tranquilidade pelos pais da rapariga, embora o mundo lá fora seja na verdade bastante perigoso, com esse assassino de jovens e belas mulheres a cometer os seus crimes às terças-feiras.


Alfred Hitchcock dirigindo uma cena
com a futura esposa Alma Reville atrás de si.

E será precisamente numa das famosas noites de nevoeiro que um jovem bem-parecido e de posses se irá apresentar aos Bunting para alugar o quarto que se encontra vago. Porém, mal o vimos, com o rosto meio escondido, percebemos que algo de errado se passa com ele. Até a própria dona da casa o olha com temor, mas como ele paga um mês adiantado pelo quarto, em vez da habitual primeira semana, verificamos que aquele dinheiro possui o dom de tranquilizar os Bunting.


Ivor Novello, que aqui interpreta a personagem do inquilino e será protagonista de mais alguns filmes realizados por Hitchcock, possui o condão de captar a nossa atenção de imediato e à medida que vamos seguindo os seus passos, percebemos que algo de errado se passa com ele. Por outro lado Hitchcock irá instalar esse mesmo suspense em redor da personagem, ao ponto de estarmos sempre à espera de ver chegado o momento em que a bela Daisy (June Tripp) lhe irá cair nas mãos. Por outro lado Joe (Malcolm Keen) começa a perceber que a jovem se começa a sentir atraída por aquela figura bem-falante e misteriosa e começa a ter ciúmes de forma bastante possessiva, começando a pensar que o famoso e desconhecido assassino vive no meio deles.


Alfred Hitchcock começa assim a laborar nesse território de que tanto gosta, onde o falso culpado é a vítima preferida dessas massas anónimas que percorrem as ruas sedentas de sangue e que gostam de agir sem pensar um segundo sequer, em busca dessa famosa justiça popular, destruindo tudo o que encontram no seu caminho, ou matando os seus suspeitos favoritos, essas personagens tantas vezes anónimas que, pelo simples facto de não engrossarem o rebanho, se tornam como alvos predilectos da conhecida fúria popular. O Falso Culpado ou The Wrong Men, tantas vezes abordado por Alfred Hitchcock na sua obra cinematográfica nasce precisamente em “The Lodger”, para atingir o firmamento celeste quando Henry Fonda decide dar vida a essa personagem inesquecível chamada Manny Ballestrero.


E só para terminar, não resistimos a chamar atenção para essa soberba sequência em que Hitchcock nos mostra esse inquilino misterioso a andar no quarto, visto do andar de baixo, com o candeeiro da sala a balouçar ao ritmo dos seus passos, perante o olhar espantado da família Bunting e de Joe.

“O Inquilino Sinistro”, surge-nos no dvd em cópia tintada, com boa transcrição, convidando-nos a entrar pela porta grande nesse maravilhoso universo hitchcockiano que ainda hoje continua a seduzir as mais variadas gerações.

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