sábado, 14 de maio de 2016

Alfred Hitchcock – “Downhill”


Alfred Hitchcock - "Downhill"
(ING. – 1927) – (84 min. – Mudo)
Ivor Novello, Robin Irvine, Isabel Jeans, Annette Benson, Ian Hunter.

A obra de Alfred Hitchcock do período mudo possui dois momentos profundamente marcantes nas películas “Blackmail” / “Chantagem” e “The Lodger” / “O Inquilino Misterioso”, contando a última com a presença desse grande actor do mudo chamado Ivor Novello. O nome poderá não dizer nada a muitos, mas se referirmos a obra-prima de Robert Altman “Gosford Park” e a personagem interpretada por Jeremy Northam, vamos encontrá-lo a vestir a pele precisamente de Ivor Novello e, como devem estar recordados, as suas conversas abordam sempre o cinema.


 A primeira colaboração de Ivor Novello com Hitchcock foi precisamente “O Inquilino Misterioso” / “The Lodger”, obtendo um sucesso estrondoso, por essa mesma razão o produtor decidiu tentar repetir o êxito e ofereceu a Hitch um argumento escrito pelo próprio Novello, por sinal bastante distante da qualidade do argumento de “The Lodger”, que teve a mão do Mestre do Suspense na sua adaptação para cinema.


Ivor Novello, para além de oferecer aos produtores excelentes resultados de bilheteira e ser um fabuloso actor, escreveu ao longo da vida diversas peças, muitas delas adaptadas para o cinema, no caso de “Downhill”, a sua terceira peça, vamos encontrar o herói, o jovem Roddy Berwick (Ivor Novello) a jogar râguebi na universidade, ele é um dos melhores jogadores da equipa e como tal saudado calorosamente por todos no final do jogo, mais tarde vai até à cidade com um colega e uma rapariga que encontram numa loja, como vê os seus avanços reprimidos por Roddy decide acusá-lo de assédio (reparem que estamos em 1927) e ele é expulso da Universidade, o colega não conta a verdade dos factos e pouco depois Roddy sai de casa dos pais, em virtude destes não acreditarem na sua inocência, para trás deixa um mundo de riqueza e bem-estar, iniciando-se o seu calvário.


Poderíamos dizer que estamos perante um daqueles argumentos tantas vezes repetidos no período mudo, mas atrás da câmara temos Alfred Hitchcock, a transformar uma peça quase banal numa obra cinematográfica a ter em conta. Repare-se na forma enganadora como Hitch nos apresenta Roddy no teatro, levando-nos a supor que ele se transformara em empregado de mesa e, pior ainda, em ladrão ao guardar no bolso a cigarreira da senhora. Estamos assim perante esse tema tantas vezes surgido na obra de Alfred Hitchcock, intitulado o falso culpado, já patente em “The Lodger” e que teria o seu momento supremo em “The Wrong Man”, com um fabuloso Henry Fonda.


Voltando a “Downhill”, a queda no abismo não surge de imediato, sabemos primeiro que Roddy vive em condições difíceis, embora namore a actriz principal, terminando por casar com ela ao herdar dinheiro de uma tia. Porém Julie (Isabel Jones), em poucos dias, consegue delapidar-lhe a fortuna, dar as boas-vindas ao adultério e ainda ficar-lhe com a casa, lançando Roddy nas ruas da amargura e do desespero.


Vamos encontrá-lo pouco depois a trabalhar como gigolo no Moulin Rouge, a levar cinquenta francos por cada dança e aqui Hitchcock dá mostra da sua mestria, pela forma como filma o ar angustiante de Roddy, presa de todas aquelas mulheres em busca de um momento de prazer, a beleza não abundava por aquelas paragens, diremos mesmo ser inexistente e o dinheiro ganho ficava sempre para a “dama” que explorava o salão. Ele não resistiu mais à miséria humana e procurou abrigo em Marselha em pleno bas-fond, já vítima da fome e do medo, com a morte a rondar de perto, sendo a forma como Alfred Hitchcock nos oferece esse retrato, mais que perfeito, um dos momentos altos da película, depois repare-se como ele trabalha as alucinações de Roddy e por fim quando é ajudado e regressa a Inglaterra, a forma como ele é introduzido de novo na sua cidade é simplesmente magnifica, o retrato nocturno de Londres invade a memória do protagonista levando-o à porta da casa onde nasceu.


Cartaz do filme da época da estreia,
em que os nomes em destaque 
são os produtores e Ivor Novello

“Downhill” é um daqueles momentos do cinema mudo que é urgente descobrir, sendo o terceiro filme de Alfred Hitchcock, embora nas contas dele o considere o segundo já que nunca se afeiçoou a “The Pleasure Garden”, considerando sempre “The Lodger” a sua primeira obra. Contas à parte, “Downhill” possui já no seu interior as marcas que irão definir um estilo inconfundível, por outro lado descobrimos a forma brilhante como Hitchcock transforma um argumento banal numa obra que nos prende à cadeira (ou sofá se preferirem), especialmente na segunda parte da película.



Ivor Novello e Jeremy Northam 
interpretando este último a figura do célebre actor,
 brilhantemente, em "Gosford Park" de Robert Altman

Por estas razões, “Downhill” merece uma visita do cinéfilo, especialmente porque o cinema dos primórdios é um “género” muito pouco divulgado, mesmo em DVD, e não se esqueça desse grande actor chamado Ivor Novello, (re) descobrir o cinema mudo é uma das aventuras mais gratificantes da História do Cinema.

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