sábado, 2 de abril de 2016

“John Carpenter: Memórias de um Homem bem Visível”


"John Carpenter: Memórias de um Homem Bem Visível"
Textos de: Luc Lagier, Jean-Baptiste Thoret, Kent Jones, Julien Husson, Dave Kehr, Railford Guins, Omayra Zaragoza Cruz, Luís Miguel Oliveira.
Cinemateca Portuguesa,  Pag. 253

Quando passam seis anos sobre a estreia da película “O Hospício” / “The Ward” de John Carpenter, relembramos este genial cineasta a propósito da edição de um magnifico livro sobre ele e a sua obra intitulado “John Carpenter. Memórias de um Homem bem Visível”, um catálogo da Cinemateca Portuguesa organizado por Luís Miguel Oliveira, que também assina um dos textos que compõem o livro.

A abrir temos logo uma longa entrevista com o realizador, levada a cabo por Luc Lagier e Jean-Baptiste Thoret, que nos oferecem uma viagem na primeira pessoa pela obra do Mestre do Terror/Suspense, recorde-se que a entrevista foi realizada aquando da estreia de “Escape From L.A.”, terminando com esta película uma espécie de Carpenter on Carpenter, em que ficamos a saber muito mais sobre o cineasta e a sua obra, incluindo a forma diferente como a crítica e o autor olham muitas vezes os filmes.

"Halloween" / "O Regresso do Mal" 

O texto seguinte, da autoria do conhecido crítico Kent Jones da “Film Comment”, possivelmente o melhor texto do catálogo, coloca o dedo na ferida sobre os tempos em que vivemos, em que a ditadura da moda leva a crítica cinematográfica a esquecer-se dos verdadeiros autores e a fazer o elogio de obras menores, que se transformam rapidamente em sucesso, levando os seus responsáveis até a um falso Olimpo, onde mais tarde irão ser destronados por outros da mesma espécie, enquanto os “mavericks” do cinema permanecem bem escondidos e esquecidos do grande público.

Karen Allen e Jeff Bridges no comovente 
"Starman - O Homem das Estrelas"

“John Carpenter e os Efeitos Especiais”, da autoria de Luc Legier, aborda a questão do visível na obra de Carpenter a partir desse momento charneira em que ele nos oferece “The Thing”, o “remake” de Hawks/Niby, onde os efeitos especiais tomam conta do filme, numa estratégia que se revelou um fracasso de bilheteira, mas que com a passagem do tempo foi conquistando cada vez mais adeptos, tornando-se num “cult-movie” e assistindo-se hoje em dia à sua revalorização.
Dave Kehr, em “Carpenter e Hawks”, oferece-nos um aliciante trabalho sobre a simbiose do universo de John Carpenter com o de Howard Hawks (o autor que John Carpenter mais admira), partindo para este jogo de referências através dos “duelos” de “Assalto à 13ª Esquadra” e “Rio Bravo”; o inevitável “remake” e original de “The Thing”, que tantos amargos de boca ofereceu ao cineasta, encerrando o confronto/referência com “John Carpenter’s Vampires” e “Hatari”.

Chevy Chase em "Memórias de um Homem Invisível"

“Ghost of John”, da responsabilidade de Jean-Baptiste Thoret, é outro texto aliciante que se interroga sobre a conhecida teoria da política de autor no interior da obra de John Carpenter, tendo como referência essa obra para cinema intitulada “Fantasmas de Marte”, que deixou muitos em estado de choque aquando da estreia, pelas opções do cineasta, colando-se “a uma estética MTV” que o levaria a uma encruzilhada.

Snake Plissken, a inesquecível personagem criada por Kurt Russell 
em "Nova Iorque 1997" e "Fuga de Los Angeles"

Já Luís Miguel Oliveira, no seu texto “Por Onde Anda John Carpenter”, oferece-nos o seu olhar sobre os trabalhos realizados pelo cineasta para a televisão por cabo norte-americana: “John Carpenter’s Cigarette Burns” e “Pro-Life”, por sinal muito pouco vistos, interrogando-se também ele sobre o possível regresso do cineasta ao convívio do grande público e ao seio desse cinema de terror de que foi um dos maiores expoentes.
O volume oferece-nos ainda os textos “Da Frontalidade”, de Julien Husson, “A Repetição como Nostalgia Criativa nos Filmes de John Carpenter”, assinado por Raiford Guins e Omayra Zaragoza Cruz, terminando com “Os Prazeres Culpados de John Carpenter” da responsabilidade do próprio cineasta, que nos fala de alguns filmes que gosta de ver, pelo simples facto de serem tão maus que terminam muitas vezes por cativar as audiências pela sua temática "trash", reaccionária ou sem qualquer sopro de cinema.

Kim Cattrall e Kurt Russell em 
"As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim"

Os textos de John Carpenter são de um humor corrosivo, a que ninguém escapa: John Wayne e os seus Boinas Verdes a ganharem a guerra do Vietname, passando pelos filmes de Roger Corman, produzidos no espaço de uma semana, até chegar ao “Invasion USA” com os Estados Unidos a serem invadidos pelos russos, de que foi feito uma espécie de “remake” com o Chuck Norris no protagonista.

"John Carpenter's Vampires"

A terminar deixamos aqui um excerto do que escreve o célebre crítico de cinema Kent Jones sobre a obra deste incontornável cineasta chamado John Carpenter «A América não tem assim tantos realizadores que lhe permitam dar-se ao luxo de pôr John Carpenter de lado. (…) Examinando a sua obra com atenção, percebe-se que tem uma das mais consistentes e coerentes obras do cinema moderno, no qual os triunfos – os dois sucessos dos primórdios, The Fog, Escape from New York, Prince of Darkness, They Live e In the Mouth of Madness – superam de longe os filmes menores ou problemáticos. Nunca fez nada que envergonhasse. Nunca fez um filme desonesto ou preguiçoso.


(…) Diria que a marginalização de Carpenter se deve a algo mais triste e menos difícil de identificar, sobre o qual não tem controlo. Quer gostemos, quer não, regemo-nos por normas e paradigmas de realização, enquanto as mesmas mudam como placas tectónicas provocando-nos mudanças inconscientes em relação à forma de ver filmes, e à forma como vemos uns em relação a outro. E sem sabermos, muitos de nós fazemos algo que frequentemente censuramos noutras pessoas: cedências às modas. Não há dúvida de que as modas no cinema Americano mudaram a milhares de quilómetros de John Carpenter. Ele é um homem do analógico num mundo digital, que rege o próprio trabalho de acordo com critérios de valor a que já ninguém presta atenção.
Carpenter mantém-se totalmente sozinho, enquanto último realizador de género na América. (…) Outro solitário Americano, a sair de moda mas cuidadosamente guardando a sua integridade como um velho tesouro.»

A genial película "Eles Vivem" / "They Live"

“John Carpenter: Memórias de um Homem bem Visível” editado pela Cinemateca Portuguesa, revela-se um excelente livro que nos convida a (re)descobrir a obra cinematográfica de um dos mais originais e brilhantes cineastas norte-americanos, cujo marca de Autor é bem patente nos seus filmes, que importa não deixar esquecer, na voragem deste século XXI, que insiste em perder a memória.

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