terça-feira, 31 de maio de 2016

Bill Evans – “You Must Believe in Spring”


Bill Evans
"You Must Believe in Spring"
Warner Bros Records

Bill Evans começou a estudar piano clássico aos 6 anos, através da forte influência da sua mãe, tendo também aprendido a tocar flauta e violino. Revelando toda a sua índole de criança precoce e genial na Arte da Música, estudou composição no Mannes College of Music, revelando sempre um certo carinho pela denominada música erudita, quando enveredou pelo jazz, não tendo complexos quando abordou de forma brilhante o universo de Bach.

Como não podia deixar de ser, em finais de 50, Bill Evans irá integrar o sexteto de Miles Davis, (foram várias as gerações que tocaram com o Mestre do Trompete) para depois formar com Scott LaFaro e Paul Motian um dos trios mais inventivos e brilhantes do jazz, mas que irá ter um fim abrupto com a morte de LaFaro num acidente de automóvel.

Tanto em trio como em piano solo Bill Evans explorou como ninguém essa magnifica Enciclopédia que é o “Great American Song Book”, ao mesmo tempo que criava em nome próprio melodias inesquecíveis, como a célebre “Waltz for Debbie”, que se irá tornar um eterno clássico do jazz.


A sua forma de abordar a música influenciou os maiores nomes da geração que se lhe seguiu e estamos a falar de pianistas como Keith Jarrett, Chick Corea, Herbie Hancock e Brad Mehldau, só para falar em alguns, ao mesmo tempo que o célebre guitarrista John McLaughlin confessava a influência de Bill Evans na sua música mais intimista, tendo-lhe até dedicado um magnifico álbum.

Ao longo dos anos foram inúmeros os músicos que com ele trabalharam, mas o seu encontro com o contrabaixista Eddie Gomez foi fundamental para superar esse enorme vazio deixado pela morte de Scott LaFaro, com quem tinha uma empatia perfeita nesse formato clássico do trio de jazz.

E o belo e genial “You Must Believe in Spring”, derradeiro trabalho de Bill Evans, conta precisamente com a participação de Eddie Gomez no contrabaixo e Elliot Zigmund na bateria.


 Scott LaFaro, Bill Evans e Paul Motian

“You Must Believe in Spring” é o tema que dá título a este álbum gravado em Agosto de 1977, da autoria do célebre compositor francês Michel Legrand, que Bill Evans nos oferece neste seu derradeiro discográfico trabalho, cativando de imediato o ouvinte, mal se escutam os primeiros acordes do seu piano, mas o tema de abertura do álbum, da autoria do próprio pianista e intitulado “B Minor Waltz (For Ellaine)” é de uma beleza indescritível, uma verdadeira pérola.

Depois temos mais cinco temas que se irão revelar como o mais belo testamento que um músico de jazz deixou para a posteridade, porque ao escutarmos a serenidade da sua Arte mergulhamos no conhecido universo melódico de um dos maiores pianistas de sempre da história do jazz.

A primeira edição de “You Must Believe in Spring”, oferece-nos sete temas, todos eles em trio, sendo dois deles da autoria do próprio Bill Evans e os restantes de Michel Legrand, Sergio Mihanovich, Jimmy Rowles e Johnny Mandel (com o famoso “Theme From Mash)”, tendo sido incluído na contracapa do álbum um magnifico poema  de Bill Zavansty intitulado “Elegy (For Bill Evans, 1920 – 1980) numa homenagem a Arte deste génio do piano.


Quando foi lançada a reedição de “You Must Believe in Spring”, em cd, a editora WB decidiu incluir três temas extras da autoria de Miles Davis (Freddie Freeloader), Cole Porter (o conhecido “All of You”) e Edward Eliscu (Without a Song), em que Bill Evans troca o piano clássico pelo piano eléctrico, oferecendo-nos da mesma forma todo o seu saber, ao mesmo tempo que a cumplicidade do trio permanece bem viva, revelando assim essa famosa empatia que sempre os caracterizou ao longo dos anos.

“You Must Believe in Spring” de Bill Evans, revela-se o testamento perfeito da maravilhosa Arte deste genial pianista e compositor norte-americano. Estamos perante  um álbum incontornável para todos os que amam a música.

F. W. Murnau - “O Último dos Homens” / Der Letzte Mann”


F. W. Murnau – "O Último dos Homens" / "Der Letzte Mann"
(ALEMANHA  - 1924) – (77 min – P/B - Mudo)
Emil Jannings, Maly Delschaft, Max Hiller, Emilie Kurz

Quando Murnau realizou “O Último dos Homens”, o “kammerspiel” atingiu o seu apogeu e ao vermos esta película somos obrigados a constatar tal facto, porque aqui a história do porteiro do hotel “Atlantic”, que um dia é destituído do seu cargo, é-nos narrada sem qualquer inclusão de intertítulos, com excepção da carta que lê onde lhe é comunicada a sua destituição do lugar que ocupou até então na hierarquia do hotel, passando a ser o responsável pelos lavabos do hotel.


