terça-feira, 31 de maio de 2016

F. W. Murnau - “O Último dos Homens” / Der Letzte Mann”


F. W. Murnau – "O Último dos Homens" / "Der Letzte Mann"
(ALEMANHA  - 1924) – (77 min – P/B - Mudo)
Emil Jannings, Maly Delschaft, Max Hiller, Emilie Kurz

Quando Murnau realizou “O Último dos Homens”, o “kammerspiel” atingiu o seu apogeu e ao vermos esta película somos obrigados a constatar tal facto, porque aqui a história do porteiro do hotel “Atlantic”, que um dia é destituído do seu cargo, é-nos narrada sem qualquer inclusão de intertítulos, com excepção da carta que lê onde lhe é comunicada a sua destituição do lugar que ocupou até então na hierarquia do hotel, passando a ser o responsável pelos lavabos do hotel.


Já agora convém referir que existem duas versões: uma em que o filme termina com ele reduzido a um estado de perfeita perdição, depois de ter perdido o seu belo casaco, símbolo perfeito da sua importância perante o olhar alheio, ficando para sempre confinado a essa cave onde se situam os lavabos onde irá morrer, intitulada "Der Letzte Mann"; e uma outra versão em que um multimilionário excêntrico lhe deixa a sua fortuna, porque ele foi o último homem a vê-lo vivo, resgatando-o do inferno e tornando-o um homem respeitado e venerado, fruto do dinheiro que possui, intitulada "The Last Laugh". 


O genial Emil Jannings

Esta segunda versão, a existente no dvd “German Silent Masterworks”, terá sido filmada por imposição do protagonista Emil Jannings (o célebre Professor Unrat de “O Anjo Azul” de Joseph von Sternberg) e do produtor Erich Pommer, após a recepção negativa ao filme, na noite de estreia.


Mais uma vez F. W. Murnau nos oferece uma obra-prima do cinema ao realizar esta película, onde a luz da sua Arte consegue verdadeiros milagres, narrando a vida de um homem que, fruto da sua profissão de porteiro do hotel, é venerado e respeitado por todos os que o conhecem, até à chegada dessa noite de chuva em que a idade o irá trair, quando o gerente do hotel o encontra sentado na recepção a beber um copo de água e a descansar devido ao esforço despendido no transporte de uma mala enorme de uma cliente, debaixo de chuva.


Essa falta será devidamente anotada e no dia seguinte, quando ele se dirige para o hotel, irá descobrir que o seu lugar já fora ocupado por alguém mais novo, ostentando um porte distinto. A partir desse dia será o responsável dos lavabos, perdendo o direito a ostentar esse enorme casaco de porteiro, sinónimo de divisas perdidas na guerra da vida. Ele irá por todos os meios esconder a sua nova condição dos que lhe são próximos, até chegar esse momento fatal em que a verdade surge de forma abrupta, transportando no seu interior a mesquinhez humana, tão bem retratada no comportamento de todos os que o rodeiam.


Momento sublime da rodagem de
"O Último dos Homens" / "Der Letzte Mann"

A forma como F. W. Murnau e o seu operador, o genial director de fotografia Karl Freund nos oferecem o quotidiano banal deste homem, focalizando a acção no hotel, onde o movimento incessante das portas, a abrir e a fechar, são como caminhos que se abrem e fecham consoante os seus protagonistas. Por outro lado oferece-nos o respirar das ruas dessa metrópole de então, chamada Berlin, ao mesmo tempo que nos convida a entrar no bairro onde o porteiro do hotel habita, retratando em traços precisos o rosto da Alemanha desses anos.


Seja qual for o final escolhido, teremos sempre em “O Último dos Homens” uma das obras mais importantes da filmografia de F. W. Murnau, para além de mais uma espantosa interpretação desse gigante chamado Emil Jannings.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Mauritz Stiller - “A Lenda de Gosta Berling” / “Gosta Berling’s Saga”


Mauritz Stiller –  “A Lenda de Gosta Berling” / “Gosta Berling’s Saga”
(SUÉCIA – 1924) – (61 min. / 185 min. - P/B - Mudo)
Greta Garbo, Lars Hanson, Jenny Hasselqvist, Otto Elg-Lundberg, Ellen Sedelstron.

