quarta-feira, 30 de março de 2016

Jean-Luc Godard - “Paixão” / “Passion”


Jean-Luc Godard – "Paixão" / "Passion"
(FRANÇA/SUIÇA – 1982) – (88 min. / Cor)
Isabelle Huppert, Hanna Schygula, Michel Piccoli, Jerzy Radziwilowicz.

Escrever sobre um filme de Godard é a impossibilidade que se instala na escrita. E dizemos impossibilidade, porque o seu cinema é uma paisagem de imagens e sons, palavras e luz, onde as citações (históricas) se cruzam, transparentes, de tal forma que a sua metamorfose é inatingível no universo da escrita.
(Escre)ver “Paixão” só é (im)possível retirando fragmentos de imagens da memória do cinema. Jean-Luc Godard é o autor exemplar, desde o momento em que inventou o primeiro fotograma de “Opération Béton” (1954 - seu primeiro filme). Desde esse dia o seu cinema constrói as mais belas composições, como se estivéssemos perante um compositor apaixonado pela música de câmara, compondo os seus quartetos até chegar esse momento capital em que nasce essa obra monumental intitulada "Histoires du Cinéma" / "Histórias do Cinema", que está para a Sétima Arte como "A Canção da Terra" estava para Mahler(*). Só assim é possível compreender o cinema de Jean-Luc Godard, que ao longo dos anos tem interrogado o estado do mundo, a situação do cinema e a condição humana. Como disse George Sadoul: “há um cinema antes e depois de Godard”.


Alguns fragmentos de “Paixão”:

Primeiro Fotograma – O azul é a cor da Paixão. Uma linha pura, branca, talvez virgem, como Isabelle, invade o azul do céu e introduz os heróis de Godard, sem palavras, somente o som de “uma imagem justa, justamente uma imagem”.

Segundo Fotograma – Jerry, cineasta polaco, reconstitui em Estúdio alguns quadros célebres (Delacroix, Goya, etc), mas não tem uma história. O produtor exige uma história. Mas a luz de Jerzy é a luz do Cinema e não a luz da Pintura. As filmagens não avançam.

Terceiro Fotograma – Hanna possui um hotel, vive com o marido, dono de uma fábrica, onde Jerzy, seu amante, recruta figurantes. E quando o cineasta a convida a participar no filme, ela recusa, porque despir-se perante uma câmara é estar demasiado próximo do amor, é essa impossibilidade que se instala no seu corpo.


Quarto Fotograma – Isabelle é operária, trabalha na fábrica do marido de Hanna. Acaba por ser despedida. Ela também ama Jerzy e o cineasta é um homem dividido na paixão. Daí a razão de ele dizer que “é preciso inventar a paixão antes de a vivermos”.

Quinto Fotograma – O patrão, marido de Hanna, é perseguido pelos credores e as operárias, mas acaba sempre por dominar a situação, excepto a sua própria condição de marido/e poder.


Sexto Fotograma – Quando Hanna e Isabelle se encontram pela primeira vez é o conflito que se instala, ainda a luta de classes ou talvez não? Mas a imagem que nos envia para essa situação de luta é o retrovisor do carro de Hanna, paisagem cinzenta, deserta, que se confunde com a distância que separa Jerzy do seu país.

Sétimo Fotograma – A luz ilumina e esconde o rosto de Isabelle, enquanto o discurso político se instala, mas a luz transforma o olhar na pintura e os planos que a câmara fixa são os quadros que se criam, não com o discurso, mas sim com a paixão.


Oitavo Fotograma – Hanna olha o vídeo como um espelho, onde o seu corpo é o reflexo da imagem que Jerzy deseja, manipula, corrompe, possuindo a paixão que trabalha.

Nono Fotograma – Hanna e Isabelle partem juntas, Jerzy também parte. Destino, o mesmo: Polónia. O presente talvez passado, o presente ainda futuro.

 “Paixão” é um filme que não tem “história”. Mas no cinema há sempre uma história, será que estamos necessariamente no cinema? Será o cinema uma fábrica ou simplesmente um local onde se contam histórias?


- Conheces o filme “Paixão” de Jean-Luc  Godard?
- Não! Qual é a história?

(*) - E aqui não há o receio Mahleriano da condição trágica em que Beethoven escreveu a sua derradeira Sinfonia, porque Jean-Luc Godard continua a ser o "enfant terrible" da Sétima Arte.

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