sexta-feira, 20 de maio de 2016

Abbas Kiarostami – “Sleepers” - (IRÃO – 2001)


Abbas Kiarostami - "Sleepers"
(Irão - 2001) - (98 min. / Cor)

"Sleepers" é uma instalação vídeo que nos traz à memória a película de Andy Warhol "Sleep" que retratava a preto e branco e sem som o sono de John Giorno, estávamos então em 1963 e a sua duração é de seis horas, tendo sido projectada por diversas vezes na célebre Cinemateca de Jonas Mekas. Mas a instalação de Abbas Kiarostami, retratando o sono de um casal durante o período de 98 minutos, surge na fronteira da chamada videoarte, e o próprio Kiarostami refere que "Sleepers é uma ocasião, um presente que a telecâmara digital me deu para olhar. Sem o digital, este trabalho teria sido impossível".










John Giorno em "Sleep" de Andy Warhol 

O espaço de divulgação destas obras, até à presente data, tem estado confinado em especial ao território de galerias/museus dada a sua ligação com as artes plásticas, embora cineastas como Peter Greenaway tenham uma prática interdisciplinar ou casos como Bill Viola (*), vejam as suas obras situadas na área da videoarte.


Abbas Kiarostami

A obra "Sleepers" de Abbas Kiarostami é de uma contemporaneidade perturbante, devido ao espaço criado para a sua divulgação: o projector está colocado no tecto e no chão surge, devidamente enquadrada, uma cama com um casal mergulhado no sono, ao mesmo tempo que o branco dos lençóis, almofadas e roupa interior do casal nos transmite a sua intimidade, violada pelo nosso olhar.
Por vezes até sentimos a aproximação de uma estética publicitária (Calvin Klein), mas é no tratamento da banda sonora, provocado por um lado pelo movimento dos corpos nos lençóis e por outro lado na vida que desperta no exterior, que nos sentimos no papel de intruso/voyeur, olhando a beleza perturbadora das imagens.


"Onde Fica a Casa do Meu Amigo"  de Abbas Kiarostami

Este video-instalação de Abbas Kiarostami, apresentado pela primeira vez na 49ª Bienal de Veneza (2001) e na Cinemateca Portuguesa (sala 6x2) (2004), contando já com a participação do produtor Marin Karmitz (em tempos longínquos, também ele realizador), possui uma atracção fatal, que nos leva a desejar a sua comercialização através do suporte DVD, porque cada gesto dos protagonistas surge como extensão da nossa própria intimidade nesse refúgio chamado sono, do qual despertamos todas as manhãs, até que a cor da vida se perca/reencontre numa outra viagem.


 "O Segredo da Colmeia" de Victor Erice

Nessa exposição fabulosa levada a cabo pelo Centro Georges Pompidou intitulada "Correspondências" e criada por Kiarostami e Victor Erice, dois cineastas de pólos opostos, geograficamente falando, mas habitando o mesmo mundo, fomos reencontrar esta instalação do cineasta iraniano e ao confrontar a obra de ambos, somos obrigados a concluir que ambos habitam o mesmo território: o marmeleiro de Victor Erice habita no interior da floresta de Abbas Kiarostami e "O Segredo da Colmeia" do cineasta espanhol oferece-nos os intérpretes de “Onde Fica a Casa do Meu Amigo", depois temos sempre essa homenagem a Yasujiro Ozu que poderia ser assinada por ambos. A correspondência entre os dois cineastas continua, da mesma forma que o seu cinema oferece novos olhares ao mundo contemporâneo.


Abbas Kiarostami e Victor Erice,dois cineastas, 
dois continentes, o mesmo olhar!

(*) - Bill Viola é o primeiro artista plástico a quem o termo "videasta" se aplica na sua globalidade, tendo em conta os seus trabalhos, como os textos teóricos publicados, representativos de uma nova forma de olhar.


O olhar de Andy Warhol em "Sleep", inspirador de Abbas Kiarostami

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Abbas Kiarostami é um cineasta do mundo possuidor de um olhar bem pessoal e revelador do seu pensamento.

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