Já agora convém referir que existem duas versões: uma em que o filme termina com ele reduzido a um estado de perfeita perdição, depois de ter perdido o seu belo casaco, símbolo perfeito da sua importância perante o olhar alheio, ficando para sempre confinado a essa cave onde se situam os lavabos onde irá morrer, intitulada "Der Letzte Mann"; e uma outra versão em que um multimilionário excêntrico lhe deixa a sua fortuna, porque ele foi o último homem a vê-lo vivo, resgatando-o do inferno e tornando-o um homem respeitado e venerado, fruto do dinheiro que possui, intitulada "The Last Laugh". 


O genial Emil Jannings

Esta segunda versão, a existente no dvd “German Silent Masterworks”, terá sido filmada por imposição do protagonista Emil Jannings (o célebre Professor Unrat de “O Anjo Azul” de Joseph von Sternberg) e do produtor Erich Pommer, após a recepção negativa ao filme, na noite de estreia.


Mais uma vez F. W. Murnau nos oferece uma obra-prima do cinema ao realizar esta película, onde a luz da sua Arte consegue verdadeiros milagres, narrando a vida de um homem que, fruto da sua profissão de porteiro do hotel, é venerado e respeitado por todos os que o conhecem, até à chegada dessa noite de chuva em que a idade o irá trair, quando o gerente do hotel o encontra sentado na recepção a beber um copo de água e a descansar devido ao esforço despendido no transporte de uma mala enorme de uma cliente, debaixo de chuva.


Essa falta será devidamente anotada e no dia seguinte, quando ele se dirige para o hotel, irá descobrir que o seu lugar já fora ocupado por alguém mais novo, ostentando um porte distinto. A partir desse dia será o responsável dos lavabos, perdendo o direito a ostentar esse enorme casaco de porteiro, sinónimo de divisas perdidas na guerra da vida. Ele irá por todos os meios esconder a sua nova condição dos que lhe são próximos, até chegar esse momento fatal em que a verdade surge de forma abrupta, transportando no seu interior a mesquinhez humana, tão bem retratada no comportamento de todos os que o rodeiam.


Momento sublime da rodagem de
"O Último dos Homens" / "Der Letzte Mann"

A forma como F. W. Murnau e o seu operador, o genial director de fotografia Karl Freund nos oferecem o quotidiano banal deste homem, focalizando a acção no hotel, onde o movimento incessante das portas, a abrir e a fechar, são como caminhos que se abrem e fecham consoante os seus protagonistas. Por outro lado oferece-nos o respirar das ruas dessa metrópole de então, chamada Berlin, ao mesmo tempo que nos convida a entrar no bairro onde o porteiro do hotel habita, retratando em traços precisos o rosto da Alemanha desses anos.


Seja qual for o final escolhido, teremos sempre em “O Último dos Homens” uma das obras mais importantes da filmografia de F. W. Murnau, para além de mais uma espantosa interpretação desse gigante chamado Emil Jannings.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Keith Jarrett – “The Melody at Night With You”


Keith Jarrett
"The Melody at Night With You"
ECM Records

Keith Jarrett que para muitos é o mais importante pianista do mundo do jazz ainda em actividade, ficou conhecido pelas suas prestações a solo em diversos concertos onde tocava de improviso, construindo verdadeiras viagens pelos mais variados géneros musicais, recorde-se que o músico tem formação clássica, arrastando verdadeiras multidões em todo o mundo para o escutarem ao vivo, onde muitas vezes tocava sem interrupção ao longo de mais de quarenta minutos, desenvolvendo um esforço físico enorme, já que ele possui uma forma muito própria de se envolver com a música que lhe nasce dos dedos e é transmitida para as teclas, sendo o seu disco mais célebre neste formato musical de concerto solo, o célebre “The Koln Concert”, que se tornou o disco mais vendido de sempre na história do jazz.


E, até ao final do século XX, foram mais de 100 os concertos a solo em que Keith Jarrett nos ofereceu todo o seu enorme talento musical, até chegar esse momento trágico em que foi atingido por uma doença denominada síndroma da fadiga crónica, que o impossibilitou de voltar a tocar. Durante mais de dois anos o músico lutou contra a doença, ao mesmo tempo que continuava a visitar o seu Estúdio particular situado ao lado da sua residência, para se encontrar com o piano, mas depois nunca conseguia tocar mais de dois minutos seguidos, segundo confessou mais tarde no documentário “Keith Jarrett. The Art of Improvisation”.


