sábado, 30 de abril de 2016

Ernest B. Schoedsack / Merian C. Cooper - "King Kong"


Ernest B. Schoedsack / Merian C. Cooper – "King Kong"
(EUA – 1933) - (99 min. - P/B)
Fay Wray, Robert Armstrong, Bruce Cabot.

Quando comparamos o filme “King Kong” de 1933 com o “remake” levado a cabo por Peter Jackson, percebemos de imediato a grandeza da película realizada por Ernest B, Schoedsack e Merian C. Cooper. E se Naomi Watts é bela e espantosa, a sensualidade de Fray Wray, que veste a pele da actriz desempregada Ann Darrow no filme de 1933, bate-a aos pontos. Depois temos essa luz e sombra que habita o filme e subjuga o espectador de forma perfeita, sempre com o perigo a rondar os participantes da perigosa expedição. E quando Fray Way é levada por King Kong percebemos que estamos perante o velho mito da bela e do monstro. Mas o monstro, esse enorme gorila, também possui os seus sentimentos, protegendo a bela dos perigos que espreitam a cada momento nessa selva inóspita e perigosa, que lhe serve de refúgio.


Usando maquetes e um boneco articulado, Willis O’Brien oferece-nos em todo o seu esplendor a magia do cinema.
E quando encontramos King Kong, esse rei dos reis, aprisionado em New York a servir de espectáculo a um público incrédulo e sedento de sangue, percebemos que ele só se poderá revoltar, procurando no alto do Empire State Building a salvação impossível, levando com ele não uma presa, mas sim a mulher que admira pela sua beleza, terminando abatido pela esquadrilha de aviões que o irá defrontar, numa das mais espectaculares sequências do filme.


“King Kong”, que na época custou cerca de 750.000 dollars, uma quantia astronómica e fora do habitual, continua nos dias de hoje a fazer as delícias dos cinéfilos e de todos os amantes do cinema, demonstrando mais uma vez que a História do Cinema esconde maravilhosas pérolas cinematográficas que bem merecem ser redescobertas e reavaliadas pelas gerações mais novas.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Ulu Grosbard - “Profundo como o Mar” / “The Deep End of the Ocean"


Ulu Grosbard – "Profundo Como o Mar" / "The Deep End of The Ocean"
(EUA – 1999) – (106 min. / Cor)
Michelle Pfeiffer, Treat Williams, Whoopi Goldberg, Jonathan Jackson

“Profundo Como o Mar” / “The Deep End of the Ocean” foi um daqueles projectos em que Michelle Pfeiffer se envolveu por completo, já que o assunto era demasiado importante para ela.

O veterano cineasta Ulu Grosbard, responsável por filmes como “Encontro com o Amor” / “Falling in Love”, oferece-nos a história de uma mãe que perde o filho pequeno numa festa, passando uma vida a culpabilizar-se pelo sucedido, apesar de ter um marido que tudo faz para o seu bem-estar ser o melhor possível, embora nunca consiga que ela esqueça o filho perdido, até que muitos anos depois a criança é descoberta, vivendo feliz num outro lar.


Recorde-se que este tipo de situações acontece com regularidade nos Estados Unidos, o desaparecimento de crianças infelizmente não é raro. “Profundo Como o Mar” / “The Deep End of The Ocean” é um perfeito show de Michelle Pfeiffer na arte de bem representar e a forma como ela aborda a personagem que interpreta é de uma sensibilidade inesquecível, já a realização apesar de sem rasgos de genialidade, acaba por cumprir, ao oferecer-nos uma forte direcção de actores, onde todos brilham, desde os protagonistas, até ao mais secundário dos secundários.


“Profundo Como o Mar” / "The Deep End of Love" revela-se uma película que, sem rasgos de genialidade, nos oferece por outro lado um tema acutilante, onde as interpretações terminam por ser a sua mais valia.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Quentin Tarantino - “Pulp Fiction”


Quentin Tarantino – "Pulp Fiction"
(EUA – 1994) – (154 min. / Cor)
John Travolta, Tim Roth, Samuel L. Jackson, Bruce Willis, Uma Thurma, Ving Rhames.