Nos dias de hoje, quando olhamos o que se escreve sobre cinema, somos obrigados a constatar que o cinema mudo se está a transformar num eterno esquecido. Cada vez mais a sua arte passa ao lado das edições em dvd, contando-se pelos dedos as edições nacionais dos primórdios do cinema, no entanto a nível internacional começa-se a sentir um reconhecimento da sua importância e valor através de edições restauradas. Muitas vezes esquecemo-nos que os grandes mestres do cinema iniciaram a sua actividade no período do mudo (John Ford, Raoul Walsh, Alfred Hitchcock), passando depois ao sonoro e outros houve como Mauritz Stiller ou F.W.Murnau que apenas assinaram obras durante este período.


Greta Garbo e Mauritz Stiller

Quando olhamos para esta época fabulosa dos pioneiros do cinema, convém recordar que David Wark Griffith foi um dos grandes criadores da linguagem cinematográfica e, quando morreu, tinha sido esquecido por todos em Hollywood. Tal como Griffith, também Mauritz Stiller morreu aos 45 anos, na sua Suécia natal, um pouco abandonado por todos. Ele, que criara alguns dos mais belos filmes da História do Cinema, invadindo territórios pouco explorados, como sucedeu com o célebre “Erotikon”, onde o erotismo navegava pelas imagens, foi também o grande responsável pelo lançamento no Cinema da mais famosa Diva da Sétima Arte, Garbo a Divina, como muitos lhe chamaram.


Foi precisamente com “A Lenda de Gosta Berling” / “Gosta Berling’s Saga” que Mauritz Stiller lançou Greta Garbo na tela, numa das mais belas histórias de amor, mas ao verem este filme, já editado em dvd, irão descobrir como a beleza de Garbo foi trabalhada muitos anos depois por esse tycoon chamado Louis B. Meyer. No entanto o magnata, quando a conheceu num almoço, até nem simpatizou com ela achando-a “gordinha” e possuidora de uma simpatia abaixo dos “parâmetros Hollywoodescos”.
Como é possível ver neste filme, no que diz respeito à beleza, Garbo tinha competidoras à altura, mas aquele seu olhar já lá estava, aquele olhar que a todos nos enfeitiçou já morava no seu rosto.


“A Lenda de Gosta Berling” / “Gosta Berling’s Saga”, uma adaptação do romance de Selma Lagerlof (o mesmo já tinha sucedido com “O Tesouro do Arne”), relata-nos a vida do protagonista desde que se apaixonou pela bela Condessa Elizabeth, ele que até era padre tudo deixou por ela, transportando consigo esse terrível segredo, mas ao longo do seu caminho tortuoso outros segredos irão sendo descobertos, alterando por completo a vida dos protagonistas, porque até as maldições fruto de passados bem guardados terminam por fugir desse cofre bem fechado a sete chaves, alterando o rumo dos acontecimentos.
A forma como Mauritz Stiller nos oferece este filme é na verdade soberba, sendo a demonstração plena não só da sua arte, mas também da forma como o cinema mudo tinha atingido um estatuto de grandeza no universo artístico, basta recordar a sequência do trenó e a perseguição dos lobos ou o incêndio da Mansão, para ficar tudo dito.


Greta Garbo 
no tempo do Sonoro

Por todas estas razões, Hollywood decidiu ir buscá-lo ao norte da Europa, mas a sua carreira americana saudou-se por um profundo fracasso, tendo realizado apenas dois filmes no Novo Mundo: “Hotel Imperial” e The Woman on the Train”.
Curiosamente, foi graças a Mauritz Stiller que Greta Garbo seguiu para a América, porque nessa época ela estava para ele como Marlene Dietrich esteve para Joseph von Sternberg (o artista e a sua musa), durante largos anos, como todos bem sabemos.


 A Divina, Greta Garbo

Mas depois de chegar ao “Paraíso” de Hollywood, nunca lhe foi possível dirigir a sua musa, mais tarde a história foi escrita “por linhas tortas”: Greta Garbo, a mal amada, tornou-se a Divina Garbo e Mauritz Stiller foi obrigado a abandonar as filmagens de “Street of Sin” porque se encontrava bastante doente e, regressado a Estocolmo, foi esquecido por todos.
E nunca é demais recordar as palavras do conhecido critico  de cinema Louis Delluc que se referiu ao realizador desta forma: “joga com o preto e branco com uma atenção subtil de trovador”. Recordamos hoje aqui este grande cineasta, que felizmente começa a ser (re)descoberto.

domingo, 29 de maio de 2016

D. W. Griffith – “True Heart Susie”


D. W. Griffith – "True Heart Susie"
(EUA – 1919) - (86 min. - Mudo - P/B)
Lilian Gish, Robert Harron, Walter Rhigby, Loyola O’Connor.