Curiosamente, neste documentário magnífico sobre este talentoso músico e compositor, escutamos os seus companheiros Gary Peacock e Jack DeJohnette (que com Jarrett constituem o célebre trio Standards) a falarem que pensaram que Keith Jarrett tinha terminado a sua carreira e que nunca mais iriam voltar a tocar juntos. Mas o músico não desistiu e foi gravando em perfeita solidão alguns temas bem famosos do célebre “The Great American Songbook”, em cassetes áudio e quando chegou o Natal ofereceu-as à sua esposa Rose Ann, como símbolo do seu amor por ela.
Mais tarde Manfred Eicher, produtor e fundador da ECM Records, amigo de décadas de Keith Jarrett, escutou as celebres cassetes-audio nascidas da tenacidade e força de vontade do músico norte-americano e decidiu editar o disco com o titulo bem sugestivo “The Melody at Night With You”, escolhido pelo próprio músico, nascendo um dos álbuns mais intimistas de toda a carreira do célebre pianista.


Como todos sabemos Keith Jarrett conseguiu retomar a sua actividade como músico de jazz, regressando ao seu trio Standards, na companhia de Gary Peacock e Jack DeJohnette, ao mesmo tempo que retomou os seus concertos a solo, embora nunca mais voltasse a tentar esse formato longo de quarenta minutos consecutivos de pura improvisação.
Ao escutarmos “The Melody at Nigt With You”, entramos num universo perfeito em que descobrimos temas bem conhecidos de todos, a serem tocados com uma sensibilidade e um amor profundo pelas composições que nos deixa perfeitamente seduzidos perante a maravilhosa Arte desse musico genial chamado Keith Jarrett.
“The Melody at Night With You”, que navega por compositores como George Gershwin, Jerome Kern, Sammy Kahn, Duke Ellington e Oscar Levant entre outros e nos oferece novas leituras de temas tradicionais como os célebres “My Wild Irish Rose” e “Shenandoah”, assim como o tema “Meditation” do próprio Keith Jarrett, que nasce a partir de “Blame it On My Youth”, possui a seguinte dedicatória no álbum “For Rose Ann, who heard the music, then given it back to me”.

Mauritz Stiller - “A Lenda de Gosta Berling” / “Gosta Berling’s Saga”


Mauritz Stiller –  “A Lenda de Gosta Berling” / “Gosta Berling’s Saga”
(SUÉCIA – 1924) – (61 min. / 185 min. - P/B - Mudo)
Greta Garbo, Lars Hanson, Jenny Hasselqvist, Otto Elg-Lundberg, Ellen Sedelstron.

Nos dias de hoje, quando olhamos o que se escreve sobre cinema, somos obrigados a constatar que o cinema mudo se está a transformar num eterno esquecido. Cada vez mais a sua arte passa ao lado das edições em dvd, contando-se pelos dedos as edições nacionais dos primórdios do cinema, no entanto a nível internacional começa-se a sentir um reconhecimento da sua importância e valor através de edições restauradas. Muitas vezes esquecemo-nos que os grandes mestres do cinema iniciaram a sua actividade no período do mudo (John Ford, Raoul Walsh, Alfred Hitchcock), passando depois ao sonoro e outros houve como Mauritz Stiller ou F.W.Murnau que apenas assinaram obras durante este período.


Greta Garbo e Mauritz Stiller

Quando olhamos para esta época fabulosa dos pioneiros do cinema, convém recordar que David Wark Griffith foi um dos grandes criadores da linguagem cinematográfica e, quando morreu, tinha sido esquecido por todos em Hollywood. Tal como Griffith, também Mauritz Stiller morreu aos 45 anos, na sua Suécia natal, um pouco abandonado por todos. Ele, que criara alguns dos mais belos filmes da História do Cinema, invadindo territórios pouco explorados, como sucedeu com o célebre “Erotikon”, onde o erotismo navegava pelas imagens, foi também o grande responsável pelo lançamento no Cinema da mais famosa Diva da Sétima Arte, Garbo a Divina, como muitos lhe chamaram.


Foi precisamente com “A Lenda de Gosta Berling” / “Gosta Berling’s Saga” que Mauritz Stiller lançou Greta Garbo na tela, numa das mais belas histórias de amor, mas ao verem este filme, já editado em dvd, irão descobrir como a beleza de Garbo foi trabalhada muitos anos depois por esse tycoon chamado Louis B. Meyer. No entanto o magnata, quando a conheceu num almoço, até nem simpatizou com ela achando-a “gordinha” e possuidora de uma simpatia abaixo dos “parâmetros Hollywoodescos”.
Como é possível ver neste filme, no que diz respeito à beleza, Garbo tinha competidoras à altura, mas aquele seu olhar já lá estava, aquele olhar que a todos nos enfeitiçou já morava no seu rosto.


