sexta-feira, 29 de abril de 2016

David Leavitt – “Dança de Família” / “Family Dancing”


David Leavitt
"Dança de Família"
Teorema, Pag. 232

David Leavitt, ao contrário de Bret Easton Ellis e Tama Janowitz, foge das mundanidades como o diabo foge da cruz, é pouco visto em público, preferindo a intimidade do seu luxuoso apartamento, compartilhado com o também escritor Mark Mitchell, à corrida vertiginosa dos noctívagos.

Começou muito novo a escrever e passou pelos corredores de Yale. Os contos são o seu género máximo, embora seja o romance e a novela que lhe absorvem parte do tempo, de qualquer forma todos nos lembramos quando em Portugal surgiram de uma assentada “As Mil Luzes de Nova Iorque” / “Bright Lights, Big City” de Jay McInerney, e “ Menos Que Zero” / “Less Than Zero” de Bret Easton Ellis e esse soco no estômago intitulado “Dança de Família” / “Family Dancing” de David Leavitt... e dizemos soco no estômago porque, pela primeira vez, era editado com pompa e circunstância um livro cujo tema era a comunidade gay que então despontava em S. Francisco e na Big Apple, e as suas “short-stories” eram na verdade surpreendentes.


Este trio de escritores era visto então como os novos escritores norte-americanos célebres, jovens e ricos, saídos directamente das universidades e expoentes máximos dos então pouco conhecidos cursos de escrita criativa.

David Leavitt é um dos mais brilhantes escritores da sua geração, transportando nas suas short-stories toda a sensibilidade do mundo. “Dança de Família” / “Family Dancing”,  o seu primeiro livro editado pela Teorema em Portugal, a sua novela sobre Florença intitulado “Florence, A Delicate Case” e “The Man Who Knew to Much” são os nossos eleitos, porque eles podem ser lidos e relidos vezes sem conta. Curiosamente, em todos os debates e conferências em que participa, o escritor defende sempre a comunidade a que pertence, dividindo presentemente o seu tempo entre a escrita e o ensino (escrita criativa), pelo meio ficou uma polémica com a célebre “New Yorker”.


A sua novela “A Linguagem Perdida dos Guindastes”/”The Lost Language of Cranes” fez furor aquando da sua publicação, numa época em que ainda não tinha sido exibido nos cinemas a película “Long Time Companions” /  “Companheiros de Sempre” de Norman Renè e no “mainstream” apenas nos tinha chegado “Os Rapazes do Grupo”  / “The Boys in the Band” de William Friedkin (cineasta sempre à frente da sua época e cujo reconhecimento crítico acaba por ficar sempre esquecido nas revistas da especialidade). Felizmente o seu romance “Martin Bauman”, um retrato quase autobiográfico da Nova Iorque no início dos anos oitenta, não foi atirado para aquela bancada de tão mau gosto criada nas livrarias, na qual as afinidades afectivas dos escritores estão acima da qualidade das obras literárias produzidas, revelando como o “politicamente correcto” pode bem ser, por vezes, tão mesquinho e provinciano.


David Leavitt retratado pelo pintor Arnold Mesches

No cinema David Leavitt viu o seu famoso livro “Family Dancing” / “Dança de Família”, a sua obra de estreia, ser adaptada para o grande écran, tendo participado na feitura do argumento em colaboração com Ryan Shiraki que também assina a realização da película.Anteriormente o seu “The Lost Language of Cranes” / “A Linguagem Perdida dos Guindastes”, tinha visto a luz da caixa que mudou o mundo, através da realização de Nigel Finch, tendo Brian Cox e Eileen Atkins nos protagonistas, corria então o ano de 1991. Por outro lado o próprio David Leavitt, em 2002, foi o responsável do argumento cinematográfico de “Food of Love”, película realizada por Ventura Pons.


A sua obra “The Man Who Knew to Much”, uma biografia de Alan Turing, revelou-nos toda a sua genialidade ao narrar a vida surpreendente do génio que decifrou o código Enigma criado pelos nazis e que foi fundamental para a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Alan Turing, essa mente brilhante que tratou a inteligência artificial e o computador por tu, irá ser perseguido ao longo da vida pelas autoridades do seu país e David Leavitt oferece-nos em “The Man Who Knew to Much” um relato literário ao nível de “A Sangue Frio” / “In Cold Blood” de Truman Capote.

A escrita de David Leavitt revela-se uma viagem literária surpreendente, conduzindo o leitor por caminhos nunca dantes navegados, mas onde o brilhantismo e a sensibilidade andam de mãos dadas.

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