segunda-feira, 30 de maio de 2016

Mauritz Stiller - “A Lenda de Gosta Berling” / “Gosta Berling’s Saga”


Mauritz Stiller –  “A Lenda de Gosta Berling” / “Gosta Berling’s Saga”
(SUÉCIA – 1924) – (61 min. / 185 min. - P/B - Mudo)
Greta Garbo, Lars Hanson, Jenny Hasselqvist, Otto Elg-Lundberg, Ellen Sedelstron.

Nos dias de hoje, quando olhamos o que se escreve sobre cinema, somos obrigados a constatar que o cinema mudo se está a transformar num eterno esquecido. Cada vez mais a sua arte passa ao lado das edições em dvd, contando-se pelos dedos as edições nacionais dos primórdios do cinema, no entanto a nível internacional começa-se a sentir um reconhecimento da sua importância e valor através de edições restauradas. Muitas vezes esquecemo-nos que os grandes mestres do cinema iniciaram a sua actividade no período do mudo (John Ford, Raoul Walsh, Alfred Hitchcock), passando depois ao sonoro e outros houve como Mauritz Stiller ou F.W.Murnau que apenas assinaram obras durante este período.


Greta Garbo e Mauritz Stiller

Quando olhamos para esta época fabulosa dos pioneiros do cinema, convém recordar que David Wark Griffith foi um dos grandes criadores da linguagem cinematográfica e, quando morreu, tinha sido esquecido por todos em Hollywood. Tal como Griffith, também Mauritz Stiller morreu aos 45 anos, na sua Suécia natal, um pouco abandonado por todos. Ele, que criara alguns dos mais belos filmes da História do Cinema, invadindo territórios pouco explorados, como sucedeu com o célebre “Erotikon”, onde o erotismo navegava pelas imagens, foi também o grande responsável pelo lançamento no Cinema da mais famosa Diva da Sétima Arte, Garbo a Divina, como muitos lhe chamaram.


Foi precisamente com “A Lenda de Gosta Berling” / “Gosta Berling’s Saga” que Mauritz Stiller lançou Greta Garbo na tela, numa das mais belas histórias de amor, mas ao verem este filme, já editado em dvd, irão descobrir como a beleza de Garbo foi trabalhada muitos anos depois por esse tycoon chamado Louis B. Meyer. No entanto o magnata, quando a conheceu num almoço, até nem simpatizou com ela achando-a “gordinha” e possuidora de uma simpatia abaixo dos “parâmetros Hollywoodescos”.
Como é possível ver neste filme, no que diz respeito à beleza, Garbo tinha competidoras à altura, mas aquele seu olhar já lá estava, aquele olhar que a todos nos enfeitiçou já morava no seu rosto.


“A Lenda de Gosta Berling” / “Gosta Berling’s Saga”, uma adaptação do romance de Selma Lagerlof (o mesmo já tinha sucedido com “O Tesouro do Arne”), relata-nos a vida do protagonista desde que se apaixonou pela bela Condessa Elizabeth, ele que até era padre tudo deixou por ela, transportando consigo esse terrível segredo, mas ao longo do seu caminho tortuoso outros segredos irão sendo descobertos, alterando por completo a vida dos protagonistas, porque até as maldições fruto de passados bem guardados terminam por fugir desse cofre bem fechado a sete chaves, alterando o rumo dos acontecimentos.
A forma como Mauritz Stiller nos oferece este filme é na verdade soberba, sendo a demonstração plena não só da sua arte, mas também da forma como o cinema mudo tinha atingido um estatuto de grandeza no universo artístico, basta recordar a sequência do trenó e a perseguição dos lobos ou o incêndio da Mansão, para ficar tudo dito.


Greta Garbo 
no tempo do Sonoro

Por todas estas razões, Hollywood decidiu ir buscá-lo ao norte da Europa, mas a sua carreira americana saudou-se por um profundo fracasso, tendo realizado apenas dois filmes no Novo Mundo: “Hotel Imperial” e The Woman on the Train”.
Curiosamente, foi graças a Mauritz Stiller que Greta Garbo seguiu para a América, porque nessa época ela estava para ele como Marlene Dietrich esteve para Joseph von Sternberg (o artista e a sua musa), durante largos anos, como todos bem sabemos.


 A Divina, Greta Garbo

Mas depois de chegar ao “Paraíso” de Hollywood, nunca lhe foi possível dirigir a sua musa, mais tarde a história foi escrita “por linhas tortas”: Greta Garbo, a mal amada, tornou-se a Divina Garbo e Mauritz Stiller foi obrigado a abandonar as filmagens de “Street of Sin” porque se encontrava bastante doente e, regressado a Estocolmo, foi esquecido por todos.
E nunca é demais recordar as palavras do conhecido critico  de cinema Louis Delluc que se referiu ao realizador desta forma: “joga com o preto e branco com uma atenção subtil de trovador”. Recordamos hoje aqui este grande cineasta, que felizmente começa a ser (re)descoberto.

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