“A Lenda de Gosta Berling” / “Gosta Berling’s Saga”, uma adaptação do romance de Selma Lagerlof (o mesmo já tinha sucedido com “O Tesouro do Arne”), relata-nos a vida do protagonista desde que se apaixonou pela bela Condessa Elizabeth, ele que até era padre tudo deixou por ela, transportando consigo esse terrível segredo, mas ao longo do seu caminho tortuoso outros segredos irão sendo descobertos, alterando por completo a vida dos protagonistas, porque até as maldições fruto de passados bem guardados terminam por fugir desse cofre bem fechado a sete chaves, alterando o rumo dos acontecimentos.
A forma como Mauritz Stiller nos oferece este filme é na verdade soberba, sendo a demonstração plena não só da sua arte, mas também da forma como o cinema mudo tinha atingido um estatuto de grandeza no universo artístico, basta recordar a sequência do trenó e a perseguição dos lobos ou o incêndio da Mansão, para ficar tudo dito.


Greta Garbo 
no tempo do Sonoro

Por todas estas razões, Hollywood decidiu ir buscá-lo ao norte da Europa, mas a sua carreira americana saudou-se por um profundo fracasso, tendo realizado apenas dois filmes no Novo Mundo: “Hotel Imperial” e The Woman on the Train”.
Curiosamente, foi graças a Mauritz Stiller que Greta Garbo seguiu para a América, porque nessa época ela estava para ele como Marlene Dietrich esteve para Joseph von Sternberg (o artista e a sua musa), durante largos anos, como todos bem sabemos.


 A Divina, Greta Garbo

Mas depois de chegar ao “Paraíso” de Hollywood, nunca lhe foi possível dirigir a sua musa, mais tarde a história foi escrita “por linhas tortas”: Greta Garbo, a mal amada, tornou-se a Divina Garbo e Mauritz Stiller foi obrigado a abandonar as filmagens de “Street of Sin” porque se encontrava bastante doente e, regressado a Estocolmo, foi esquecido por todos.
E nunca é demais recordar as palavras do conhecido critico  de cinema Louis Delluc que se referiu ao realizador desta forma: “joga com o preto e branco com uma atenção subtil de trovador”. Recordamos hoje aqui este grande cineasta, que felizmente começa a ser (re)descoberto.

domingo, 29 de maio de 2016

Lawrence Durrell - "O Quarteto de Alexandria" / "The Alexandria Quartet"


Lawrence Durrell
"O Quarteto de Alexandria"
Ulisseia - (4 Volumes)

A Feira do Livro 2016 já está no Parque Eduardo VII e por ali vai ficar até 13 de Junho e se for como nós que vamos sempre nem que seja para comprar um único livro, porque muitas vezes o orçamento só permite isso, aqui deixamos a nossa recomendação, para adquirirem "O Quarteto de Alexandria" de Lawrence Durrell, obra em quatro volumes: "Justine", "Baltasar", "Moutolive" e "Clea".
A genial e incontornável obra de Lawrence Durrell está editada em português em três modalidades: um conjunto de 4 volumes, em livro de bolso também em quatro volumes e apenas num só livro.



“O Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell tem sido lido sempre com um enorme prazer desde que o descobri, porque Durrell trabalha o espaço e o tempo de forma sublime e a leitura desta magnífica obra tem várias hipóteses, como nos diz o seu autor: seguir a ordem acima referida, ou optarmos por outra ordem qualquer, mas iniciando sempre em "Justine".
Tenho que confessar que já a li de todas as "maneiras", descobrindo sempre um enorme prazer literário, porque na verdade estamos perante um desses monumentos incontornáveis das letras do século XX. Aqui vos deixo o seu início:



"O mar está novamente agitado hoje, com rajadas de vento que despertam os sentidos. Em pleno Inverno, a primavera começa a fazer-se sentir. Toda a manhã o céu esteve de uma pureza de pérola; há grilos nos recantos sombrios; o vento despoja e fustiga os grandes plátanos...
Retirei-me para esta ilha com alguns livros e com a criança - a filha de Melissa. Não sei porquê, agora, ao escrever, penso nesta ilha como um «retiro». Os habitantes dizem por brincadeira, que só um convalescente pensaria em vir procurar este lugar. Bem, para condescender, admitamos que sou um homem que procura curar-se..."

Lawrence Durrell, "Justine"

(Tradução de Daniel Gonçalves)
Editor: Ulisseia

D. W. Griffith – “True Heart Susie”


D. W. Griffith – "True Heart Susie"
(EUA – 1919) - (86 min. - Mudo - P/B)
Lilian Gish, Robert Harron, Walter Rhigby, Loyola O’Connor.