“Pulp Fiction” proporcionou a John Travolta um segundo fôlego na sua carreira de actor, que até então andava um pouco perdida, ao mesmo tempo que Quentin Tarantino se tornava um cineasta de culto, após as boas indicações dadas com “Cães Danados”.

Partindo de um argumento bastante complexo de Roger Avery e do próprio Quentin Tarantino, que receberiam o Oscar de Hollywood, mergulhamos logo no início num conjunto de memórias que nos enviam para o “film noir”, reciclado de forma visceral e violenta, repleto de alusões cinematográficas e onde o calão e as referências sexuais se revelam de forma aberta, cativando as plateias mais novas que viram na película o seu filme de culto.

Ao longo de “Pulp Fiction”, com uma montagem circular e temporal, repleta de avanços e recuos, iremos descobrir as diversas personagens que vivem nas margens do sistema, embora algumas delas em busca de redenção.


A dupla de gangsters constituída por Vincent Vega (John Travolta) e Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) é memorável, não só pelos seus diálogos mas também pelo seu comportamento ao longo da película, a que não falta o célebre e fortuito acidente, nunca visto até então.

 Por outro lado a violência existente na película revela-se subsidiária dos filmes de gangsters de Hong-Kong e da série-B norte-americana (ou melhor de B a Z), que Tarantino tão bem conhece e admira.

“Pulp Fiction” possui no seu interior todas as marcas que tornam o cinema de Quentin Tarantino, cinema de autor.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Steven Spielberg - “Sempre” / “Always”


Steven Spielberg – "Sempre" / "Always"
(EUA – 1989) – (122 min. / Cor)
Richard Dreyfuss, Holly Hunter, Brad Johnson, John Goodman, Audrey Hepburn.

Quando Steven Spielberg se aventurou pela primeira vez no território romântico deixou muitos surpreendidos, embora optasse por fugir ao melodrama, decidiu refazer a comédia romântica outrora tão em voga no Cinema Clássico e oferecer a Richard Dreyfuss o papel que outrora tinha pertencido a Spencer Tracy, convocando por outro lado Audrey Hepburn (*) para surgir como estrela em cartaz, nesse filme mágico que se chamou “Always”/”Sempre”.


Recorde-se que Audrey Hepburn, depois de se ter “retirado oficialmente do cinema”,  já tinha feito uma aparição lindíssima, por detrás dos seus óculos escuros, em “Romance em Nova Iorque” / “They All Laughed” de Peter Bogdanovich. Mas em “Always” / “Sempre” a história de amor de Dorinda (Holly Hunter) com Ted (Richard Dreyfuss) mesmo depois de ele morrer, irá prolongar-se através de uma outra alma gémea, enviada pelo destino.


“Sempre” / “Always” revela-se uma maravilhosa película romântica, que vai beber no cinema clássico a seiva dos Mestres do género, nunca se esquecendo Steven Spielberg por introduzir o célebre sentido de humor que sempre caracterizou esse género de  filmes, usando a personagem criada por John Goodman para esse mesmo  efeito.
Steven Spielberg oferece-nos em “Always” uma bela homenagem ao cinema clássico.


(*) - No entanto a imagem preferida de Audrey Hepburn, na nossa memória, pertence a essa novela escrita por Truman Capote e intitulada “Breakfast at Tiffany’s” ao lado de um inesquecível George Peppard, apesar de o seu filme mais citado ser o maravilhoso “Sabrina” com Humphrey Bogart e William Holden, nas personagens que muitos anos depois Sydney Pollack haveria de homenagear num “remake”, contando com Harrison Ford, Julia Ormond e Greg Kinnear nos principais papéis.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Paul Newman - “O Confronto” / “Harry & Son”


Paul Newman - "O Confronto" / "Harry & Son"
(EUA – 1984) – (120 min. / Cor)
Paul Newman, Robby Benson, Ellen Barkin, Joanne Woodward.

