segunda-feira, 14 de março de 2016

Fritz Lang - “Desengano” / “Clash by Night”



Fritz Lang - "Desengano" / "Clash By Night"
(EUA – 1952) – (106 min. - P/B)
Barbara Stanwyck, Robert Ryan. Marilyn Monroe, Paul Douglas, Keith Andes.


De todos os filmes feitos no Novo Continente pelo cineasta alemão Fritz Lang “Clash By Night” / “Desengano” é o nosso preferido, não só pela fabulosa peça de teatro de Clifford Odets que Lang adaptou ao cinema, mas também pelas interpretações dos protagonistas Barbara Stanwyck, Robert Ryan e Paul Douglas. Depois também temos a possibilidade de apreciar Marilyn Monroe, muito antes de ela ser a célebre Marilyn, repare-se na forma como ela nos surge de camisa branca e calças de ganga, linda de morrer, a sua naturalidade e alegria, muito longe de todas as outras personagens que iria criar no grande écran e o mais curioso é ela já aqui nos confessar como os diamantes mudam uma vida ou seja muito antes de eles serem os melhores amigos das raparigas (“diamonds are a girl's best friends”), quando o namorado lhe oferece um anel com um diamante, passando ela desde então a não chegar atrasada aos encontros.


No inicio do filme, enquanto o mar luta com as rochas de uma forma soberba, tendo as filmagens sido feitas em Monterrey, tirando partido dessa paisagem fabulosa da Califórnia, deparamos de imediato com a metáfora de uma luta que se irá travar, uma luta com a paixão e ainda não sabemos quem são os eleitos desta película, depois acompanhamos o regresso dos barcos da pesca ao porto e assistimos à evolução do pescado a caminho da indústria conserveira, num momento de profundo documentarismo, fazendo-nos recordar esse Mestre do género chamado John Grierson e chegamos finalmente a essa mulher que chega à pequena cidade, fugindo de um passado que teima em a perseguir.


Nada sabemos da história de Mae Doyle (Barbara Stanwyck), mas a forma como ela entra no bar e pede um café e um whisky, puxando de um cigarro de seguida, diz-nos de imediato o género de mulher que temos pela frente. Basta reparar neste diálogo entre ela e o barman: “Um whisky logo de manhã” “bebo só quando estou constipada”. E quando o pai de Jerry (Paul Douglas) entorna a bebida por cima dela, ficamos a saber que ela cresceu e viveu naquela cidade, regressando a “casa” porque já não tem outro lugar para onde ir.


Mae regressa assim à casa dos seus pais, agora habitada pelo irmão, que namora com a bela Peggy (Marilyn Monroe) e desde logo nos apercebemos que ela não é propriamente bem vinda. A pouco e pouco, ela transforma aquela casa num lar e depois decide sair com Jerry D'Ámato, dono do barco de pesca onde trabalha o irmão. Jerry vira a vida a passar por ele, tomando conta do pai e do tio e não está propriamente habituado a sair com mulheres, veja-se a forma como ele fica intimidado quando, ao ir ter a casa de Mae, a vê ainda de combinação, como se tivesse acabado de pecar. Mais tarde irá apresentá-la ao seu melhor amigo, um projeccionista de cinema chamado Earl (Robert Ryan) e quando os olhares de Mae e Earl se cruzam, ela descobre de imediato que ele é o tipo de homem que ela teme, o género de homem que ela ama e de imediato entramos nesse território minado do triângulo amoroso.


Earl (magnifico Robert Ryan) é um homem casado, mas com a mulher sempre ausente que o irá abandonar oficialmente, quando ele já fora abandonado à muito, daí o seu egoísmo e raiva perante o universo feminino, mas Mae (Barbara Stanwyck) pertence à sua tribo e ele vê de imediato nela a mulher dos seus desejos. Porém Mae só pretende obter um novo lar onde viver e cuidar de um marido mesmo que não o ame, o instinto de sobrevivência e o desejo de uma vida tranquila irá então lutar contra a paixão, essa paixão que começa a nutrir por Earl. No entanto irá casar-se com Jerry, embora ele saiba que ela não é mulher para os seus dedos, nascendo desse casamento uma criança.
Inicia-se a luta pela posse do corpo feminino por parte de Earl, ao mesmo tempo que assistimos a um duelo muito mais doce entre o irmão de Mae e Peggy (Marilyn Monroe) como contraponto ou melhor o outro lado de uma mesma moeda.

Fritz Lang dirigindo Barbara Stanwyck e Paul Douglas

Nunca Barbara Stanwyck esteve tão bela e amarga, respirando sedução por todos os poros, em luta constante com a paixão que nutre por Earl e aqui chegamos a um ponto fulcral da película. Na peça de Clifford Odets, esse grande dramaturgo americano, o marido mata o amante, era inevitável a traição, Robert Ryan possui uma presença carismática, apesar do egoísmo da personagem e no filme tal não sucede, acabando por partir abandonado pela mulher que ama e que o ama profundamente, porque ela está disposta a sacrificar tudo para conseguir obter o seu porto de abrigo. E aqui foi Fritz Lang que decidiu alterar a peça, não os produtores como era habitual nestes casos, na época dos Grandes Estúdios. E se desejam saber mais sobre o filme e sobre Fritz Lang, recomendamos vivamente a leitura dessa obra espantosa escrita por Peter Bogdanovich “Fritz Lang in América”. Não podemos deixar de recordar que Bogdanovich é um dos mais brilhantes cineastas americanos e/um excelente crítico de cinema, reconhecido pelos maiores, tendo ao longo da vida atraído inúmeras invejas porque tratava por tu, ou seja convivia, com esses génios chamados Orson Welles, John Ford e Fritz Lang entre outros.


“Desengano” de Fritz Lang é uma obra assombrosa, tal como o vinho do porto, não conseguimos ficar apenas por um cálice e à medida que (re)vemos esta película mais a amamos, sendo um dos filmes da nossa vida, o mais belo dos belos que Fritz Lang realizou na América e depois temos os actores sempre a interpretarem as suas personagens à beira do abismo, num profundo amor pela criação. “Clash By Night” é simplesmente uma Obra-Prima do Cinema que bem merece ser (re)descoberta..

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