terça-feira, 8 de março de 2016

Stanley Kubrick - “Horizontes de Glória” / “Paths of Glory”



Stanley Kubrick – "Horizontes de Glória" / "Paths of Glory"
(EUA – 1957) – (87 min. - P/B)
Kirk Douglas, Ralph Meeker Adolphe Menjou, George Macready.


“Horizontes de Glória” / “Paths of Glory” foi o filme que enviou Stanley Kubrick para essa galeria dos Grandes Mestres do Cinema. E quando revemos esta obra sobre essa destrutiva e louca guerra de trincheiras que foi a Primeira Guerra Mundial, encontramos um dos maiores filmes feitos até hoje sobre a irracionalidade da Guerra, porque como todos sabemos nunca haverá guerras justas, já que ambos os lados terminam sempre por cometer as suas atrocidades.


Partindo de um facto ocorrido durante a Primeira Guerra Mundial, Stanley Kubrick e Calder Willingham construíram um argumento soberbo e demolidor da Instituição Militar, ao ponto de “Paths of Glory” / “Horizontes de Glória” ter estado proibido em França até 1975, porque incomodava decididamente a hierarquia militar.
Kirk Douglas, o protagonista da película, ficou de tal forma fascinado com o trabalho de Stanley Kubrick que afirmou na época estar-se perante uma obra-prima absoluta, tendo anos depois convidado o cineasta para dirigir “Spartacus”, embora depois não se tenha dado muito bem com as decisões de Stanley, devido ao facto de Kirk ser também o produtor desse épico. Recorde-se que os primeiros filmes de Kubrick foram produzidos por James B. Harris, que tinha uma excelente relação com o génio norte-americano.


A Primeira Guerra Mundial foi durante dois anos uma guerra de trincheiras, na qual não faltaram os gases letais, posteriormente proibidos e onde os corpos dos soldados eram simplesmente carne para canhão. Iremos assim entrar pela porta grande ao mergulharmos nesse território das trincheiras em que mais de metade dos homens morriam a cada investida, nunca conseguindo alcançar os seus objectivos, mesmo quando eles se limitavam a meia-dúzia de metros de terreno.


O Coronel Dax (Kirk Douglas) é um oficial experiente e advogado na vida civil, olhando muitas vezes as ordens superiores com profundo desprezo, embora as cumpra, porque melhor do que ninguém conhece os seus homens e a vida das trincheiras e quando recebe uma ordem do General Paul Mireau (George Macready) para avançar com os seus homens, numa investida inglória, tenta por todos os meios demonstrar ao seu superior hierárquico como aquele sacrifício é desnecessário. Mas o General tem uma visão bem diferente porque aquele ataque lhe irá proporcionar mais uma estrela, como lhe confidenciou o seu chefe General George Broulard (Adolphe Menjou).


Stanley Kubrick e Kirk Douglas numa pausa das filmagens

Como não podia deixar de ser a primeira vaga transforma-se em pura carnificina. Quando chega a altura da segunda vaga os soldados recusam-se a partir para a morte inglória; o General não hesita em ordenar à sua artilharia para alvejar os seus próprios soldados, para os fazer sair das trincheiras. Instala-se a confusão e, perante o insucesso, o quartel-general decide escolher três soldados para servirem de exemplo a todos os restantes e envia-os a julgamento militar.
Dax (Kirk Douglas) decide então ser o advogado de defesa desses três inocentes (escolhidos à sorte) e tudo faz para impedir o seu fuzilamento. Mas os dados estão mais que lançados e o seu destino traçado. No tribunal, o advogado de defesa irá esgrimir todos os argumentos possíveis desta guerra de loucos, enfrentando a hierarquia militar. Apesar de ter conseguido com os seus argumentos provar a irracionalidade das ordens recebidas obtendo a destituição do seu superior hierárquico, que começava a incomodar as altas chefias militares, não atinge o seu principal objectivo: impedir o fuzilamento daqueles três soldados inocentes.


“Paths of Glory” / “Horizontes de Glória” é assim muito mais que um filme anti- belicista, porque o que encontramos aqui é uma obra cinematográfica que irá incomodar durante décadas a hierarquia militar e os seus valores, ao mesmo tempo que transforma Stanley Kubrick num dos mais geniais cineastas da História do Cinema, basta ver a forma como toda a sequência das trincheiras é filmada para ficar tudo dito, já que ele envia positivamente o espectador para esse buraco cheio de lama e sangue onde os corpos se amontoam sem vida ou prestes a perdê-la, perante a angústia dos seus companheiros de armas que esperam o momento de também eles perderem a vida, nessa guerra irracional delineada nos gabinetes pelos estrategas do Alto-Comando.

Stanley Kubrick

Ao revermos hoje “Horizontes de Glória” / “Paths of Glory” constatamos que estamos perante a primeira das obras-primas que Stanley Kubrick, o cineasta da perfeição, irá realizar ao longo da sua vida.

2 comentários:

  1. Às vezes, tem que se ver um Kubrick para se voltar a dar à 7ª Arte a importância devida!

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    1. Concordo em absoluto, nesta época em que o cinema, tem perdido os seus maiores cineastas, não há nada como (re)descobrir a memória do cinema.
      Beijinhos

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