Paul Newman pertence à geração de actores que passaram a realizadores, continuando com o seu estatuto inicial ou seja de estrela de cinema, tal como sucedeu com John Cassavetes, Robert Redford, Robert Duval ou Kevin Spacey.
“Harry & Son”/”O Confronto” foi a sua quinta película atrás das câmaras e nela se aborda essa relação, por vezes tão complexa, de pai/e filho ou seja o confronto de duas gerações, forçosamente distintas entre si.


Na época da sua feitura Paul Newman contava a bonita idade de sessenta anos e realizava, interpretava, produzia e escrevia o argumento desta película, uma das mais comoventes queo cinema contemporâneo nos ofereceu..
Chamámos a atenção para ela hoje aqui para que a memória do cinema não se perca neste século XXI, que se arrisca a viver sem memórias, tendo em conta a forma como os media tratam a cultura. “O Confronto” / “Harry & Son” revela-nos o saber desse genial cineasta,  por vezes tão desconhecido, chamado Paul Newman.


Pelo caminho ficou esse tão desejado filme que Paul Newman e Robert Redford ambicionavam fazer juntos, como testamento da sua longa amizade, mas o tão desejado argumento nunca chegou a bom porto, pelo que para recordarmos esta dupla fabulosa de actores e realizadores (ambos abordaram as duas áreas) teremos sempre “A Golpada” / “The Sting” e “Dois Homens e Um Destino” / “Butch Cassidy e Sundance Kid”.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

John Ford - “O Homem que Matou Liberty Valance” / “The Man Who Shot Liberty Valance”


John Ford – “O Homem que Matou Liberty Valance” / “The Man Who Shot Liberty Valance” 
(EUA – 1962) – (123 min. - P/B)
John Wayne, James Stewart, Vera Miles, Lee Marvin, Edmond O’Brien.

“O Homem Que Matou Liberty Valance” / “The Man Who Shot Liberty Valance” representa o “western” nostálgico por natureza, já que nele o herói (James Stewart) um advogado de Leste que serve no “saloon”, vê-se perdidamente confrontado com esse “oeste selvagem” protagonizado por Liberty Valance (interpretado por um Lee Marvin inesquecível) e apenas um homem pode fazer frente à selvajaria de Valance, o rancheiro Tom (John Wayne), esse mesmo rancheiro que se encontra apaixonado por Hallie (Vera Miles) que trabalha no saloon, mas a presença e os modos delicados de Ramson (Stewart) começam a apoderar-se do coração de Hallie.


“O Homem Que Matou Liberty Valance” fala-nos, acima de tudo, da chegada da “civilização” ao velho Oeste, mas será essa mesma “civilização” que irá rescrever a história, publicando a lenda e ignorando a verdade dos factos.


Nunca John Wayne esteve tão bem, como na sequência em que Tom (John Wayne) destrói a casa construída para albergar o amor da sua vida, cheio de amargura e raiva após ter perdido a mulher amada, ele que afinal até tinha morto Liberty Valance na escuridão da noite, para salvar o indefeso Tom.
“The Man Who Shot Liberty Valance” surge assim como um dos mais belos “westerns” da filmografia de John Ford.

domingo, 24 de abril de 2016

Robert Flaherty - “Nannook o Esquimó” / “Nanook of the North”



Robert Flaherty – "Nannook o Esquimó" / "Nannook of the North"
(EUA – 1922) – (50 min. - Mudo - P/B)



Robert Flaherty é um dos pioneiros do documentarismo, que desde muito cedo se sentiu fascinado pelo cinema. No início de 1913 decide filmar a vida dos esquimós, compartilhando o seu quotidiano, fascinado por aquela gente que luta diariamente pela sobrevivência.


