quarta-feira, 20 de abril de 2016

Frédéric Strauss - “Conversas com Pedro Almodóvar” / "Conversations avec Pedro Almodóvar"



Frédéric Strauss
"Conversas com Pedro Almodóvar"
90 Graus Editora, Pag. 287



Hoje em dia, o nome de Pedro Almodóvar é conhecido do mais comum espectador de Cinema. Ele é, sem dúvida alguma, o cineasta espanhol em actividade mais famoso internacionalmente, e dizemos vivo, porque há aquele nome incontornável chamado Luís Buñuel, esse sim, definitivamente o “enfant terrible” da cinematografia espanhola, recorde-se o caso de “Viridiana”, feito em Espanha após um longo exílio e ainda durante a vigência de Francisco Franco, que contornou a censura míope, e depois foi exibido no Festival de Cannes em representação oficial da Espanha para grande escândalo das autoridades espanholas que, ao verem a película, já com a graduação apropriada nas lentes, caíram positivamente da cadeira abaixo e Buñuel lá teve que se exilar novamente. Mas o que nos trás aqui em é Pedro Almodóvar, porquê falar em Franco?


Pedro Almodóvar e o elenco de "Saltos Altos" / "Tacones Lejanos"

Simplesmente porque o cineasta espanhol nunca falou nele nos seus filmes e na conversa com Frédéric Strauss ele refere que ignorando o ditador é uma forma de combater o período franquista e os elementos negativos transportados pelo regime. As “Conversas com Pedro Almodóvar” / “Conversations avec Pedro Almodóvar” foram publicadas originalmente nas Edições dos “Cahiers du Cinema”, tendo sido editadas em Portugal através da “90 Graus Editora”, numa edição cuidada que recomendamos.

O livro de Frédéric Strauss partiu de entrevistas que foram feitas ao longo dos anos e publicadas cronologicamente, sendo acompanhadas por textos do crítico de cinema, do próprio cineasta e do seu irmão, habitual produtor dos seus filmes, para além de uma filmografia final com resumo dos argumentos das respectivas películas.


 Penélope Cruz

Ao longo das conversas vamos descobrindo a história de Pedro Almodóvar, o ex-funcionário dos correios, desde a sua descoberta do Super-8 que ainda hoje prefere ao vídeo, exibindo em bares e galerias os filmes realizados, chegando a dar voz às diversas personagens durante a projecção dos filmes oferecidos à movida de Barcelona, até ao nascimento de “Pepi, Luci, Bom e Outras Raparigas Como a Minha Mãe” / “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón”, a película “oficial” do nascimento do cineasta, feito com dinheiro dos amigos, passando depois pelo milionário mecenas que financiou o seu segundo filme, porque pretendia oferecer um papel à mulher por quem estava apaixonado, assim nascendo o famoso “Negros Hábitos” / “Entre Tiniebas”.


"Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos"
"Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios"

À pergunta: “Que conselhos daria hoje a alguém que queira tornar-se cineasta?”, Pedro Almodovar responde: “Em primeiro lugar, é preciso que seja simpático, porque tem que pedir favores e conseguir que vinte pessoas aceitem trabalhar gratuitamente para poder filmar uma primeira curta-metragem. Depois, tem que convencer os que vão pagar o negativo. Tem que ser simpático, optimista, e se for «sexy» será melhor ainda. Para realizar uma segunda curta-metragem tem que ser persistente, cínico e atrevido, e frequentar um ginásio, porque entretanto envelheceu. Tem que ser maquiavélico, porque da segunda vez tem que enganar a pessoa que da primeira vez seduziu.”


O genial "Fala com Ela" / "Hable con Ella"

Depois foi a descoberta internacional do seu cinema, os êxitos e o reconhecimento com o Oscar do Melhor Argumento para essa genial película intitulada “Fala Com Ela” / “Hable con Ella”, mas pelo caminho também fica o azedume de o júri de Cannes, presidido por David Cronenberg, lhe ter recusado a Palma de Ouro porque o cineasta canadiano o via como um competidor do seu cinema de autor. Na realidade, segundo os padrões “institucionalizados” pelos Cahiers du Cinema para a definição de Autor, o cinema de Pedro Almodovar é Cinema de Autor, no verdadeiro sentido do termo, todos nós reconhecemos de imediato um filme de Pedro Almodovar.


Ficamos também a saber do cuidado posto por Pedro Almodovar na feitura dos cartazes dos filmes e do seu desgosto quando os distribuidores estrangeiros os alteram. Descobrimos que ele gosta de ser o autor dos dossiers de imprensa porque, melhor do que ninguém, ele poderá falar/escrever acerca dos filmes que realiza. A sua relação com as actrizes dos seus filmes está bem documentada nestas conversas, incluindo os “cameos” da sua mãe nas suas películas, para além da perda que foi a partida de António Banderas para Hollywood, mas que em 2011 regressou à “casa” do cineasta que o deu a conhecer ao mundo do cinema para surgir em”A Pele Onde eu Vivo” / “La Piel que Habito” e em 2013 em “Os Amantes Passageiros” / “Los Amantes Pasajeros”.

“Conversas com Pedro Almodovar” / “Conversations avec Pedro Almodóvar” de Frédéric Strauss é um rio de palavras, que nos cativa a alma e nos oferece um retrato fiel do cineasta que recusou Hollywood, porque o seu Cinema seria condicionado aos padrões da Indústria e dos Estúdios, mantendo-se assim fiel ao seu estilo, para prazer e paixão de todos os amantes da Sétima Arte.

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