Como todos sabemos, D. W. Griffith é o pai da linguagem cinematográfica. Com ele o cinema criou a Sétima Arte e se foi desde sempre uma daquelas figuras incontornáveis, com êxitos estrondosos e obras cada vez mais fabulosas, envolvendo grandes meios, seria precisamente com "Intolerance" / "Intolerância" que ele iria conhecer pela primeira vez o insucesso comercial, a sua última película foi "The Struggle" em 1931, terminando os seus dias a viver num quarto de hotel, esquecido por todos e no entanto devemos-lhe tudo (*), sejamos nós simples cinéfilos ou profissionais do ramo. No seu funeral foram poucos os presentes e até Charlie Chaplin, que com ele fundou a "United Artist" (os outros companheiros dessa aventura eram Douglas Fairbanks e Mary Pickford), não esteve presente na derradeira despedida do pai da linguagem cinematográfica. D. W. Griffith, tal como George Méliès (esse verdadeiro Mágico dos efeitos especiais), viveu os seus dias amando o cinema do qual foi um dos fundadores.


Esta película de D. W. Griffith oferece-nos a eterna teia amorosa, em que A ("True Heart Susie"/Lillian Gish) ama B ("William Jenkins"/Robert Harron), que se apaixona e casa com C ("Bettina Hopkins"/Clarina Seymour), que trai B para este, no final, ficar com A, será que perceberam? Trata-se apenas do tão conhecido triângulo amoroso que tantas histórias ofereceu à Sétima Arte e que continua a habitar o quotidiano do ser humano, neste universo onde os sentimentos continuam a ceder às mais variadas paixões.


Com a bonita idade de quase um século de vida, “True Heart Susie” de David Wark Griffith, apesar de ter visto perdida a partitura que foi composta aquando da sua estreia, comprova que hoje em dia pouco se inventa no cinema, estando nesta película, como em outros filmes da mesma época, a trave mestra de todas as histórias de amor, que vamos descobrindo nas telas das salas de cinema ou no pequeno écran.


Lillian Gish a eterna Star de D. W. Griffith

Olhar o nascimento do Cinema, através do rosto de Lillian Gish e das imagens de David Wark Griffith é descobrir os primeiros passos dessa criança chamada Sétima Arte e "True Heart Susie" revela-se como um dos mais belos e deliciosos exemplos nascidos desse casamento entre cineasta e actriz, tornando inesquecível o talento desta maravilhosa actriz que sempre se referiu ao cineasta como Mr. Griffith, ao longo da sua vida.

(*) - Esse grande cineasta e teórico chamado Sergei Eisenstein demonstrou o seu reconhecimento pelo cineasta americano, ao escrever um longo texto sobre a sua Arte intitulado "Dickens, Griffith e nós", que ficou célebre.

sábado, 28 de maio de 2016

Fritz Lang - “A Morte Cansada” / “Der Mude Tod”


Fritz Lang – "A Morte Cansada" / "Der Mude Tod"
(ALE – 1921) – (114 min. –  P/B - Mudo)
Lil Dagover, Walter Janssen, Bernhard Goetzke, Hans Sternberg.

Quando se fala na presença da morte como personagem no interior do cinema, de imediato nos recordamos de “O Sétimo Selo” de Ingmar Bergman mas, muitos anos antes, Fritz Lang já nos tinha oferecido essa temível “personagem” em “A Morte Cansada” / “Der Mude Tod”, cujo argumento nasceu das mãos de Thea von Harbou, na primeira de muitas colaborações entre o cineasta e aquela que viria a ser sua mulher.