Como todos sabemos, D. W. Griffith é o pai da linguagem cinematográfica. Com ele o cinema criou a Sétima Arte e se foi desde sempre uma daquelas figuras incontornáveis, com êxitos estrondosos e obras cada vez mais fabulosas, envolvendo grandes meios, seria precisamente com "Intolerance" / "Intolerância" que ele iria conhecer pela primeira vez o insucesso comercial, a sua última película foi "The Struggle" em 1931, terminando os seus dias a viver num quarto de hotel, esquecido por todos e no entanto devemos-lhe tudo (*), sejamos nós simples cinéfilos ou profissionais do ramo. No seu funeral foram poucos os presentes e até Charlie Chaplin, que com ele fundou a "United Artist" (os outros companheiros dessa aventura eram Douglas Fairbanks e Mary Pickford), não esteve presente na derradeira despedida do pai da linguagem cinematográfica. D. W. Griffith, tal como George Méliès (esse verdadeiro Mágico dos efeitos especiais), viveu os seus dias amando o cinema do qual foi um dos fundadores.


Esta película de D. W. Griffith oferece-nos a eterna teia amorosa, em que A ("True Heart Susie"/Lillian Gish) ama B ("William Jenkins"/Robert Harron), que se apaixona e casa com C ("Bettina Hopkins"/Clarina Seymour), que trai B para este, no final, ficar com A, será que perceberam? Trata-se apenas do tão conhecido triângulo amoroso que tantas histórias ofereceu à Sétima Arte e que continua a habitar o quotidiano do ser humano, neste universo onde os sentimentos continuam a ceder às mais variadas paixões.


Com a bonita idade de quase um século de vida, “True Heart Susie” de David Wark Griffith, apesar de ter visto perdida a partitura que foi composta aquando da sua estreia, comprova que hoje em dia pouco se inventa no cinema, estando nesta película, como em outros filmes da mesma época, a trave mestra de todas as histórias de amor, que vamos descobrindo nas telas das salas de cinema ou no pequeno écran.


Lillian Gish a eterna Star de D. W. Griffith

Olhar o nascimento do Cinema, através do rosto de Lillian Gish e das imagens de David Wark Griffith é descobrir os primeiros passos dessa criança chamada Sétima Arte e "True Heart Susie" revela-se como um dos mais belos e deliciosos exemplos nascidos desse casamento entre cineasta e actriz, tornando inesquecível o talento desta maravilhosa actriz que sempre se referiu ao cineasta como Mr. Griffith, ao longo da sua vida.

(*) - Esse grande cineasta e teórico chamado Sergei Eisenstein demonstrou o seu reconhecimento pelo cineasta americano, ao escrever um longo texto sobre a sua Arte intitulado "Dickens, Griffith e nós", que ficou célebre.

sábado, 28 de maio de 2016

Mal Waldron Trio - Free At Last


Mal Waldron Trio
"Free at Last"
ECM Records


O primeiro álbum a ser editado pela ECM Records - Edition of Contemporary Music foi "Free at Last" do pianista Mal Waldron que, desde 1965, vivia em Munique, na Alemanha, tendo iniciado a sua actividade nos anos cinquenta (do século passado) em Nova Iorque. Na mesma época Mal Waldron irá também assinar o álbum de estreia da Editora Japo (irmã gémea da ECM Records), intitulado "The Call", onde nos surge com o denominado som de fusão.

Aqui começava uma das mais belas aventuras da História da Música ao nível da edição discográfica, através desse formatp que celebrizou o jazz ou seja o Trio de Jazz, que aqui será composto por Mal Waldron no piano, Isla Eckinger no Contrabaixo e Clarence Becton na bateria. Todos os temas em "Free at Last"são da autoria de Mal Waldron, excepto "Willow Weep For You" pertencente a Ann Ronell.


Mal Waldron - Piano
Isla Eckenger - Bass
Clarence Becton - Drums

1 – Rat Now - 10:18*
2 - Balladina - 5:05
3 - 1-3-234 - 4:05
4 - Rock My Soul - 11:23
5 - Willow Weep For Me - 7:34
6 - Boo - 3:24

Duração: 41:29
Ano: 1970
Edição: LP/CD


Gravado a 24 de Novembro de 1969 no Tonstudio Bauer, Ludwigsburg por Kurt Rapp e  Manfred Eicher. Produção de Manfred Scheffner e da Jazz by Post. Foi o primeiro álbum a ser editado com o selo ECM Records.

Fritz Lang - “A Morte Cansada” / “Der Mude Tod”


Fritz Lang – "A Morte Cansada" / "Der Mude Tod"
(ALE – 1921) – (114 min. –  P/B - Mudo)
Lil Dagover, Walter Janssen, Bernhard Goetzke, Hans Sternberg.

