quarta-feira, 9 de março de 2016

Julien Green – “Paris”



Julien Green
"Paris"
Tinta da China, Pag. 125

Paris, a cidade das Luzes, é o tema desta obra de Julien Green, editada pela Tinta da China. Se pensa que está perante um daqueles roteiros turísticos de Paris, está redondamente enganado, porque este escritor americano, nascido em Paris em 1900, fez da Cidade das Luzes a sua Pátria, vivendo nela ao longo de 98 anos, tendo-se apenas ausentado durante o período da Segunda Grande Guerra, já que na Primeira combateu ao lado dos franceses, nessa tragédia que foi a guerra de trincheiras, que ceifou milhares de vidas inúteis.


Julien Green

Julien Green começou a amar a cidade e as suas gentes desde criança, mas nunca teve grande afeição por esse símbolo da cidade que é a Torre Eiffel, o mesmo sucedendo com o Grand e Petit Palais e assim, a Paris que ele nos convida a conhecer, revela-se uma cidade quase secreta para os turistas que a visitam. Ele oferece-nos o seu olhar apaixonado duma cidade, numa escrita deliciosa que nos convida a olhar o Sena por entre a neblina que cobre as margens, recomenda-nos a visita dessa pérola que é o Jardim da residência de Delacroix e fala-nos dos Parisienses ao longo de um século.


 Henri Cartier-Bresson - "Ile de la Cité", Paris 1952

«No Boulevard de Clichy vi um velho debaixo de uns chuviscos, pondo a trabalhar dois ratos brancos e dois fox terrier aos quais o cansaço fazia piscar os olhos. Os ratos subiam e desciam pelos braços do homem com uma enorme boa vontade e uma paciência de certa forma inesgotável. Os cães com uns chapelinhos tiroleses faziam umas gracinhas sempre que isso lhes era pedido, mas com aquela tristeza que vem da fome, do frio, do cansaço e da consciência de estar a fazer uma figura ridícula. Ao meu lado, um miúdo observava aqueles animais com um olhar grave. Ao fim de alguns minutos, tirou do bolso um grande porta-moedas usado e, com um gesto que continha toda a bondade humana, atirou uma moeda para a gamela.»


Paris, que é e será sempre a nossa cidade, surge aqui visitada por quem conhece a sua História, percorrendo as ruas serenamente, numa busca incessante da beleza. Essa mesma beleza tantas vezes retratada pelos pintores, fotógrafos e escritores, nesse simples acto de oferecer o seu amor à cidade. Porque nem sempre, como nos conta Julien Green, a cidade é convidativa, porque também ela possui o seu lado cinzento, mas visitar Paris pela mão de Julien Green é na verdade uma aventura maravilhosa.

«Paris sob uma ligeira bruma ao princípio da noite, com o reflexo das luzes na água, Notre-Dame toda branca do lado de lá das pontes, não é possível sonhar com uma paisagem mais sedutora.»


Alfred Stieglitz - "A Wet Day on the Boulevard". Paris 1894

Curiosamente Julien Green sempre escreveu os seus romances em francês, assim como as suas peças de teatro, tendo desenvolvido intensa actividade crítica. Apenas a sua auto-biografia “Memories of Happy Days” foi escrita em inglês na América, durante a Segunda Grande Guerra. Apesar de ter tido sempre a nacionalidade americana, Julien Green foi o primeiro escritor a entrar para a Academia Francesa, tendo em 1971 recebido o Grande Prémio da Literatura. Grande parte da sua obra está editada em Portugal pela Ulisseia: “Moira”, “O Outro”, “Um Homem na sua Noite”.

Vale a pena ler esta “Paris” de Julien Green, uma obra profundamente literária, que nos oferece o olhar de um homem que nasceu na cidade em 1900 e se despediu dela em 1998 e nos oferece um século de vida dessa maravilhosa cidade chamada Paris.

Nota: A primeira foto pertence a Robert Doisneau, "Le Baiser de l'Hôtel de Ville", Paris, 1950.

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