quarta-feira, 16 de março de 2016

Jean-Pierre Melville - “Ofício de Matar” / “Le Samourai”



Jean-Pierre Melville – "Óficio de Matar" / "Le Samurai"
(FRANÇA – 1967) – (104 min. / Cor)
Alain Delon, François Périer, Nathalie Delon, Cathy Rosier, Jacques Leroy.


Nos dias de hoje muitos ficam fascinados pelo cinema “Made in Hong-Kong” e as coreografias de John Woo e seus descendentes, sendo a figura do gangster uma espécie de modelo em busca de afirmação num universo nocturno.
Tarantino com o seu “Cães Danados” / “Reservoir Dogs” afirmou muitas vezes que o sentido do seu cinema morava a Oriente, no entanto se olharmos para a obra de Jean-Pierre Melville e para este “Le Samourai”, vamos encontrar nele essa personagem eterna chamada Jeff Costello, o gangster por excelência, ou melhor o último dos samurais, regendo-se por códigos rígidos e imutáveis.
Chegamos assim à simples conclusão de que o cinema contemporâneo e em especial o policial deve imenso a esse autor chamado Jean-Pierre Melville, que elegeu o “polar” como um grande género. Este francês fez do “film noir” uma referência, construindo personagens à medida das suas intenções, com uma precisão digna de um fabricante de relógios suíço.


Alain Delon surge assim pela porta grande no universo de Jean-Pierre Melville, tendo participado em três películas, “Ofício de Matar” / “Le Samourai”, “O Circulo Vermelho” / “Le Circle Rouge”e “Cai a Noite Sobre a Cidade” / “Un Flic”, revelando-se um actor acima de qualquer suspeita.
No caso concreto de “Ofício de Matar” / “Le Samourai”, ele é um gangster que vive só, num apartamento onde a luz quase não penetra, sendo a sua única companhia um canário, que um dia o irá salvar da morte, essa morte adiada que o samurai sabe que um dia há-de chegar.


Com o seu chapéu a cair-lhe para o rosto e a gabardina de abas levantadas para não se lhe ver o rosto, ele prepara-se para mais um trabalho, sai de casa e rouba um carro, usando uma das muitas chaves falsas que possui, dirige-se até um colaborador numa garagem que lhe coloca novas matrículas no citroen roubado e lhe dá novos documentos, tudo isto debaixo de um silêncio perfeito, porque o momento não é de palavras, mas sim de acção, ou melhor do assassinato perfeito.
E assim acontece: Jeff Costello entra no cabaret e rapidamente executa a missão para que foi contratado, mas a pianista/cantora do quarteto de jazz cruza-se com ele e olha bem para o seu rosto.


Pondo-se em fuga, Jeff trata de colocar em marcha o seu álibi, porque sabe que vai ser preso, ele será um dos muitos suspeitos do costume a ser detido pela polícia, mas o seu álibi é sólido e sem falhas. Quando chega a altura de algumas testemunhas oculares o identificarem, incluindo a jovem pianista, todas elas afirmam não ser ele o assassino. E aqui Jean-Pierre Melville coloca a sua mão de mestre perante uma situação que todos sabemos ser imperfeita, porque Valérie (Cathy Rosier) sabe que ele é o assassino e Jeff sabe perfeitamente que ela o reconheceu, decidindo ir ter com ela para saber qual a razão porque não foi denunciado.

Jean-Pierre Melville e Alain Delon

Mas como todos sabemos o mundo do crime não é um mundo perfeito e será aqui que o samurai, com as suas regras, irá entrar em confronto com uma nova ordem, em que os amigos de hoje podem ser os inimigos de amanhã. E como nem todos os trabalhos são para ser executados, Jeff Costello parte naquela noite para executar a sua derradeira encomenda e tal como o samurai irá fazer o seu hara-kiri, conduzido pela mão brilhante de um cineasta chamado Jean-Pierre Melville.

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