Quando se fala na presença da morte como personagem no interior do cinema, de imediato nos recordamos de “O Sétimo Selo” de Ingmar Bergman mas, muitos anos antes, Fritz Lang já nos tinha oferecido essa temível “personagem” em “A Morte Cansada” / “Der Mude Tod”, cujo argumento nasceu das mãos de Thea von Harbou, na primeira de muitas colaborações entre o cineasta e aquela que viria a ser sua mulher.


Estamos no ano de 1921 e Lang decide dividir a sua película em segmentos bem distintos, introduzindo a acção da película em três épocas diferentes: a Veneza Renascentista, a China Antiga e esse território das mil e uma noites, de que Bagdad, com os seus califas, invadiu o imaginário Ocidental, ao longo de diversas gerações


Tudo irá começar quando um jovem casal, eternamente apaixonado, entra numa velha estalagem alemã, que nos oferece um retrato perfeito dos habitantes da vila, incluindo uma estranha personagem vestida de negro que construiu, num terreno próximo do cemitério, um muro intransponível, sem porta, nem janelas, sendo desconhecido de todos o que existe no seu interior.


O jovem será raptado pela própria morte e só através do sonho a sua amante o irá encontrar, sendo transportada para esses territórios longínquos, onde se desenrola a acção. O tempo/vida oferecido pela morte à jovem, para demonstrar o seu amor pelo marido, é determinado por enormes velas que ardem lentamente, terminando a terrível passagem do tempo com a extinção das chamas das velas.
Desta forma, por três vezes, a jovem irá encontrar-se através do sonho com o ser amado, acabando por sacrificar a sua própria vida ao salvar uma criança, para desta forma se juntar na eternidade ao homem por quem se encontra apaixonada.


Contando na fotografia com o genial Fritz Arno Wagner, o cineasta oferece-nos um retrato profundo sobre o amor, ao mesmo tempo que nos revela os caminhos movediços por onde a morte navega, jogando de forma impiedosa com a existência humana.

“A Morte Cansada” oferece-nos, mais uma vez, a força do expressionismo germânico, dando-nos Fritz Lang mais uma obra-prima do cinema, que continua a surpreender, muitos anos depois, todos aqueles que a descobrem no écran.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Eno, Moebius, Roedelius, Plank – “Begegnungen” e “Begegnungen II”; Cluster & Eno - "Old Land"


Eno, Moebius Rodelius.
"Begegnungen"
Sky Records

Eno, Moebius, Rodelius, Plank.
"Begegnungen II"
Sky Records

Cluster & Brian Eno
"Old Land"
Sky Records

“Begegnungen” é uma colectânea que reúne temas retirados dos trabalhos que Brian Eno assinou com os Cluster, sendo as restantes faixas oriundas de álbuns assinados por Moebius e Rodelius, seja em nome do grupo de krautrock Cluster ou em seu nome próprio.
E se alguns, ao lerem o termo colectânea, decidirem ficar de pé atrás, não façam isso, porque “Begegnungen” é uma obra perfeita na forma como estão alinhados os diversos temas, revelando uma homogeneidade que, de imediato, seduz o ouvinte surgindo assim como um excelente cartão de visita de Brian Eno, Dieter Moebius, Hans-Joachum Rodelius e do produtor Conny Plank, fundamental nos trabalhos discográficos dos Cluster, sendo também de destacar o contributo do baterista Mani Neumeier. Dos sete temas que compõem “Begegnungen” seis são instrumentais, revelando-se o famoso “The Belldog” a única faixa cantada por Brian Eno.


 Eno, Moebius e Rodelius

“O trabalho “Begegnungen” oferece-nos uma maravilhosa viagem através da obra destes músicos de eleição, revelando-se de forma perfeita a harmonia entre os sintetizadores e o piano, num delicioso diálogo, assim como quando este é acompanhado pelo ritmo da precursão, ao mesmo tempo que também temos esse espaço mágico para a guitarra acústica nos oferecer as suas cores e harmonias.


O sucesso de “Begegnungen” no ano de 1984, aquando da sua saída no mercado discográfico, deu origem ao nascimento de um segundo volume, precisamente intitulado “Begegnungen II”, revelando-se como o complemento perfeito da música criada por Roedelius, Moebius e Eno, baseando-se a segunda colectânea precisamente nas mesmas fontes do trabalho anterior, surgindo assim um álbum que estende por outros territórios a viagem musical anteriormente proposta ao ouvinte não sendo, como por vezes sucede, um aproveitamento comercial, muito ao contrário, porque aqui se trata de nos oferecer o retrato de uma época incontornável da denominada Ambient Music.