Estamos no ano de 1921 e Lang decide dividir a sua película em segmentos bem distintos, introduzindo a acção da película em três épocas diferentes: a Veneza Renascentista, a China Antiga e esse território das mil e uma noites, de que Bagdad, com os seus califas, invadiu o imaginário Ocidental, ao longo de diversas gerações


Tudo irá começar quando um jovem casal, eternamente apaixonado, entra numa velha estalagem alemã, que nos oferece um retrato perfeito dos habitantes da vila, incluindo uma estranha personagem vestida de negro que construiu, num terreno próximo do cemitério, um muro intransponível, sem porta, nem janelas, sendo desconhecido de todos o que existe no seu interior.


O jovem será raptado pela própria morte e só através do sonho a sua amante o irá encontrar, sendo transportada para esses territórios longínquos, onde se desenrola a acção. O tempo/vida oferecido pela morte à jovem, para demonstrar o seu amor pelo marido, é determinado por enormes velas que ardem lentamente, terminando a terrível passagem do tempo com a extinção das chamas das velas.
Desta forma, por três vezes, a jovem irá encontrar-se através do sonho com o ser amado, acabando por sacrificar a sua própria vida ao salvar uma criança, para desta forma se juntar na eternidade ao homem por quem se encontra apaixonada.


Contando na fotografia com o genial Fritz Arno Wagner, o cineasta oferece-nos um retrato profundo sobre o amor, ao mesmo tempo que nos revela os caminhos movediços por onde a morte navega, jogando de forma impiedosa com a existência humana.

“A Morte Cansada” oferece-nos, mais uma vez, a força do expressionismo germânico, dando-nos Fritz Lang mais uma obra-prima do cinema, que continua a surpreender, muitos anos depois, todos aqueles que a descobrem no écran.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Fritz Lang - “As Aranhas” / “Die Spinnen”


Fritz Lang – "As Aranhas" / "Die Spinnen"
 (ALE – 1919/1920) – (221 min. – Mudo - P/B)
Carl De Volt, Lil Dagover, Ressel Orla, Georg John.

Fritz Lang é hoje em dia um nome incontornável na História do Cinema e quando, a encerrar a sua longa carreira, o cineasta decidiu realizar dois filmes de aventuras “Der Tiger von Eschnapu” e “Das Indische Grabmal” / “O Túmulo Índio”, muitos viram nisso uma espécie de regresso à sua obra inicial, em que os célebres “serial” possuíam uma atracção infinita junto das plateias de então. É inevitável encontrar-se uma certa associação com essa obra mágica, de início da sua carreira, intitulada “As Aranhas” / “Die Spinnen”, realizada no período mágico do cinema mudo, nesses longínquos anos de 1919/1920 e inicialmente intitulada “As Aventuras de Kay Hoog em Mundos Conhecidos e Desconhecidos”.


Desde muito cedo, as leituras dos romances juvenis ofereceram ao jovem Fritz Lang viagens incontáveis através de universos de mundos perdidos, apontando-se Jules Verne (este, bem nosso conhecido) e Joe May como escritores que irão decididamente influenciar o cineasta na escrita dos argumentos que irá criar para o cinema.

O argumento de “As Aranhas” / “Die Spinnen” é da sua total responsabilidade, já que nesse tempo ainda não conhecera a sua futura mulher e colaboradora: a célebre argumentista Thea Von Harbou, com quem irá assinar alguns dos mais espantosos argumentos do cinema mudo alemão, terminando essa frutuosa colaboração quando o cineasta decide abandonar a terra natal, optando Thea Von Harbou por permanecer na Alemanha.


Fritz Lang

Iremos assim acompanhar, ao longo de “Die Spinnen”, a luta que irá opor o célebre desportista Kay Hoog (Carl de Vogt) a essa poderosa organização secreta intitulada “As Aranhas”, que pretende apoderar-se das principais riquezas do mundo, para assim o manipular a seu belo prazer. Organização que se irá apresentar como uma espécie de embrião dessa outra organização bem mais famosa, criada pela pena da dupla Lang/Harbou, controlada pelo célebre “Dr. Mabuse”.

A luta entre Kay Hoog (Carl de Vogt) e o temível Lio Sha (Ressel Orla), líder da poderosa organização, irá conduzir-nos até ao mundo perdido dos Incas, passando pelas grandes Metrópoles (S. Francisco), terminando o duelo nas hoje famosas ilhas Falkland, devido ao conflito que opôs britânicos e argentinos.