No entanto as condições em que era guardada a película não eram as melhores e o impensável aconteceu naturalmente, quando um incêndio destruiu o trabalho do cineasta. Inconformado pelo sucedido, Robert Flaherty decide, anos depois, retomar as filmagens graças ao apoio da firma francesa Revillon e, com a ajuda de Nanook e da sua família, oferece-nos o seu olhar sobre a vida deste povo que vivia bem longe da dita “civilização”.


A forma como os esquimós encararam as filmagens, demonstrando um naturalismo fabuloso, irá contribuir decididamente para o sucesso do filme de Robert Flaherty. Estreado em 1922, transforma-se rapidamente num êxito estrondoso, continuando a ser nos dias de hoje um dos grandes marcos do documentarismo.


Na época da sua estreia, em Nova Iorque, eram vendidas nos cinemas peças ditas oriundas dessa região, mas os actores não profissionais desta película nunca viram as suas condições de vida alteradas e,dois anos depois das filmagens Nanook, o célebre protagonista do filme, irá morrer na terra que o viu nascer ao frio e à fome.

sábado, 23 de abril de 2016

Robert Wiene - “O Gabinete do Dr. Caligary” / “Das Kabinette des Doktor Caligari”


Robert Wiene – "O Gabinete do Dr. Caligari" / "Das Kabinette des Doktor Caligari"
(ALEMANHA - 1919) - (78 min. / Mudo - P/B)
Werner Krauss, Conrad Veidt, Lil Dagover, Friedrich Feher.

O nome de Robert Wiene fica associado à Sétima Arte através deste espantoso filme, que nos oferece cenários até então nunca vistos no cinema. O expressionismo tem assim aqui a sua obra-prima, através dos espantosos cenários construídos para o filme, em que as ruas e as casas possuem espaços totalmente inovadores, oferecendo-nos uma visão deformada da realidade. No início da película vamos encontrar um jovem a relatar a sua aventura a um ouvinte atento, desconhecendo o espectador o verdadeiro lugar onde estes se encontram. Tudo começa numa feira em que era exibido uma estranha personagem sonâmbula, que irá estar ligada a misteriosos desaparecimentos de pessoas, sendo a namorada do protagonista uma das vítimas. Acima de tudo, o que se pretende, é demonstrar como a diferença é encarada como loucura. Ao vermos esta película, percebemos como ela na época já apontava os caminhos que espreitavam perigosamente a Alemanha.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Joel Coen e Ethan Coen - “Crueldade Intolerável” / “Intolerable Cruelty”


Joel Coen e Ethan Coen – "Crueldade Intolerável" / "Intolerable Cruelty"
(EUA – 2003) – (100 min. / Cor)
George Clooney, Catherine Zeta-Jones, Geoffrey Rush, Richard Jenkins, Billy Bob Thornton.

Perante o carisma que cobria os irmãos Coen no início do novo milénio, os Estúdios não hesitaram em entregar-lhes um argumento que andava perdido pelos gabinetes há longos anos, tratava-se de “Crueldade Intolerável”/”Intolerable Cruelty”, sendo o par protagonista constituído por dois nomes sonantes do firmamento de Hollywood: George Clooney e Catherine Zeta-Jones.


Marylin (Catherine Zeta-Jones) é uma caça fortunas, que acusa o marido de adultério, para lhe ficar com o vil metal e Miles (George Clooney) o advogado da dita fortuna, mas quando todos se encontram com os respectivos advogados para tratarem do divórcio, a tal faísca ou a seta de Cupido se preferirem, irá tomar conta do coração de Miles e apesar de ele sair vencedor no processo, Marylin passará a dar as cartas nesse jogo terrível do amor, usando a sua beleza para se vingar do belo advogado, que lhe fez perder uma fortuna.


