quinta-feira, 31 de março de 2016

Albert Camus – “O Estrangeiro” / "L'Étranger"


Albert Camus
"O Estrangeiro" 
Livros do Brasil, Pag. 88

De todos os livros escritos por Albert Camus ao longo da sua vida, o mais célebre de todos é “O Estrangeiro” / “L’Étranger”, datada de 1942 e que Luchino Visconti irá levar ao cinema em 1967, com Marcello  Mastroianni na figura de Meursault (a personagem central do romance) e Anna Karina a dar rosto a Marie Cardona.
Albert Camus que nasceu em Argel, teve uma infância onde a falta de meios económicos era uma constante já que o pai morrera na Primeira Grande Guerra; foram dois dos seus professores que conseguiram convencer a sua mãe a deixar que ele fosse fazer os estudos liceais, quando o seu destino era ir trabalhar na oficina do tio, para ajudar no sustento da família. A sua obra literária e filosófica irá ser marcada decididamente pela doença que o acompanhou ao longo da vida: a tuberculose, levando-o sempre a interrogar-se sobre esse frágil fio que nos liga à vida e nos separa da morte.


 “O Estrangeiro” / “L’Étranger” de Albert Camus, quando viu a luz do dia das livrarias, revelou-se um enorme sucesso do público e da crítica, tendo Jean-Paul Sartre escrito o seguinte: “Mal saíra dos prelos, O Estrangeiro de Camus obteve a maior aceitação. Toda a gente dizia que «era o melhor livro desde o armistício». No meio da produção literária desse tempo, este romance era, ele próprio, um estrangeiro. Chegava-nos do ouro lado da linha, da outra banda do mar; falava-nos do Sol, nessa amarga Primavera sem carvão, não como uma maravilha exótica mas sim com a cansada familiaridade daqueles que por de mais o gozaram; não era sua preocupação o sepultar mais uma vez o antigo regime nem o penetrar com o sentimento da nossa indignidade; ao lê-lo lembrávamo-nos de que outrora haviam existido obras que pretendiam valer por si próprias e que não queriam provar o que quer que fosse.”.

Marcello Mastroianni no filme de Luchino Visconti "O Estrangeiro", a genial adaptação ao cinema do livro de Albert Camus

Quando olhamos a história da vida de Mersault, essa personagem quase anónima criada por Albert Camus, que habita nos intervalos da chuva, descobrimos esse reino do absurdo em que o mero acaso de um gesto termina com uma vida e uma condenação que pretende ser um exemplo, nessa Argel ainda colónia francesa, em que tudo irá servir para condenar o estrangeiro na sua própria pátria.
Desde o facto de não ter chorado no funeral da mãe, até o ter ido com uma mulher no dia seguinte ao cinema ver um filme com o Fernandel (uma comédia!), serve de acusação. Mas a forma como este anti-herói aceita o seu destino, tão profundamente kafkiano, oferece-nos o triunfo do absurdo.
Recorde-se que o mundo e a vida para Mersault já não tem qualquer significado e a forma como ele encara o seu destino demonstra bem que ele já não se reconhece como ser humano, ficando indiferente a tudo e todos, simplesmente esperando a hora da partida.
Se olharmos o mundo sentados numa esplanada, vendo a vida a passar, quantos Mersault se cruzam connosco, indiferentes à passagem das horas.


Albert Camus e Jean-Paul Sartre, que mantiveram uma sólida amizade durante dez anos (1942-1952), irão ficar conhecidos para a História como os amigos desavindos, após a publicação por Camus de “O Homem Revoltado” / “L’Homme Révolté” em que critica a União Soviética, após esta ter invadido a Hungria.

Em 1957 Albert Camus recebeu o Prémio Nobel da Literatura e, curiosamente, no discurso de agradecimentos não se esqueceu de referir os dois professores que em Argel convenceram a sua mãe a  deixá-lo prosseguir com os estudos, revelando desta forma bem simples o homem que sempre foi: um humanista. Três anos depois, em Janeiro de 1960, irá sofrer um acidente rodoviário, quando o carro que conduzia de regresso a Paris se despistou provocando a sua morte de imediato. Na sua mala trazia um romance autobiográfico, que confessara aos amigos mais próximos, cujo destino seria ficar por terminar. Albert Camus é uma figura incontornável do Universo Literário e as suas obras permanecem uma excelente fonte de meditação sobre a existência humana e o mundo que nos rodeia.


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