Tal como será habitual na obra do cineasta (“Metropolis” e “A Mulher na Lua” são um bom exemplo), a figura feminina será um elemento determinante para o desenrolar vitorioso da luta do herói contra as forças do mal, tema tão em voga nos romances juvenis desses tempos passados, hoje em dia um pouco esquecidos.

A descoberta de “As Aranhas” / “Die Spinnen”de Fritz Lang (graças à edição em DVD), oferece-nos uma verdadeira iniciação ao universo do cineasta, nesse período do Mudo, em que o cinema arrastava multidões para o interior das salas de espectáculo em busca dessas emoções fortes que só a Sétima Arte podia proporcionar.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Carl Dreyer - “A Paixão de Joana D’Arc” / “La Passion de Jeanne D’Arc”


Carl Dreyer – "A Paixão de Joana D'Arc" / "La Passion de Jeanne D'Arc"
(FRANÇA – 1928) - (110 min – P/B  - Mudo)
Falconetti, Eugéne Silvain, André Berlly, Maurice Schultz.

A história de Joana D’Arc já foi por diversas vezes retratada no cinema, ao longo dos anos, mas será a visão que nos ofereceu o dinamarquês Carl Theodor Dreyer que fica para sempre registada como a obra-prima absoluta.


Maria Falconetti
Uma Actriz Inesquecível

O cinema de Carl Dreyer, na época, era já conhecido de todos, mas para o enorme esplendor da película contribuiu decididamente o rosto mais que expressivo de Falconetti, actriz oriunda da Comédie-Française (este seria o seu único filme), que aceitou rapar o cabelo e oferecer todo o seu talento ao protagonizar esta filha do povo, que um dia se viu traída pelos seus pares, ficando prisioneira dos ocupantes ingleses, que a irão julgar e torturar, para depois a condenarem a morrer na fogueira.


Carl Dreyer

A forma como Carl Dreyer nos oferece o rosto martirizado de Falconetti, com aquele olhar que ficou na História do Cinema e que faz arrepiar o mais comum dos mortais, fala por si. Aliás Jean-Luc Godard faz a sua homenagem a este filme quando, em “Vivre sa Vie” / “Viver a sua Vida”, Anna Karina vai ao cinema ver a película de Dreyer e descobrimos o campo-contracampo dos rostos de Karina e Falconetti, num dos momentos mais sublimes deste maravilhoso e inesquecível filme de Jean-Luc Godard.


Em “A Paixão de Joana D’Arc”, o cineasta dinamarquês usa o grande plano com uma força expressiva até então nunca vista e sentimos o próprio medo a invadir-nos o corpo, quando deparamos com o rosto dos carrascos sem alma que interrogam a prisioneira. Na verdade, ao (re)vermos “La Passion de Jeanne D’Arc”, sentimos o respirar da própria alma e, à medida que se aproxima o fim da jovem heroína, as lágrimas que lhe correm pelo rosto dizem mais que todas as palavras possíveis.


Carl Dreyer, a propósito deste filme, afirmou que o pretendido era mostrar que os heróis da História são também profundamente humanos.


A “Paixão de Joana D’Arc” de Carl Dreyer oferece-nos um verdadeiro rio de sentimentos, nesse rosto angélico e torturado dessa espantosa actriz chamada Marie Falconetti.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Alfred Hitchcock – “A Mulher do Lavrador” / “The Farmer’s Wife”

Alfred Hitchcock – "A Mulher do Lavrador" / "The Farmer's Wife"
(ING – 1928) – (94 min. / Mudo)
Lillian Hall-Davis, James Thomas, Maud Gill, Gordeon Harker.



O período mudo de Alfred Hitchcock é um perfeito desconhecido da maioria dos cinéfilos, já que este “género cinematográfico”, que vigorou durante cerca de trinta anos até ao nascimento do sonoro com o célebre “Cantor de Jazz” / “Jazz Singer”, possui no seu interior a construção da linguagem cinematográfica, essa mesma linguagem que ainda hoje vigora na Sétima Arte e será olhando o passado que compreendemos o presente. Alfred Hitchcock foi o primeiro cineasta cujo nome foi fixado pelo público, numa época em que só as estrelas tinham direito a permanecer na memória dos espectadores.