Mais uma vez Joel e Ethan Coen nos oferecem uma película repleta de um humor corrosivo, onde Catherine Zeta-Jones está simplesmente deslumbrante, ao lado de um George Clooney que mais uma vez goza com o seu próprio estatuto de estrela de Hollywood, uma situação que surge de forma bem incisiva sempre que temos os famosos irmãos por detrás das câmaras ou se preferirem vejam “Confissões de uma Mente Perigosa” / “Confessions of a Dangerous Mind”, o primeiro filme realizado por George Clooney, que também interpreta.


“Crueldade Intolerável” / “Intolerable Cruelty” revela-se assim uma comédia que não nos cansamos de rever, devido à conhecida genialidade de Joel e Ethan Coen.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

André Téchiné - “Os Juncos Silvestres” / “Les Roseaux Sauvages”


André Téchiné - "Os Juncos Silvestres" / "Les Roseaux Sauvages"
(FRA – 1994) – (110 min. / Cor)
Elodie Bouchez, Gael Morel, Stéphane Rideau, Fréderic Gorny.

André Téchiné, embora não pertença à geração da “nouvelle vague” que ofereceu novos mundos ao cinema francês, tem construído ao longo dos anos uma obra onde a marca de autor é bem patente e, quando realizou em 1994 a película “Os Juncos Silvestres” / “Les Roseaux Sauvages”, o seu cinema era já por demais bem conhecido de todos.
Situando a acção do filme no ano de 1962 e no sul da França, nessa época em que a Guerra de Argel abria grandes feridas na nação francesa, Téchiné decide contar-nos a história de três jovens adolescentes, uma rapariga e dois rapazes, nesse preciso momento em que a adolescência explode com as inevitáveis paixões, sendo uma delas subterrânea.


Apostando nas contradições dos sentimentos, André Téchiné envolve “Os Juncos Silvestres” / “Les Roseaux Sauvages” num ambiente verdadeiramente bucólico, onde o desejo possui o terreno propício a se desenvolver, veja-se aliás como nos é oferecida essa ida até ao rio, onde a luminosidade e o saber do cineasta invadem a paisagem e os corpos, oferecendo-nos uma verdadeira elegia ao amor e à natureza.


Mais uma vez, André Téchiné oferece-nos uma película bem pessoal, apostando em intérpretes sem “curriculum” transformando-os, na época, em profundas revelações nessa arte difícil da interpretação cinematográfica enquanto por outro lado, ao optar por uma visão naturalista, o cineasta consegue enquadrar com harmonia o conflito que então se vivia, a guerra de Argel, no interior do quotidiano francês, em particular esse território onde despontam as paixões adolescentes, que tão bem retrata nesta película.
“Os Juncos Silvestres” / “Les Roseaux Sauvages”, nesse ano de 1994, irá ser galardoado com os Césars para Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento e Revelação Feminina (Elodie Bouchez).

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Francis Ford Coppola - “Peggy Sue Casou-se” / “Peggy Sue Got Married”


Francis Ford Coppola – "Peggy Sue Casou-se" / "Peggy Sue Got Married"
(EUA – 1986) – (103 min. / Cor)
Kathleen Turner, Nicolas Cage, Barry Miller, Catherine Hicks, Joan Allen, Jim Carrey.

Após o desastre comercial de “Do Fundo do Coraçao” e a travessia do deserto que representaram as películas “OS Marginais” e “Rumble Fish”, a reconciliação de Francis Ford Coppola com a Indústria Cinematográfica de Hollywood originou o recebimento de uma encomenda intitulada “Peggy Sue Got Married”/”Peggy Sue Casou-se”. Embora o argumento tenha sido escrito a pensar na actriz Debra Winger para o papel principal, cuja versatilidade em termos visuais para o que se pretendia para a película se afigurava a indicada, acabou por ser Kathleen Turner a protagonista da película, dando tão boa conta do recado, que acabou por ser indigitada para o Oscar da Melhor Actriz Principal, no entanto seremos sempre obrigados a pensar o que seria Debra Winger a vestir a pele de Peggy Sue.


