segunda-feira, 4 de abril de 2016

Nicholas Ray - “Matar ou não Matar” / “In a Lonely Place”


Nicholas Ray - "Matar ou Não Matar" / "In a Lonely Place"
(EUA 1950) – (94 min. - P/B)
Humphrey Bogart, Gloria Grahame, Frank Lovejoy, Carl Benton Reid.


A nossa memória do cinema muitas vezes encontra-se ligada a imagens descobertas no pequeno écran e dizemos isso porque foi precisamente o sucedido há mais de vinte anos, com “In a Lonely Place” / “Matar ou Não Matar” de Nicholas Ray, descoberto numa tarde de Verão. Nessa época Nick já era muito mais do que o cineasta de “Fúria de Viver” ou de “Johnny Guitar”.
Produzido pela pequena produtora de Humphrey Bogart, “Santana Productions”, esta película situa-se inevitavelmente na fronteira do “film noir”, navegando as suas personagens no mundo da Sétima Arte, Dixon Steele (Bogart) é um argumentista à beira do abismo, violento e angustiado com o mundo que o rodeia: realizadores, produtores, agentes, actores.


O argumento de Andrew Solt, baseado numa novela de Dorothy Hughes, apresenta-nos uma Hollywood “cheia de tubarões”, em que a última palavra vem de cima. Mas como dizíamos, Dixon Steele um homem amargurado, reticente em aceitar a feitura de um argumento de acordo com as “regras da casa”, vê-se confrontado com uma hipótese de resgatar o seu nome do limbo em que caiu, mas a obra que lhe é oferecida parece-lhe tão má, que convida uma empregada do bar em que se encontra para lhe contar a história, já que ela tinha lido o livro e assim ele não iria perder tempo com algo em que não acreditava. A tragédia nasce então porque a rapariga, após o seu trabalho de leitura, aparece morta caindo de imediato as suspeitas sobre o violento Dixon Steele.


Incrédulo e cínico perante os acontecimentos (Bogart no seu melhor), Dixon acaba por ser ilibado por uma vizinha (Gloria Grahame) que o viu em casa, após a saída da rapariga.
Nasce então uma profunda paixão entre Laurel Gray (Gloria Grahame) e Dixon, que inicia o seu trabalho no argumento refazendo a história original, ao mesmo tempo que o seu comportamento violento desaparece, vivendo apenas para o seu trabalho e para a mulher que ama perdidamente.
No entanto a polícia continua a suspeitar dele e o cerco que lhe monta irá fazer renascer o seu lado violento, desconfiado e ciumento, perturbando de forma decisiva o amor da sua vida.


Nicholas Ray consegue, nesta película, oferecer-nos um dos filmes mais perfeitos do género, mas todo o ambiente criado de uma cínica Hollywood faz um pouco de futurologia em relação à carreira de Nick Ray. Por outro lado Gloria Grahame, que roubou o papel a Ginger Rodgers (1), oferece-nos momentos de antologia do mais profundo erotismo (2), apetecendo até dizer obrigado ao código Hays, que obrigou os cineastas a contornar a censura, como tão bem fez Hitchcock em “Notorius” / “Difamação” / “Notorious” e a célebre questão do tempo de duração de um beijo.


“In a Lonely Place”, essa obra-prima do Cinema, poderia também chamar-se “In a Lovely Place”, graças à interpretação felina de Glória Grahame e às mudanças de personalidade de Humphrey Bogart em combate constante consigo mesmo.
Por outro lado, a genial fotografia a preto e branco joga de forma determinante com a luminosidade, repare-se na sequência em que Dixon (Bogart) reconstitui o assassinato para o casal amigo, como se tivesse vivido o acontecimento, embora seja a sua faceta de argumentista que torna tão excitante o seu relato. Para já não falarmos na soberba montagem do filme e na inesquecível banda sonora.


A escrita vai longa mas não podemos deixar de referir dois aspectos decididamente importantes nesta obra-prima do cinema. Nicholas Ray e Gloria Grahame (3) eram casados no início da rodagem e a meio das filmagens decidiram separar-se, tendo até Nick pedido ao Estúdio para lhe arranjar uma casa próxima do “set”, porque necessitava de trabalhar à noite, omitindo desta forma a sua situação matrimonial. E nunca Gloria Grahame foi filmada com tanto amor, ao ponto de a película ter dois finais, o inicialmente previsto em que ela morre e aquele, por fim optado, em que fica viva por fora, morta por dentro, tal como Humphrey Bogart, numa das suas mais extraordinárias interpretações.


Gloria Grahame, Humphrey Bogart e Nicholas Ray durante a rodagem do filme

"Matar ou Não Matar" /“In a Lonely Place” é uma das muitas pérolas cinematográficas oferecidas por Nicholas Ray à Sétima Arte, uma descoberta que recomendamos.

(1) - Ginger Rodgers nunca gostou muito dos musicais com Fred Astaire e lutou durante toda uma vida para conquistar papéis dramáticos.

(2) - A troca de cigarros no bar, junto ao piano, entre outros planos, para além do fabuloso guarda-roupa de Mrs. Grahame.

(3) – Muitos anos depois Gloria Grahame foi casada com o filho de Nicholas Ray.

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