Ao olharmos para o período mudo de Alfred Hitchcock, encontramos os mais diversos géneros, incluindo filmes/encomenda, alguns até renegados pelo próprio cineasta como sucedeu com a sua obra de estreia “The Pleasure Garden”, mas também é possível encontrar um género pouco habitual no seu cinema, a comédia, embora o cineasta tenha feito duas obras perfeitas no interior deste género cinematográfico, “Ladrão de Casaca” / “To Catch a Thief” e “O Terceiro Tiro” / The Trouble With Harry”.


Com “The Farmer’s Wife” / “A Mulher do Lavrador”, Alfred Hitchcock invade esse território, trocando de início as voltas ao espectador, entrando só depois no género em si. Por outro lado este filme, ao contrário de “The Ring” que possuía argumento do próprio cineasta, parte de uma peça teatral, tendo o realizador afirmado “é verdade que o facto de filmar uma peça teatral estimulou o meu desejo de expressão por meios propriamente cinematográficos” e todos sabemos como ele estruturava os seus filmes até ao mais pequeno pormenor, usando as “storyboards” de forma mais que perfeita ao longo da sua carreira.


Ao entrarmos pela porta deste filme, no ano de 1928, deparamos de imediato com a tragédia já que a mulher do protagonista acaba de morrer e o drama parece instalado, mas Alfred Hitchcock troca-nos as voltas e quando nos informa que o último desejo dela foi que o marido se voltasse a casar, pedindo à jovem criada para tomar conta dele, damos um passo em frente e saímos deste género para entrarmos pela porta grande da comédia.
Minta (a bela Lillian Hall-Davis) decide ajudar o patrão na busca de uma nova esposa e, de imediato, ambos fazem uma lista partindo das senhoras presentes no velório. Poderá parecer um pouco macabro, mas é pura comédia, porque as três eleitas irão recusar os diversos pedidos. Como número par é sempre sinónimo de sorte nesta área, Minta decide acrescentar o nome da rapariga que trabalha no pub da aldeia.


Iremos assim assistir à transformação do austero lavrador num verdadeiro pinga-amor, mas com muito pouco jeito na matéria, já que sempre que as suas propostas são recusadas perde a cabeça terminando qualquer tipo de relação possível; se a primeira lhe diz que tem mais que fazer, já a segunda confessa preferir viver só a estar com ele, para a terceira lhe chamar velho. Ao longo destas declarações, vamos assistir ao desenvolvimento de diversos “gags” que irão obrigar o mais empedernido dos espectadores a rir. Samuel Sweetland (James Thomas) irá passar a ser o tema preferido das conversas na aldeia e quando chega, num dia de caça à raposa, ao povoado e se dirige ao Pub numa tentativa desesperada de conquistar a empregada, que sempre gostou de conversar com ele, apercebe-se que vive nas bocas do mundo: no “Garden-party” eram as bocas femininas que troçavam dele; no Pub são os seus amigos que, incrédulos com a situação, se riem dele.


Voltando um pouco atrás, convém referir que toda a sequência da “Garden-party” é perfeita, atingindo a comédia o ponto mais alto com o seu empregado Ash (Gordon Harker), que faz de mordomo improvisado, a ter uma interpretação fabulosa.
Como não poderia deixar de ser, Samuel Sweetland é novamente derrotado pelas mulheres e ao regressar a casa desiste de procurar a mulher (im)perfeita e sentado olha a cadeira onde a sua esposa conversava com ele e vai vendo as respectivas mulheres que recusaram o seu pedido de casamento, até que encontra a imagem da sua fiel criada Minta ali sentada, com o seu olhar cândido e belo a conversar com ele.


O elenco do filme e a equipa técnica com o jovem Alfred Hitchcock 
à frente do lado direito, junto da estrela da película, a bela Lillian Hall-Davies

Ao longo do filme, Alfred Hitchcock vai-nos oferecendo os sentimentos de Minta pelo patrão através da forma carinhosa como ela o trata e também através do seu olhar cândido, até que Samuel Sweetland se apercebe que o novo amor da sua vida sempre esteve ao seu lado, no interior daquela casa. 
Descobrir esta obra do cineasta é uma verdadeira surpresa, porque nela encontramos uma excelente adaptação cinematográfica de uma comédia teatral, sendo todas as cenas de exteriores filmadas de forma perfeita, onde o naturalismo respira, seja nas incursões a cavalo de Samuel Sweetland ou na sequência da caça à raposa.
Chegou o momento de começarmos a olhar o cinema mudo não como simples curiosidade, mas sim como as verdadeiras fundações desse espantoso edifício que é a Sétima Arte.


terça-feira, 24 de maio de 2016

D. W. Griffith - “Intolerância” / “Intolerance”


D. W. Griffith – "Intolerância" / "Intolerance"
(EUA – 1916) – (197 min. – Mudo - P/B)
Mae Marsh, Robert Harron, Howard Gaye, Olga Grey, Margery Wilson, Rugene Pallette, Alfie Paget, Seena Owen.


