sábado, 5 de março de 2016

Fernando Meirelles – “Diário de Blindness”



Fernando Meirelles
"Diário de Blindness"
Quasi, Pag. 90


Fernando Meirelles, como todos sabemos, ficou conhecido do mundo inteiro quando surgiu no Festival de Cannes com o seu filme “Cidade de Deus”, um dos grandes êxitos do cinema brasileiro, que transpôs fronteiras e ofereceu ao cineasta um reconhecimento a nível mundial. E foi assim com naturalidade que a sua obra seguinte foi “The Constant Gardener” / “O Fiel Jardineiro”, baseada numa obra de John Le Carré, com um elenco internacional, como todos devem estar recordados. Mas antes da feitura destes dois filmes o cineasta lera “Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago, descobrindo de imediato o desejo de levar ao grande écran a obra do Prémio Nobel da Literatura. Porém o escritor, na época, não aceitou vender os direitos do livro para o cinema.


Alguns anos depois o cineasta recebeu um telefonema de um produtor canadiano a perguntar se ele estava interessado em adaptar para o cinema “Ensaio Sobre a Cegueira” e, assim, esse desejo tão secreto do brasileiro tornou-se realidade.
“Diário de Blindness” relata-nos, na primeira pessoa, a aventura que foi a feitura de “Ensaio Sobre a Cegueira”, percorrendo cidades como Lisboa, Toronto, São Paulo e Montevideu, ao mesmo tempo que vamos compartilhando a vida dos actores e técnicos, que concretizaram a feitura desta película.


José Saramago e Fernando Meirelles

Iremos assim conhecer o seu encontro com o escritor na “cidade velha” de Lisboa, como ele chama ao Bairro Alto, no conhecido restaurante “Farta Brutos”, um dos mais antigos (conheço-o desde criança). Até à chegada dos actores Mark Ruffalo e Julianne Moore, a sua preparação para as filmagens, os contratempos próprios das rodagens e a concretização do sonho tão acalentado pelo cineasta.
Ler as páginas deste diário de rodagem é na verdade fascinante, não só pela forma como está escrito, mas também pelos dados que nos são oferecidos das dificuldades encontradas, passando pelo famoso “test-screening”, até chegar esse momento da apresentação do filme ao próprio escritor, um momento verdadeiramente comovente deste “Diário de Blindness”, mas o melhor é dar a voz a Fernando Meirelles:



«Depois de uma semana que pareceu uma verdadeira montanha russa, sai de Cannes e fui para Lisboa mostrar o filme “Ensaio Sobre a Cegueira” para José Saramago.
Por meses antecipei o quanto a sessão me deixaria ansioso – e não estava errado.
Infelizmente, o cine São Jorge, que nos foi reservado não tinha projecção digital, então foi improvisado um sistema para passarmos a nossa fita. Pensei em desistir de mostrar o filme ao ver um teste de projecção, mas o escritor já estava na sala de espera e, em respeito ao compromisso achei melhor ir em frente.
Sentei-me ao seu lado, expliquei aos poucos amigos presentes que só havia legendas em francês e começámos a ver o filme. Sofri cada vez que uma imagem não aparecia ou que a música mal soava. Ele assistiu ao filme todo mudo e sem reacção nenhuma.
Ao final da sessão, quando os créditos começaram a subir, sua mulher, Pilar debruçou-se sobre Saramago e me agradeceu emocionada. Silêncio ao meu lado. Antes de terminar os créditos principais, as luzes do cinema foram acesas, eu ousei olhar para o lado e vi que ele fitava a tela sem reacção, como se estivesse interessado no nome dos assistentes de cenografia que passavam.
Deu tudo errado, pensei. Toquei o seu braço levemente e lhe falei que ele não precisava de comentar nada naquele momento, mas, então, com uma voz embargada, ele me disse pausadamente: «Fernando, eu me sinto tão feliz hoje, ao terminar de ver este filme, como quando acabei de escrever o Ensaio sobre a Cegueira».”

Se viu o filme “Blindness” / “Ensaio Sobre a Cegueira”de Fernando Meirelles e leu o livro de José Saramago, este diário da feitura do filme, escrito na primeira pessoa pelo próprio cineasta irá revelar-se um excelente complemento à visualização da película, se não conhecer o filme ou o livro do escritor português, estará perante um excelente convite de Fernando Meirelles para descobrir ambos.

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