“Peggy Sue Casou-se” / “Peggy Sue Got Married” é uma viagem através de um “mergulho” no passado de uma mulher madura, que regressa à adolescência e volta a viver a vida tal como ela tinha desfilado perante o seu olhar no passado, só que desta vez até poderia alterar o estado das coisas ou será que não? Estamos assim perante uma película que nos oferece de uma forma dramática as premissas que já tínhamos conhecido como comédia em “Back to the Future” / “Regresso ao Futuro” de Robert Zemeckis, surgindo agora esse engenho mágico de alterar o passado para construir um outro futuro de forma dramática, mostrando Francis Ford Coppola que tinha mantido todo o seu saber durante a sua passagem pelo “limbo” da Indústria.


Francis Ford Coppola oferece-nos em “Peggy Sue Casou-se” / “Peggy Sue Got Married” uma película que termina por nos encantar, como uma dessas fábulas maravilhosas que só o cinema possui o condão de nos poder oferecer.

terça-feira, 19 de abril de 2016

John Byrum - “Inserts”


John Byrum – "Inserts"
(EUA – 1975) – (117 min. / Cor)
Richard Dreyfuss, Jessica Harper, Bob Hoskins, Veronica Cartwright.

John Byrum iniciou-se no cinema como actor, no início dos anos setenta do século passado e depois passou a argumentista, director de fotografia, produtor e realizador ou seja fez a tarimba toda como se costumava dizer, à boa maneira clássica de Hollywood.
O seu filme "Inserts" foi um verdadeiro furacão no panorama cinematográfico e como alguns ainda devem estar recordados, ele foi considerado em diversos países, incluindo em Portugal, o melhor filme desse ano pela crítica cinematográfica.


"Inserts" é o termo utilizado para a designação de grandes-planos nesse género cinematográfico denominado por “hard-core” ou seja serão os "inserts" que irão definir essa categoria do desejo de que falou Roland Barthes no seu magnifico ensaio "A Câmara Clara", transformando o desejo leve (erotismos) em desejo pesado (pornografia). Em “Inserts” estamos perante um “wonder-boy” (Richard Dreyfuss, numa interpretação soberba), caído em desgraça no sistema dos Estúdios no início dos anos trinta do século XX e que se encontra refém de um produtor (Bob Hoskins) de películas pornográficas, que o pressiona a concluir o filme, rodando os inevitáveis “inserts”, que tanta falta fazem  ao "desenvolvimento do movie".


John Byrum, ao centrar a acção do filme num único set e trabalhando de forma extraordinária o argumento, oferece ao espectador uma profunda reflexão sobre a ascensão e queda de um realizador no eldorado do cinema ou se preferirem nessa Hollywood toda poderosa dos célebres Tycoons.


“Inserts” é, hoje em dia, um verdadeiro “cult-movie”, que merece ser (re)descoberto por todos aqueles que gostam de cinema, apresentando-se como uma das mais apaixonantes reflexões sobre o mundo da pornografia, realizadas até hoje no interior da Industria, muitos anos antes de ter surgido o célebre "Boogie Nights"!

segunda-feira, 18 de abril de 2016

John Ford - “A Desaparecida” / “The Searchers”


John Ford – “A Desaparecida” / “The Searchers” 
(EUA – 1956) – (119 min. / Cor)
John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles, Ward Bond, Natalie Wood.

“A Desaparecida” / “The Searchers” é, acima de tudo, um filme sobre a vida no Oeste, muito distante do “Shane” de George Stevens, já que a narração de John Ford se prende não com a vitória de um Homem, mas sim com a derrota de um Homem, porque a personagem interpretada por John Wayne é a de um Homem sem “casa”, após a derrota dos Confederados, durante a Guerra Civil Americana que opôs os Estados do Norte aos do Sul, encontrando na procura de uma criança branca (Natalie Wood), raptada pelos índios, a sua razão de viver.