Como sabemos David Wark Griffith foi o criador da linguagem cinematografia e, após o sucesso de “O Nascimento de Uma Nação” / “Birth of a Nation”, o seu nome tornou-se incontornável. No entanto foram muitas as acusações de racismo que caíram sobre a película e o seu autor, chegando a originar diversos tumultos junto às portas dos cinemas que exibiam o filme.


Por estas mesmas razões o cineasta irá escrever um panfleto sobre os valores morais da nação americana e durante três longos anos prepara uma obra épica, na qual pretendia retratar a intolerância ao longo da história da humanidade, situando a película em quatro épocas distintas e nas quais a intolerância falava mais alto. E nada melhor do que convocar a vida de Jesus Cristo para demonstrar isso mesmo: tema por demais universal e bem conhecido de todos.
O quadro seguinte irá situar-se no reino da Babilónia, em que nos irá narrar o amor do rei Belshazzar e da sua amada, que só irão encontrar a via do suicídio para não morrerem reféns das mãos do sanguinário Círio da Pérsia.


A terceira história de “Intolerância” situa-se em território francês, mais concretamente no reinado de Carlos IX, que irá levar a cabo um massacre terrível sobre todos aqueles que optaram pelo Protestantismo, tendo mais uma vez o amor como pano de fundo, um tema sempre grato ao cineasta. Iremos assim conhecer a vida de dois jovens, ele católico e ela protestante, cujo amor que nutrem um pelo outro ultrapassara definitivamente as poderosas barreiras religiosas da época, terminando também eles por não escaparem ao terror então instituído, em nome de Deus.


Já o último segmento da película aborda a época contemporânea, indo recair o tema nesse falso culpado, tantas vezes retratado ao longo da história do cinema. Embora neste capítulo do filme, em que mais uma vez o amor surge como elemento de toda a acção, o jovem injustamente acusado termine por ser salvo pela sua amada, no último minuto, quando se encontrava às portas da morte.


Mas ao contrário do que esperava o público da época, o cineasta decidiu elaborar uma poderosa montagem, entre as quatro histórias narradas, deixando em suspenso um segmento, para passar a outro, ao mesmo tempo que mantinha o “suspense” sobre o que se iria passar, o que motivou uma certa perplexidade entre os espectadores, que não se encontravam preparados para este tipo de planificação e montagem, tão brilhantemente elaborada.


D.W. Griffith durante as filmagens 

Os dois milhões de dollars investidos por David Wark Griffith no filme saldaram-se por um resultado profundamente negativo, conduzindo-o à bancarrota. E mesmo quando o cineasta decidiu fazer a partir da metragem de “Intolerância” duas novas películas, “The Fall of Babylon” e “The Mother and The Law”, no intuito de recuperar alguma da verba despendida, os resultados foram bastante magros.


Contando com um elenco soberbo, ao lado de mais de três mil figurantes, um guarda-roupa esplendoroso e uns cenários até aí nunca vistos, “Intolerância” que usa a montagem como trave mestra de toda a acção, nunca conseguiu obter o aplauso do público da época, embora nos dias de hoje seja considerado por todos como a obra-prima do cineasta. Recorde-se que os cenários do filme permaneceram durante largos anos no Estúdio, porque nem havia dinheiro para os mandar destruir, terminando por servirem de palco das chamas no filme do produtor David O’Selznick, “E Tudo o Vento Levou”, na famosa e memorável sequência do incêndio de Atlanta.
“Intolerância”, com as suas poderosas três horas, revela-se hoje em dia um verdadeiro monumento à Sétima Arte nascido desse génio chamado David Wark Griffith, a quem tudo devemos.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Fritz Lang – “Metropolis”


Fritz Lang - "Metropolis"
(ALE. 1927) - (147 min. - Mudo - P/B)
Brigitte Helm, Alfred Abel, Gustav Frohlich.

