quinta-feira, 24 de março de 2016

Wim Wenders - “O Amigo Americano” / “Der Amerikanisch Freund”




Wim Wenders – "O Amigo Americano" / "Der Amerikanische Freund"
(ALE/FRA – 1977) – (125 min. / Cor)
Dennis Hooper, Bruno Ganz, Lisa Kreuzer, Gerard Blain, Nicholas Ray, Samuel Fuller, Daniel Schmid, Peter Lilienthal, Jean Eustache.


Foi com “O Amigo Americano” / “Der Amerikanisch Freund” que Wim Wenders se tornou conhecido e amado por muitos cinéfilos, este cineasta alemão oriundo da crítica, convoca para este filme Nicolas Ray, um cineasta por quem tem uma enorme admiração, oferecendo também pequenos papéis a outros realizadores como Samuel Fuller, Jean Eustache, Daniel Schmid, Peter Lilienthal e Gerard Blain (lembram-se dele em “Hatari!” de Howard Hawks?), para além de Dennis Hopper também ele cineasta (recordam-se de “Easy Rider” ou “Out of the Blue?), embora seja mais conhecido como actor.


Por outro lado, foi nesta película que descobrímos o enorme talento desse actor chamado Bruno Ganz que, embora seja suíço, fez a sua carreira no denominado “Novo Cinema Alemão” e, certamente, muitos se recordam dele nessa “Cidade Branca” chamada Lisboa, que Alain Tanner nos ofereceu um dia, para já não falar nessa sua espantosa interpretação de Hitler em “A Queda”.
Depois nunca é demais mencionar a presença de Lisa Kreuzer, um dos grandes nomes femininos do Cinema Alemão Contemporâneo que com Hanna Schygulla, Eva Mattes e Barbara Sukowa, deram rosto a inúmeras personagens desse cinema que nos maravilhou desde que nasceu através do célebre Manifesto de Oberhausen, onde foram traçadas as linhas pragmáticas do que se viria a chamar o “Novo Cinema Alemão”.


Partindo de um romance de Patrícia Highsmith, recorde-se que ela é a autora do famoso “O Desconhecido do Norte-Expresso” que Hitchcock adaptou ao cinema, Wim Wenders deu vida a essa personagem imoral chamada Tom Ripley (Dennis Hopper), havendo mais dois filmes nascidos desse anti-herói, onde John Malkovich e Matt Damon também nos ofereceram o rosto da célebre personagem do romance policial.


Iremos assim encontrar Tom Ripley nessa Nova Iorque onde ainda viviam as famosas Torres Gémeas, no apartamento de Derwatt (Nicolas Ray), a ver como decorrem os trabalhos do famoso pintor, para mais tarde o encontrarmos em Hamburgo, numa das suas actividades favoritas, a especulação e vigarice no mundo da Arte, vendendo quadros deste pintor que o mundo da Arte julga ter falecido. Mas a vista do pintor já não é a mesma e Jonathan Zimmermann, um pequeno restaurador de Hamburgo que assiste ao leilão, percebe que aquele azul (o célebre azul cobalto que o tornou célebre) já não é o mesmo.


Ripley, na sala, escuta o comentário de Zimmermann e, depois de lhe ser apresentado, toma a decisão de o usar nos seus outros negócios escuros, por onde anda a mão da máfia.
Jonathan tem uma doença no sangue incurável, sendo o seu tempo de vida muito reduzido e Tom Ripley decide, através de um gangster francês, torná-lo num assassino, em troca de o levar a outros especialistas para analisarem o seu estado de saúde, ao mesmo tempo que lhe paga pelos trabalhos efectuados, garantindo Jonathan desta forma uma “almofada económica” para a sua família.
Mas, como sucede nestas coisas, nada corre como previsto e Tom Ripley será forçado a ajudar o restaurador nos seus trabalhos muito pouco artísticos, nascendo desta forma uma espiral de violência que irá mudar para sempre a vida de todos os intervenientes.


Usando o seu habitual director de fotografia, Robby Muller, e com montagem de Peter Przygodda (outro nome forte da equipa), Wim Wenders oferece-nos um retrato de Hamburgo e da sua noite, com uma cor que nos deixa surpreendidos, ao mesmo tempo que a banda sonora de Jurgen Knieper (fixem o nome), vai dramatizando a acção da película pontuando de forma soberba o desenrolar dos acontecimentos, basta repararem nas sequências passadas no Metro Parisiense para ficar tudo dito.


Mais uma vez, como é regra em Tom Ripley, ele encontra sempre o inocente que vai usar em proveito próprio, saindo sempre ileso desse mundo do crime em que é um verdadeiro Príncipe Perfeito.
Recordar “O Amigo Americano” / “Der Amerikanisch Freund” não é só encontrar o melhor cinema de Wenders, mas também mergulhar nesse universo criado por Patrícia Highsmith, em que o herói é o assassino, esse mesmo assassino que irá sempre sobreviver a todos os seus planos maquiavélicos, como o que delineou para usar o pacato Jonathan Zimmermann.


Wim Wenders e Dennis Hooper durante a rodagem

Redescobrir o período alemão de Wim Wenders é uma aventura profundamente fascinante que recomendamos.

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