 Ethan Edwards (John Wayne) parte na sua busca infinita, mas quando encontra a antiga criança já adulta, casada com um guerreiro índio, quase decide partir sem ela, porque ela representa o fim da sua última missão, vendo nela apenas mais uma pele-vermelha e nunca essa rapariga pertencente à sua família e que comunga o seu sangue.


O último plano do filme com a partida de Ethan (John Wayne) rumo ao desconhecido, visto do interior da casa (num soberbo plano do cineasta), até que a sua figura se confunde com o horizonte ou essa paisagem inóspita tão comum ao Oeste Americano, representa bem a solidão que tantas vezes atingiu as personagens interpretados por John Wayne, ao longo da sua carreira no cinema.


“The Searchers” / “A Desaparecida” é apenas mais uma obra-prima da 7ª Arte  realizada por esse genial cineasta, que um dia disse simplesmente a Peter Bogdanovich: “My name is Ford, John Ford and I make westerns”.

domingo, 17 de abril de 2016

F. W. Murnau - “Aurora” / “Sunrise”


F. W. Murnau – "Aurora" / "Sunrise"
(EUA – 1927) - (117 min. - P/B - Mudo)
George O’Brien, Janet Gaynor, Margareth Livingstone.

Quando F. W. Murnau chegou aos Estados Unidos, a convite da Fox, foi-lhe de imediato dada carta branca para filmar e assim nasceria “Sunrise” / “Aurora”, uma das mais admiráveis histórias de amor do cinema.
Estamos mais uma vez  perante a história da célebre tentação, personificada aqui pela vamp (Margaret Livingstone), que tudo irá fazer para seduzir George O’Brien, esse fiel esposo que um dia decide assassinar a mulher angélica que vive com ele.


 Mais uma vez F. W. Murnau usa o travelling e a luz como só ele sabia fazer. Mas ao chegar a esse momento capital em que a vida e a morte se confrontam o marido, enfeitiçado pela vamp, desiste do seu objectivo e mais uma vez será Deus, segundo a visão do cineasta alemão, que irá escrever o destino por portas e travessas, quando ele pensa que a mulher morreu.

F. W. Murnau

A forma “celestial” como nos é oferecido o rosto de Janet Gaynor, essa esposa angélica, ao longo do filme é surpreendente, em contraste com o rosto da vamp e quando o cineasta parte do campo para essa cidade cheia de luz e movimento, retratada de forma sublime, percebemos como o destino daquele par será escrito pelo amor que nutrem um pelo o outro.


“Aurora” / “Sunrise” recebeu, na época da sua estreia, o Óscar para a melhor produção de qualidade artística, o equivalente nos dias de hoje ao Óscar para Melhor Filme, na verdade uma das obras-primas do Cinema, que bem merece ser (re)descoberta pelas novas gerações de amantes da Sétima Arte.

sábado, 16 de abril de 2016

D. W. Griffith - “O Nascimento de uma Nação” / “The Birth of a Nation”


D. W.  Griffith – "O Nascimento de Uma Nação" / "The Birth of a Nation"
(EUA – 1915) - (170 min. - Mudo - P/B)
Henry B. Walthall, Miriam Cooper, Mae Marsh, Lilian Gish.

A linguagem cinematográfica, como todos sabemos, foi criada por D. W. Griffith e foi com “O Nascimento de Uma Nação”/ “The Birth of a Nation”,  que o cinema deu um passo de gigante, não só devido à sua longa duração, como também aos meios envolvidos na sua feitura. O cineasta dirigiu verdadeiras multidões neste relato passado em 1860, numa época em que se desenrola a guerra civil americana, nunca escondendo a sua costela sulista, ao mesmo tempo que faz o elogio do Ku Klux Klan como salvador da Pátria, como vemos no filme quando eles libertam a família do cerco que lhes foi feito pelos negros.