Em 10 de Janeiro de 1927, o “Ufa-Palast am Zoo”, em Berlim, abriu as portas para exibir “Metropolis”, de Fritz Lang, uma das mais importantes obras do cinema mudo alemão. Mas os resultados “comerciais” não corresponderam à qualidade da película. Falou-se que a Ufa perdeu cerca de três milhões de marcos.


A primeira medida, tomada pela casa produtora, foi diminuir a duração do filme, que inicialmente era de 135 minutos, a fim de melhorar a exploração da película. Com o passar dos anos, acabaram por surgir diversas cópias com diferentes montagens e inevitavelmente metragem/duração diversas. Em 2001 surgiu uma versão restaurada com a duração de 147 minutos.


Giorgio Moroder, produtor discográfico e responsável de diversas bandas sonoras de enorme sucesso na História do Cinema, decidiu sonorizar “Metropolis”, depois de ter ganho a luta pelos direitos, com David Bowie, criando uma versão habitada pelo rock. O trabalho de sonorização não é inédito, sendo um dos mais célebres “Napoleão” de Abel Gance, com música de Carmine Coppola, pai do célebre Francis Ford Coppola, para quem também escreveu diversas partituras.


As películas do tempo do mudo eram exibidas na época sempre com acompanhamento ao piano a maior parte das vezes, embora também pudesse haver acompanhamento de orquestra com as respectivas partituras. Já nos dias de hoje por vezes é criada/tocada uma nova versão musical, como fez Moroder e os aplausos são muitas vezes escassos e a polémica enorme, basta recordar a exibição do "Nosferatu" de Murnau, na Culturgeste para estar tudo dito, na época o cineasta João César Monteiro interrompeu a sessão por considerar que se estava a assassinar uma obra-prima devido à música que estava a ser tocada. Na nossa opinião estas sonorizações deverão usar sempre as partituras originais ou então tocadas por especialistas na matéria.


Mas voltemos um pouco atrás, numa viagem no tempo, até Viena no ano de 1890 e ao nascimento de Fritz Lang. Este filho de arquitectos estudou pintura e desenho em Viena, Munique e Paris e o seu interesse pelo cinema começou cedo, acabando por surgir na Sétima Arte como argumentista de policiais produzidos e realizados por Joe May, uma das principais sementes da indústria cinematográfica alemã.
A sua actividade começou por ser notada e Erich Pommer, responsável da DECLA e futuro patrão da UFA, recrutou-o como argumentista. Foi neste ofício que conheceu Thea Von Harbor, sua mulher e colaboradora (argumentista de inúmeros filmes) até 1933.


Pouco tempo depois de ter iniciado o seu trabalho com Erich Pommer, passa a realizador e o sucesso não se faz esperar. “A Morte Cansada”, um dos filmes que Alfred Hitchcock mais admirava, “Dr. Mabuse” e “Os Nibelungos”, tornaram Fritz Lang num dos nomes mais importantes do Cinema Mundial.


Depois de visitar New York em 1925, a impressão dos arranha-céus cristalizou-se no projecto “Metropolis”, a maior produção de sempre da UFA. Na época Fritz Lang pretendeu dar “sonoridade” ao filme, conjugando o funcionamento mecânico da cidade subterrânea com o das imagens e a geometria das formas, obtendo resultados espantosos onde o expressionismo é bem patente.


Preparando uma sequência de "Metropolis", com o célebre robot.

A versão de Giorgio Moroder respeitou as regras da tintagem existentes na época do cinema mudo e no que diz respeito à montagem introduziu imagens até então inéditas nas cópias de diversas cinematecas, ao mesmo tempo que retirava a maior parte dos entretítulos, sendo a história narrada através da banda sonora, na qual pontificava a voz do conhecido Freddie Mercury.



Mas se querem mesmo conhecer a versão de “Metropolis” criada por esse génio chamado Fritz Lang, ela encontra-se disponível em DVD, numa magnífica cópia restaurada, que nos oferece um dos filmes mais surpreendentes de toda a História do Cinema, porque na verdade “Metropolis” é uma das mais belas pérolas da Sétima Arte!


"Metropolis!