Aproveitamos para recordar que foi editado na época o trabalho “Old Land”, uma outra colectânea, que recomendamos vivamente tendo apenas como fonte os dois álbuns de originais gravados por Brian Eno e os Cluster, mas cujo alinhamento e selecção dos temas nos oferecem uma outra visão, ou audição se preferirem, da viagem original levada a cabo por estes músicos no interior do krautrock.

Fritz Lang - “As Aranhas” / “Die Spinnen”


Fritz Lang – "As Aranhas" / "Die Spinnen"
 (ALE – 1919/1920) – (221 min. – Mudo - P/B)
Carl De Volt, Lil Dagover, Ressel Orla, Georg John.

Fritz Lang é hoje em dia um nome incontornável na História do Cinema e quando, a encerrar a sua longa carreira, o cineasta decidiu realizar dois filmes de aventuras “Der Tiger von Eschnapu” e “Das Indische Grabmal” / “O Túmulo Índio”, muitos viram nisso uma espécie de regresso à sua obra inicial, em que os célebres “serial” possuíam uma atracção infinita junto das plateias de então. É inevitável encontrar-se uma certa associação com essa obra mágica, de início da sua carreira, intitulada “As Aranhas” / “Die Spinnen”, realizada no período mágico do cinema mudo, nesses longínquos anos de 1919/1920 e inicialmente intitulada “As Aventuras de Kay Hoog em Mundos Conhecidos e Desconhecidos”.


Desde muito cedo, as leituras dos romances juvenis ofereceram ao jovem Fritz Lang viagens incontáveis através de universos de mundos perdidos, apontando-se Jules Verne (este, bem nosso conhecido) e Joe May como escritores que irão decididamente influenciar o cineasta na escrita dos argumentos que irá criar para o cinema.

O argumento de “As Aranhas” / “Die Spinnen” é da sua total responsabilidade, já que nesse tempo ainda não conhecera a sua futura mulher e colaboradora: a célebre argumentista Thea Von Harbou, com quem irá assinar alguns dos mais espantosos argumentos do cinema mudo alemão, terminando essa frutuosa colaboração quando o cineasta decide abandonar a terra natal, optando Thea Von Harbou por permanecer na Alemanha.


Fritz Lang

Iremos assim acompanhar, ao longo de “Die Spinnen”, a luta que irá opor o célebre desportista Kay Hoog (Carl de Vogt) a essa poderosa organização secreta intitulada “As Aranhas”, que pretende apoderar-se das principais riquezas do mundo, para assim o manipular a seu belo prazer. Organização que se irá apresentar como uma espécie de embrião dessa outra organização bem mais famosa, criada pela pena da dupla Lang/Harbou, controlada pelo célebre “Dr. Mabuse”.

A luta entre Kay Hoog (Carl de Vogt) e o temível Lio Sha (Ressel Orla), líder da poderosa organização, irá conduzir-nos até ao mundo perdido dos Incas, passando pelas grandes Metrópoles (S. Francisco), terminando o duelo nas hoje famosas ilhas Falkland, devido ao conflito que opôs britânicos e argentinos.


Tal como será habitual na obra do cineasta (“Metropolis” e “A Mulher na Lua” são um bom exemplo), a figura feminina será um elemento determinante para o desenrolar vitorioso da luta do herói contra as forças do mal, tema tão em voga nos romances juvenis desses tempos passados, hoje em dia um pouco esquecidos.

A descoberta de “As Aranhas” / “Die Spinnen”de Fritz Lang (graças à edição em DVD), oferece-nos uma verdadeira iniciação ao universo do cineasta, nesse período do Mudo, em que o cinema arrastava multidões para o interior das salas de espectáculo em busca dessas emoções fortes que só a Sétima Arte podia proporcionar.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Keith Jarrett / Charlie Haden – “Jasmine”


Keith Jarrett / Charlie Haden
"Jasmine"
ECM Records

Quando Keith Jarrett decidiu encetar uma carreira em nome próprio constituiu o tradicional trio de jazz composto por piano, contrabaixo e bateria, sendo os seus membros Keith Jarrett, Charlie Haden e Paul Motion, respectivamente, nascendo assim o trabalho “Life Between The Exit Signs” (no qual se encontra incluído o tema “Lisbon Stomp” logo a abrir o disco), que recebeu o aplauso da crítica da especialidade, sentindo-se desde logo uma empatia entre todos os seus membros.

Como muitos sabem este trio deu origem ao célebre quarteto americano de Keith Jarrett, tendo-se juntado ao trio o saxofonista Dewey Redman.


