sexta-feira, 4 de março de 2016

“Lola” – Rainer Werner Fassbinder




Rainer Werner Fassbinder – "Lola"
(ALEMANHA - 1981) – (113 min. / Cor.)
Barbara Sukowa, Armin Mueller-Sthal, Mario Adorf,Claus Holm.


A história da luz
é a história da vida
e o olhar humano
foi a primeira câmara”.

Joseph Von Sternberg


Olhar o rosto de “Lola” é a vontade indomável de alcançar o possuidor dessa imagem, que nos incendeia o corpo e comunica indisciplinadamente com a nossa visão do desejo, facultada pela aprendizagem dos sentimentos, que alteram a evolução do sonho.


“Lola” é um nome, mas também uma época (o nascimento do “milagre alemão”, esquecidas que foram as cinzas de um passado ainda presente).
“Lola” é um corpo, oriundo da “Lulu” de Wedekind, corrompido no “Anjo Azul” de Sternberg, até (re)nascer numa outra geração, a de Rainer Werner Fassbinder, onde o cinema, como refere Pier Paolo Pasolini “é uma ideologia pessoal, de vitalismo, de amar de viver... dentro das coisas, dentro da vida, dentro da realidade”.


“Lola” é uma imagem, uma imagem de criança, de uma mulher, desapaixonada pelo amor, obrigada a dormir na vida que deseja e odeia. E é esse desejo de sobreviver não amando, que a leva a interessar-se indirectamente pela arte Ming e directamente por Von Bohm, parente afastado do professor Unrat (o personagem principal de “O Anjo Azul” de Joseph von Sternberg), manobrando-o delicadamente com a violência da postura do seu reencontro no bordel, onde as palavras do seu canto são o choro e a raiva da orfandade de uma mulher.


A luz é a cor que desce das nuvens, iluminando o casamento de Lola com Von Bohm e as imagens que o sol ainda deixa transparecer são o segredo, da vitória da memória do derrotado, recordação de um fim de tarde chuvoso, onde a traição consentida e a contemplação da natureza ainda se conjugam.
A felicidade em “Lola” não é uma invenção dos homens, é uma conquista do engano, na interpretação das palavras.


“Lola” de Rainer Werner Fassbinder, com a inesquecível Barbara Sukova na protagonista, é uma película fabulosa na longa e magnifica filmografia do cineasta alemão, que merece ser redescoberta.

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