domingo, 20 de março de 2016

Frederick Wiseman - “A Dança” / “La Danse – Le Ballet de L’Ópera de Paris”


Frederick Wiseman – "A Dança" / "La Danse - Le Ballet de L'Ópera de Paris"
(EUA – 2009) – (159 min. / Cor)
Brigitte Lefévre, Emile Cozette, Aurelie Dupont, Dorothée Gilbert.

Frederick Wiseman, um dos maiores nomes do documentarismo norte-americano, que já conta a bonita idade de 86 anos (aliás, nasceu a 1 de Janeiro de 1930), iniciou a sua actividade em 1967 com a película “Titicut Folies”, demonstrando desde logo ser possuidor de um olhar bem distinto no interior da vertente documentarista, ao mesmo tempo que iria possuir uma certa apetência para filmar as Instituições e o seu funcionamento, fossem elas Escolas, Hospitais, Tribunais, Exercito, Prisões, afirmando também não gostar do termo “cinema-vérite”, tantas vezes aplicado ao documentário.


Será no ano de 1995 que Frederick Wiseman irá abordar pela primeira vez o universo da dança, filmando o American Ballet Theater, numa película intitulada precisamente “Ballet – American Ballet Theater” a cujo tema irá retornar 14 anos depois com “La Danse – Le Ballet de L’Ópera de Paris”. Curiosamente, o cineasta que tem privilegiado o continente americano na sua filmografia, estivera em 1996 em Paris para nos oferecer o seu olhar sobre o Teatro, numa obra intitulada “La Comédie Francaise  or L’amour joué”, representando este seu penúltimo filme uma espécie de regresso a Paris. No início de “La Danse – Le Ballet de L’Ópera de Paris” são-nos oferecidas imagens da capital parisiense a partir das janelas situadas no topo da Ópera Garnier, convidando-nos desde logo a conhecer esse traçado fabuloso da capital francesa, elaborado pelo Barão Haussmann.


 Frederick Wiseman

Após esta introdução, em que o cineasta nos situa o edifício da Ópera na capital francesa, mergulhamos com ele nas catacumbas, percorrendo os subterrâneos, para depois lentamente irmos mergulhando no interior do próprio Teatro da Ópera e descobrimos nele os seus protagonistas; recorde-se que para Wiseman todos são importantes, desde a directora Brigitte Lefèvre, aos encenadores, passando pelos bailarinos e terminando no pessoal administrativo ou melhor dizendo em todos aqueles que oferecem o seu estimável contributo ao funcionamento de uma das mais famosas companhias de bailado do mundo.


O sistema proposto por Frederick Wiseman assenta na observação e não é por acaso que a sua estadia na Ópera Garnier se prolongou durante 12 semanas, ao mesmo tempo que recolhia 130 horas de filmagem e quando vimos o resultado final, nascido da montagem, esse momento sublime em que as pessoas filmadas se transformam em personagens, percebemos como o olhar do cineasta é profundo, dispensando essa irritante voz-off que tanto contagia o documentarismo nos dias de hoje, de forma bastante negativa, porque as imagens devem sempre falar por si, revelando assim a sua força e a genialidade do seu autor.


Iremos assim acompanhar as deambulações de Frederick Wiseman e da sua câmara pela Ópera Garnier, para descobrirmos como respira a dança no seu interior. Vamos vendo ensaios e excertos de diversos espectáculos, mas também essa luta entre encenador e bailarinos, ao mesmo tempo que descobrimos através de Brigitte Lefèvre as dificuldades sempre existentes em elaborar os programas, onde o clássico e o contemporâneo subsistem em alegre convívio, mas também mergulhamos nas questões administrativas, para sabermos como é importante o Mecenato para a sobrevivência de uma Instituição desta dimensão.
Por outro lado percebemos bem como é dura a vida de todos os que escolhem o ballet como profissão, ficando-se a saber que o apogeu de um bailarino surge por volta dos vinte e cinco anos, ao mesmo tempo que um sindicalista nos conta indirectamente, já que se encontra a falar com os bailarinos e não para a câmara, a sua luta pela reforma aos quarenta anos junto das Instâncias Governamentais.


 O famoso tecto da Ópera Garnier pintado por Marc Chagal

Não podemos também deixar de referir a forma como Frederick Wiseman filma todas as fases de trabalho no interior do Teatro, desde a costura dos fatos, passando pela limpeza no interior do edifício, focando todo o trabalho de composição da cena ou seja a estrutura dos cenários, os aspectos da iluminação, até chegar a esse momento em que vai espantar o espectador ao mostrar-nos um homem a colher mel de uma colmeia, no topo do telhado da Ópera Garnier. Se o leitor for visitar o edifício da Ópera Garnier irá encontrar na loja do Teatro, precisamente, frascos de mel com o rótulo Ópera Garnier e não se esqueça de admirar o fabuloso tecto da sala, pintado por Marc Chagall, que Wiseman também nos oferece no filme, mas que poderia ser de uma duração superior e mais em pormenor.


Frederick Wiseman revela-nos nesta película o seu método criativo, no qual sentimos a respiração das imagens e a magia do Ballet em todo o seu esplendor, porque com ele desvendamos um universo único, percorrendo os rios da vida, seja qual for o seu caudal ou os seus intérpretes, que inevitavelmente irão confluir nesse palco maravilhoso intitulado “La Danse – Le Ballet de L’Ópera de Paris”.


Ópera Garnier em Paris

2 comentários:

  1. Um documentário belissimo, sobre um edifício e a arte no seu interior! Foi um prazer o dia em que vi ao vivo o edifício da Ópera e recordá-lo nesta obra valeu a pena!

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  2. O filme de Wiseman leva-nos a visitar este belo edifício, em todos os seus aspectos, incluindo as famosas colmeias, existentes no telhado e cujo mel se pode comprar na própria Ópera Garnier. Um filme fabuloso!
    Beijinhos e obrigado pelo comentário

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