sexta-feira, 25 de março de 2016

Fernando Pessoa – “Poesia de Álvaro de Campos"”


"Fernando Pessoa - Heterónimo" - Costa Pinheiro, 1978

Fernando Pessoa
"Poesia de Álvaro de Campos"
Assírio & Alvim, Pag. 672

Conheci o Engenheiro Álvaro de Campos numa noite de Natal em que ele me foi apresentado por Fernando Pessoa e, desde então, este heterónimo viajante das palavras entrou no meu imaginário e com ele participei em viagens através de mares nunca antes navegados. Conheci piratas e naveguei em paquetes, conheci uma rapariga inglesa loira míope, acompanhante forçada de uma tia, a caminho de Durban e convivi em noites soalheiras com um casal oriundo do novo mundo que me apresentou a poesia de Walt Whitman, como se ela fosse essa erva que acompanha o caminhante ao longo dessa estrada longa que atravessa a América de uma costa a outra, com o Pacífico de um lado a invadir o areal e as ondas do Atlântico a oferecerem a sua musicalidade às estrofes dos poetas.


"Os óculos do Poeta Álvaro de Campos - Heterónimo de Fernando Pessoa" - Costa Pinheiro, 1980


De todos os poemas descobertos nessa véspera de Natal, o meu favorito, aliás já conhecido, intitula-se “Tabacaria” e começa assim “Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
Durante décadas li este poema sempre profundamente apaixonado, assim como um outro que se iniciava com “Cruz na porta da Tabacaria”. Ao longo do tempo sempre associei estes dois poemas ao mesmo heterónimo, o saudoso Engenheiro Álvaro de Campos, tal como sucedia com a edição da Ática que me foi oferecida nesse longínquo ano de 1970 e que durante estes anos tem sido um dos meus livros de cabeceira. Ao lado de Marcel Proust e de Lawrence Durrell.

"Fernando Pessoa, ele mesmo com a minha chávena de café, um pincel e um lápis meus e a sua caneta" - Costa Pinheiro, 1980

Mas um dia fui presenteado com uma nova edição da Poesia de Álvaro de Campos organizada pela estudiosa Teresa Rita Lopes, que nos oferece um volume onde descobrimos poemas até hoje desconhecidos do mundo e que, adormecidos na famosa Arca, permaneciam escondidos de todos. Tenho que confessar o meu fascínio por este volume de cerca de 650 páginas, no entanto fiquei verdadeiramente perplexo com a ausência desse poema de Álvaro de Campos “Cruz na porta da Tabacaria”, em virtude de Teresa Rita Lopes não considerar como autor do poema o heterónimo Álvaro de Campos. Ao sair uma edição excelente da Tinta da China intitulada “Obra Completa de Álvaro de Campos” organizada por Joaquim Pizarro e António Cardiello (que também recomendo) verifiquei que o poema “Cruz na Porta da Tabacaria” fazia parte do volume e era atribuído a Álvaro de Campos, tal como sucedia na edição da Ática de “Poesias” de Álvaro de Campos.

António Costa Pinheiro

Como a liberdade de pensar é um dos bens que mais amo, porque penso, logo existo, como aprendi no programa radiofónico “O Homem no Tempo”, emitido em finais dos anos setenta no FM do RCP e onde escutei poemas do Engenheiro numa maravilhosa montagem radiofónica de João David Nunes, decidi colocar neste maravilhoso trabalho encetado pela investigadora Teresa Rita Lopes o poema que considero em falta, atribuindo-lhe a página 326-A, sem qualquer polémica, e assim usufruir o pequeno prazer de ler a poesia de Álvaro de Campos, ao mesmo tempo que recordo os belos quadros dedicados por António Costa Pinheiro ao poeta, hoje em dia um pouco esquecidos (este  genial pintor faleceu em Munique em 2015), mas que permanecem bem vivos no meu pequeno universo. Aqui vos deixo o poema “Cruz na Porta da Tabacaria” do Engenheiro Naval Álvaro de Campos e alguns quadros da autoria de António Costa Pinheiro dedicados a Fernando Pessoa:


 "O chapéu - heterónimo do poeta Fernando Pessoa" - Costa Pinheiro, 1980



Cruz na Porta

Cruz na porta da Tabacaria!
Quem Morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da Tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou

Mas ao menos a ele alguém o via.
Ele era fixo, eu, o que vou.
Se morrer, não falto, e ninguém diria.
Desde ontem a cidade mudou.


Álvaro de Campos

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