David Wark Griffith
 o criador da linguagem cinematográfica

Por este motivo o filme foi classificado por muitos como racista, originando na época verdadeiros motins nas sessões de cinema, recorde-se que muitas das salas funcionavam durante as 24 horas do dia, tendo até sido proibida a sua exibição em alguns Estados Norte-Americanos, mas se olharmos para a genialidade da construção fílmica do cineasta, somos obrigados a considerar que estamos perante uma das grandes obras-primas do cinema.
David Wark Griffith sempre se defendeu das acusações que lhe foram feitas, dizendo que apenas se baseava em factos e para o provar irá realizar anos mais tarde uma obra ainda maior sobre a intolerância ao longo da História, para assim se libertar da pesada acusação que lhe fora feita.


 A película em questão irá chamar-se precisamente “Intolerance” / “Intolerância” e ao contrário de “The Birth of The Nation” não irá ter o sucesso desta, levando D. W. Griffith à ruína e ao esquecimento dos seus pares, terminando os seus dias a viver num quarto de hotel em Hollywood.
Ele que foi um dos fundadores da United Artists, no dia do seu funeral não teve nenhum dos nomes famosos do cinema a quem ofereceu o seu génio, a acompanharem-no até à última morada.

Raoul Walsh, que dirigiu uma das equipas de filmagem em “O Nascimento de Uma Nação” / “The Birth of a Nation”ao mesmo tempo que vestia no filme a pele do assassino do Presidente Lincoln, referiu-se nestes termos à importância do filme: “Foi preciso “Nascimento de Uma Nação” para convencer o mundo de que Hollywood atingira a maturidade. Esta longa-metragem representa um ponto de viragem na história do cinema”.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Bryan Singer - “Os Suspeitos do Costume” / “The Usual Suspects”


Bryan Singer – "Os Suspeitos do Costume" / "The Usual Suspects"
(EUA – 1995) – (106 min. / Cor)
Gabriel Byrne, Kevin Spacey, Stephen Baldwin, Kevin Pollack, Benicio Del Toro, Chazz Palminteri, Pete Postlethwaite.

“Os Suspeitos do Costume” / “The Usual Suspects” é uma película que vive do extraordinário argumento de Christopher McQuarrie, que acabaria por receber o Oscar para o Melhor Argumento Original e da portentosa interpretação de Kevin Spacey, também ele galardoado com o Oscar, ao interpretar essa personagem enigmática chamada Roger “Verbal” Kint, um aleijado que é encontrado no cais de San Pedro, após ter ocorrido uma explosão num navio e onde jazem mais de vinte corpos mortos de conhecidos cadastrados, após um tiroteio inimaginável.
Levado para interrogatório, o “pobre” Roger “Verbal” Kint irá contar ao inspector encarregado do caso (Chazz Palminteri) a sua versão dos acontecimentos, ao mesmo tempo que iremos saber através de longos “flashbacks” como ele conheceu na prisão os conhecidos cadastrados.


Ao longo da película um nome irá surgir: Keyzer Soze. Mas à medida que vamos acompanhando os acontecimentos narrados, acabamos por suspeitar que o homem que se esconde por detrás do nome de Kobayashi (Pete Postletwaite) poderá ser o perigoso e temido Keyser Soze, no entanto iremos perceber quase no final como estamos profundamente enganados, nesse momento mágico em que o polícia termina de beber o seu café e repara no fundo da chávena e depois olha para o placard situado por detrás dele, mas é demasiado tarde para o agente e para nós espectadores, surgindo de imediato o desejo de revermos o filme para percebermos o engodo genial em que caiu o detective e nós na sua companhia.


“Os Suspeitos do Costume” / “The Usual Suspects” oferece-nos um dos mais portentosos argumentos da história do cinema, contando com interpretações muito acima da média, prendendo o espectador à cadeira desde o primeiro minuto, ao mesmo tempo que Brian Singer nos oferece um policial soberbo, manipulando com grande saber o material cinematográfico. Estamos assim perante um filme inesquecível, que nos convida a um novo visionamento, tal é o engenho soberbo deste genial argumento: quanto mais o (re)vemos, mais gostamos dele.