quarta-feira, 6 de abril de 2016

Nagisa Oshima - “Feliz Natal Mr. Lawrence” / “Merry Christmas Mr. Lawrence”


Nagisa Oshima – "Feliz Natal Mr. Lawrence" / "Merry Christmas Mr. Lawrence"
(JAPÃO/ING – 1983) – (124 min. / Cor)
David Bowie, Tom Conti, Ryuichi Sakamoto, Takeshi Kitano, Jack Thompson, James Malcolm.



Nagisa Oshima revelou-se um dos mais importantes cineastas da nova vaga surgida no Japão nos anos sessenta do século passado, mas seria através de um convite do produtor francês Anatole Dauman que ele iria surpreender o mundo, com o seu filme “O Império dos Sentidos” / “Ai no korida”, cuja tradução literal é a corrida do amor. Mas muito antes disso já ele possuía uma obra extensa, de uma qualidade muito acima da média.


Nagisa Oshima

No início de sessenta começou a estagiar, aprendendo o seu ofício, na produtora Shoshiku, mas em breve irá perceber as regras do jogo e em 1962 irá fundar a sua própria produtora, a Sozosha, para assim poder usufruir da máxima criatividade, fugindo ao constrangimento que as grandes produtoras impunham aos seus realizadores. Deste muito cedo foi considerado um jovem contestatário e os seus filmes começaram a furar as fronteiras e a ter visibilidade a nível internacional. Nos anos setenta os seus filmes começam a chegar a Portugal graças aos bons ofícios da distribuidora Animatógrafo, então muito activa, e foi assim que se descobriram obras como “Cerimónia Solene” / “Gishiki”, “O Enforcamento” / “Koskikei”, “Diário de um Ladrão” / “Shinjuku dorobo nikki”, a partir do romance de Jean Genet, assim como esse belo filme intitulado “o Menino” / “Shonen”, onde a denúncia social era um dos expoentes máximos do seu cinema inconformista. Recorde-se que nesta última película, baseada em acontecimentos ocorridos no Japão, iremos assistir à forma como uns pais exploram os concidadãos, usando os filhos para simular acidentes, para depois extorquirem dinheiro às suas vítimas.



Após o sucesso internacional de “O Império dos Sentidos” (um olhar sobre os denominados "pink-movies") e “O Império da Paixão” / Ai no borei”, o cineasta avança com uma nova produção internacional com o seu “Feliz Natal Mr. Lawrence” / “Merry Christmas Mr. Lawrence”, juntando no elenco duas estrelas da musica pop: David Bowie e Ryuichi Sakamoto (ex-membro da Yellow Magic Orchestra e a iniciar então  uma carreira a solo com bastante sucesso), ao mesmo tempo que convocava para o elenco o então desconhecido, entre nós, Takeshi Kitano (antes desse fatal acidente que lhe irá paralisar parte do rosto, sendo já na época uma figura bem conhecida do público japonês).


“Feliz Natal Mr. Lawrence” decorre quase todo num campo de concentração japonês na ilha de Java, onde iremos conhecer o coronel Lawrence (Tom Conti), que para além de ser a mais alta patente presa, serve também de elemento de ligação porque compreende o japonês.
Neste campo, onde os castigos corporais fazem parte do dia-a-dia e onde o Capitão Hicksley (Jack Thompson), apesar de prisioneiro, mantém a disciplina e o moral dos seus homens, perante a agressividade constante do sargento Hara (Takeshi Kitano), a esperança de sobrevivência permanece bem viva no coração de todos, já que o decorrer da guerra começa a pender para as forças aliadas.
Mas um dia este campo de concentração irá receber o Major Jack Celliers (David Bowie), que anteriormente foi julgado e condenado à morte, sendo colocado perante um fuzilamento fictício, devido aos bons ofícios do capitão Yonai (Ryuichi Sakamoto), que no tribunal admirou a forma como ele se defendeu dos juízes militares.


Yonai (Ryuichi Sakamoto)  vê nele um homem com princípios e deseja que ele passe a ser o responsável pela disciplina dos prisioneiros no campo, perante a opinião contrária de Hicksley. Mas Celliers (David Bowie), para além de ser um homem amargurado pela memória do seu irmão mais novo, é também um rebelde e como tal um verdadeiro “out-sider”, que não aceita os princípios feudais em que a ideologia militar de Yonai habita, sempre fascinado pelo passado dos Samurais. Desta forma a convivência entre os dois homens será difícil, mas o fascínio que Yonai sente pela figura de Celliers irá levá-lo a territórios até então nunca imaginados, levando a que esse mesmo fascínio caía em territórios mais que proibidos. E nesse dia fatídico em que Celliers, depois de recusar cumprir uma ordem de Yonai, decide avançar para ele e, perante os soldados japoneses que ameaçam fuzilar ali mesmo os prisioneiros, oferece-lhe dois beijos no rosto levando-o quase a desmaiar perante essa afronta, tão desejada secretamente.


Como castigo Jack Celliers será enterrado ficando apenas com a cabeça de fora, esperando a chegada da morte e, nessa mesma noite, o capitão Yonai irá ao lugar onde ele se encontra, já com a morte a chegar e corta uma madeixa do seu cabelo, para recordar o homem que tanto o fascinava.
Com a chegada do fim da guerra, iremos encontrar o coronel Lawrence a visitar o sargento Hara (Takeshi Kitano), que espera pela hora do seu fuzilamento, e o encontro entre carcereiro e prisioneiro surge como essa bela recordação da véspera de Natal em que Hara, bêbado, decide perdoar a Lawrence o castigo que decidira aplicar e numa última saudação, na mais bela despedida, Hara chama por Lawrence e deseja-lhe Merry Christmas Mr. Lawrence, porque apesar de todos os antagonismos fruto da guerra aqueles homens ainda possuíam uma alma que ansiava pela libertação, essa mesma libertação que o capitão Yonai deverá ter sentido, quando chegou a hora do seu fuzilamento, para então se juntar ao homem que tanto o fascinou.


Nagisa Oshima oferece-nos neste “Feliz Natal Mr. Lawrence” momentos únicos do seu cinema, pontuado pela música de Ryuichi Sakamoto, que funde a música tradicional japonesa com a música electrónica, por outro lado a direcção de actores é soberba e se David Bowie, não propriamente um estreante nestas andanças, cumpre em pleno, oferecendo mais uma vez todas as suas potencialidades como actor de cinema, ou não fosse ele o perfeito “homem-camaleão”, já Ryuichi Sakamoto demonstra aqui um saber que certamente seria desconhecido de muitos. Basta ver a forma como age nos momentos de maior tensão, com os seus gritos autoritários, sempre com a sua personagem à beira da perdição, para depois se refugiar na memória ancestral de um Japão em tempos Feudal, onde os Samurais tinham códigos de honra que ultrapassavam a visão dos ocidentais: repare-se no soldado japonês que comete hara-kiri no campo de concentração.


“Merry Christmas Mr. Lawrence”, ao ser revisto, permanece um filme que não deixa ninguém indiferente, revelando desta forma todas as suas potencialidades artísticas como obra cinematográfica, ao mesmo tempo que nos oferece a oportunidade de recordar esse génio chamado David Bowie, mas também de desejar conhecer melhor a obra desse extraordinário cineasta japonês chamado Nagisa Oshima.

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