terça-feira, 22 de março de 2016

Joseph L. Mankiewicz - “A Condessa Descalça” / "The Barefoot Contessa”


Joseph L. Mankiewicz – "A Condessa Descalça" / "The Barefoot Contessa"
(EUA – 1954) – (128 min. / Cor)
Humphrey Bogart, Ava Gardner, Edmond O’Brien, Marius Goring, Rossano Brazi, Warren Stevens, Valentina Cortese.


No dia em que se realiza o funeral da condessa Torlato-Favrini, chove intensamente no cemitério. Ao longo do filme iremos conhecer a sua vida, através daqueles que conviveram com ela e que ali se encontram a prestar a sua última homenagem.
Joseph L. Mankiewicz, esse génio do cinema, irá assim construir em longos e perfeitos “flash-back” a história dessa Cinderela, que nunca irá conhecer a felicidade na estrada da vida.


Maria Vargas (Ava Gardner) é a estrela de um cabaret em Espanha que nunca se senta à mesa com os clientes, mesmo quando eles são americanos que vieram de Hollywood para a verem. Harry Dawes (Humphrey Bogart) é o cineasta, que em tempos tivera problemas com o álcool, que acompanha o milionário e poderoso produtor Kirk Edwards (Warren Stevens) cujo dinheiro tudo compra e basta vermos a forma como ele trata o subserviente Óscar Muldoon (Edmond O’Brien), para sabermos o que ele pensa da condição humana. Mas Maria Vargas está acima dele e será Harry Dawes a conseguir convencê-la a partir para Hollywood, para fazer os célebres “screen-test”.


Ao verem-na no écran, todos ficam de imediato fascinados por ela e se Kirk Edwards pensa que ela é sua propriedade, depois do sucesso nascer no écran, ela irá provar como ele estava redondamente enganado quando, numa festa dada no seu apartamento, ela decide partir com o milionário Alberto Bravano (Marius Goring), que de imediato tudo irá fazer para lhe oferecer um mundo de sonho, exibindo-a como se ela fosse uma presa sua, apesar de ela o desprezar à vista de todos.
Ela nunca irá esconder as suas origens humildes, gostando de conviver com os da sua condição, onde aliás escolhe os seus amantes, porque só eles lhe podem oferecer esse território da liberdade, onde o amor vive em cada noite clandestina. Ao longo dos anos ela terá em Harry Dawes (Humphrey Bogart), o cineasta que a deu a conhecer ao mundo, o seu melhor amigo e confessor, o homem que a admira e a trata como se ela fosse uma filha,


Esta Cinderela que gosta de andar descalça, irá ser vista um dia a dançar com um grupo de ciganos pelo Conde Torlato-Favrini (Rossano Brazi) à beira da estrada, perto de Monte Carlo e sem ambos saberem, os seus destinos irão cruzar-se pouco depois no Casino.
Tudo indica que esta Cinderela encontrou finalmente o seu Príncipe Encantado, como nas fábulas, mas a realidade nunca é um conto de fadas e será na noite de núpcias que ela irá conhecer o terrível segredo que esconde o marido: um ferimento de guerra tornara-o impotente.


A tragédia que sempre rondara a vida de Maria Vargas aproxima-se da sua presa e quando ela confessa a Harry Dawes, que a conhece melhor do que ninguém, que planeia dar um herdeiro ao homem que ama, ele percebe como ela se aproxima perigosamente do abismo. E Torlato-Favrini desconhecendo as razões do adultério da esposa irá matá-la, não lhe perdoando esse pecado cometido por amor.


A forma como Joseph L. Mankiewicz nos narra esta história moderna da Cinderela é de um rigor absoluto, ao mesmo tempo que nos mergulha nesse território do cinema que tão bem conhece, onde tantas vidas foram consumidas, porque como todos sabemos a distância entre a fama e a perdição é tão curta que muitos não conseguem sobreviver ao insucesso.
Curiosamente, no argumento escrito por Mankiewicz, o conde Torlato-Favrini é homossexual, mas na época o cineasta-argumentista viu-se obrigado a não seguir por este caminho, certamente demasiado problemático para os Estúdios, com a censura sempre à espera de uma oportunidade para agir em “nome dos bons costumes”.


“The Barefoot Contessa” oferece-nos uma direcção de actores extraordinária e se Humphrey Bogart e Ava Gardner estão como peixes na água, a composição de Edmond O’Brien, esse relações públicas para todo o serviço, é soberba, tendo aliás ganho o Óscar para o Melhor Actor Secundário. Depois, como não podia deixar de ser, a realização/e o argumento de Mankiewicz é mais-que-perfeita transformando “A Condessa Descalça” numa das suas obras-primas, um “género” que o cineasta sempre cultivou, até mesmo quando “Cleópatra” se transformou num colossal desastre financeiro.

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