Desde muito cedo o contrabaixista Charlie Haden nutriu uma especial afeição por duetos e quando decidiu gravar no ano de 1976, em nome próprio, o album “Closeness”, todo ele constituído por duetos convidou Keith Jarrett para participar no belo “Ellen David”, um tema de uma consistência melodiosa que surpreendeu muitos, embora os dois músicos já tivessem conhecido anteriormente essa aventura a duas vozes quando foi gravado o album “Death and The Flower”, onde juntos em “Prayer” nos ofereciam um tema de um lirismo único.


Os anos foram passando e quando a aventura do quarteto americano terminou, Keith Jarrett e Charlie Haden seguiram os seus próprios caminhos. Trinta anos depois os dois soberbos músicos, considerados Mestres nos instrumentos que tocam, decidiram encetar uma nova aventura.

Tudo começou com um convite de Keith Jarrett a Charlie Haden para este o visitar com a esposa, para passarem uns dias juntos na sua residência e como não podia deixar de ser a memória do passado veio para o presente, tendo decidido tocarem um pouco no Estúdio de Jarrett, que se situa mesmo ao lado da sua residência e onde nasceram álbuns como “Spirits” e “The Melody at Night With You”. E embora o seu piano Steinway não estivesse na “melhor forma” (as palavras são de Jarrett), decidiram gravar algumas das mais belas canções de amor do sempre admirável “Great American Song Book”, criando um disco memorável em todos os seus aspectos, já que a empatia entre ambos é digna de nota.


“Jasmine” é precisamente esse álbum nascido do encontro entre estes dois músicos de excelência, no qual transparece um amor pela música enorme e nada melhor do que dar a palavra ao próprio Keith Jarrett a propósito deste disco: “convida a tua esposa ou o teu marido ou o teu amado, depois da noite já ter chegado, sentem-se e escutem. Estas são grandes canções de amor tocadas por músicos que tentaram manter intacta a mensagem. Eu espero que vocês consigam ouvir os nossos sentimentos”.


Na realidade “Jasmine” de Keith Jarrett e Charlie Haden é a mais bela declaração de amor que dois músicos fizeram à música. Esse mesmo amor que todos nós nutrimos pelo ser amado. “Jasmine” representa assim essa maravilhosa estrada que nos conduz ao amor eterno.

Carl Dreyer - “A Paixão de Joana D’Arc” / “La Passion de Jeanne D’Arc”


Carl Dreyer – "A Paixão de Joana D'Arc" / "La Passion de Jeanne D'Arc"
(FRANÇA – 1928) - (110 min – P/B  - Mudo)
Falconetti, Eugéne Silvain, André Berlly, Maurice Schultz.

A história de Joana D’Arc já foi por diversas vezes retratada no cinema, ao longo dos anos, mas será a visão que nos ofereceu o dinamarquês Carl Theodor Dreyer que fica para sempre registada como a obra-prima absoluta.


Maria Falconetti
Uma Actriz Inesquecível

O cinema de Carl Dreyer, na época, era já conhecido de todos, mas para o enorme esplendor da película contribuiu decididamente o rosto mais que expressivo de Falconetti, actriz oriunda da Comédie-Française (este seria o seu único filme), que aceitou rapar o cabelo e oferecer todo o seu talento ao protagonizar esta filha do povo, que um dia se viu traída pelos seus pares, ficando prisioneira dos ocupantes ingleses, que a irão julgar e torturar, para depois a condenarem a morrer na fogueira.


Carl Dreyer

A forma como Carl Dreyer nos oferece o rosto martirizado de Falconetti, com aquele olhar que ficou na História do Cinema e que faz arrepiar o mais comum dos mortais, fala por si. Aliás Jean-Luc Godard faz a sua homenagem a este filme quando, em “Vivre sa Vie” / “Viver a sua Vida”, Anna Karina vai ao cinema ver a película de Dreyer e descobrimos o campo-contracampo dos rostos de Karina e Falconetti, num dos momentos mais sublimes deste maravilhoso e inesquecível filme de Jean-Luc Godard.


Em “A Paixão de Joana D’Arc”, o cineasta dinamarquês usa o grande plano com uma força expressiva até então nunca vista e sentimos o próprio medo a invadir-nos o corpo, quando deparamos com o rosto dos carrascos sem alma que interrogam a prisioneira. Na verdade, ao (re)vermos “La Passion de Jeanne D’Arc”, sentimos o respirar da própria alma e, à medida que se aproxima o fim da jovem heroína, as lágrimas que lhe correm pelo rosto dizem mais que todas as palavras possíveis.


Carl Dreyer, a propósito deste filme, afirmou que o pretendido era mostrar que os heróis da História são também profundamente humanos.


A “Paixão de Joana D’Arc” de Carl Dreyer oferece-nos um verdadeiro rio de sentimentos, nesse rosto angélico e torturado dessa espantosa actriz chamada Marie Falconetti.