quarta-feira, 30 de março de 2016

Jean-Luc Godard - “Paixão” / “Passion”


Jean-Luc Godard – "Paixão" / "Passion"
(FRANÇA/SUIÇA – 1982) – (88 min. / Cor)
Isabelle Huppert, Hanna Schygula, Michel Piccoli, Jerzy Radziwilowicz.

Escrever sobre um filme de Godard é a impossibilidade que se instala na escrita. E dizemos impossibilidade, porque o seu cinema é uma paisagem de imagens e sons, palavras e luz, onde as citações (históricas) se cruzam, transparentes, de tal forma que a sua metamorfose é inatingível no universo da escrita.
(Escre)ver “Paixão” só é (im)possível retirando fragmentos de imagens da memória do cinema. Jean-Luc Godard é o autor exemplar, desde o momento em que inventou o primeiro fotograma de “Opération Béton” (1954 - seu primeiro filme). Desde esse dia o seu cinema constrói as mais belas composições, como se estivéssemos perante um compositor apaixonado pela música de câmara, compondo os seus quartetos até chegar esse momento capital em que nasce essa obra monumental intitulada "Histoires du Cinéma" / "Histórias do Cinema", que está para a Sétima Arte como "A Canção da Terra" estava para Mahler(*). Só assim é possível compreender o cinema de Jean-Luc Godard, que ao longo dos anos tem interrogado o estado do mundo, a situação do cinema e a condição humana. Como disse George Sadoul: “há um cinema antes e depois de Godard”.


Alguns fragmentos de “Paixão”:

Primeiro Fotograma – O azul é a cor da Paixão. Uma linha pura, branca, talvez virgem, como Isabelle, invade o azul do céu e introduz os heróis de Godard, sem palavras, somente o som de “uma imagem justa, justamente uma imagem”.

Segundo Fotograma – Jerry, cineasta polaco, reconstitui em Estúdio alguns quadros célebres (Delacroix, Goya, etc), mas não tem uma história. O produtor exige uma história. Mas a luz de Jerzy é a luz do Cinema e não a luz da Pintura. As filmagens não avançam.

Terceiro Fotograma – Hanna possui um hotel, vive com o marido, dono de uma fábrica, onde Jerzy, seu amante, recruta figurantes. E quando o cineasta a convida a participar no filme, ela recusa, porque despir-se perante uma câmara é estar demasiado próximo do amor, é essa impossibilidade que se instala no seu corpo.


Quarto Fotograma – Isabelle é operária, trabalha na fábrica do marido de Hanna. Acaba por ser despedida. Ela também ama Jerzy e o cineasta é um homem dividido na paixão. Daí a razão de ele dizer que “é preciso inventar a paixão antes de a vivermos”.

Quinto Fotograma – O patrão, marido de Hanna, é perseguido pelos credores e as operárias, mas acaba sempre por dominar a situação, excepto a sua própria condição de marido/e poder.


Sexto Fotograma – Quando Hanna e Isabelle se encontram pela primeira vez é o conflito que se instala, ainda a luta de classes ou talvez não? Mas a imagem que nos envia para essa situação de luta é o retrovisor do carro de Hanna, paisagem cinzenta, deserta, que se confunde com a distância que separa Jerzy do seu país.

Sétimo Fotograma – A luz ilumina e esconde o rosto de Isabelle, enquanto o discurso político se instala, mas a luz transforma o olhar na pintura e os planos que a câmara fixa são os quadros que se criam, não com o discurso, mas sim com a paixão.


Oitavo Fotograma – Hanna olha o vídeo como um espelho, onde o seu corpo é o reflexo da imagem que Jerzy deseja, manipula, corrompe, possuindo a paixão que trabalha.

Nono Fotograma – Hanna e Isabelle partem juntas, Jerzy também parte. Destino, o mesmo: Polónia. O presente talvez passado, o presente ainda futuro.

 “Paixão” é um filme que não tem “história”. Mas no cinema há sempre uma história, será que estamos necessariamente no cinema? Será o cinema uma fábrica ou simplesmente um local onde se contam histórias?


- Conheces o filme “Paixão” de Jean-Luc  Godard?
- Não! Qual é a história?

(*) - E aqui não há o receio Mahleriano da condição trágica em que Beethoven escreveu a sua derradeira Sinfonia, porque Jean-Luc Godard continua a ser o "enfant terrible" da Sétima Arte.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Howard Hawks - “Rio Bravo”




Howard Hawks – "Rio Bravo"
(EUA – 1959) – (137 min. / Cor)
John Wayne, Dean Martin, Angie Dickinson, Walter Brenan, Ricky Nelson, Ward Bond.



“Rio Bravo” foi o terceiro “western” dos cinco realizados por Howard Hawks, surgindo nesse ano de 1959, numa época em que o célebre sistema dos Estúdios estava a findar.
Numa entrevista o cineasta afirmou que pretendia fazer um “western clássico”, em oposição ao “western psicológico” que estava a fazer escola por esses dias. E nada melhor do que convocar para esse efeito o mais célebre “cow-boy” de sempre, John Wayne, que aqui veste a pele do xerife John T. Chance. John Wayne esse que conheceu a fama ao protagonizar a película “Cavalgada Heróica” / Stagecoach”  de John Ford, mas aqui será a interpretação de Dean Martin que ficará na memória de todos na figura de Dude, o mais cativante personagem do filme, já que a sua composição de homem refém da bebida é, sem dúvida alguma, a sua melhor interpretação no cinema.


Quando no início do filme o encontramos no bar, preso da humilhação, hesitando em tirar o dollar do escarrador, para beber o whisky que tanta falta lhe faz, percebemos que aquele antigo ajudante do xerife chegou ao ponto mais baixo da sua existência. E ao longo da película iremos assistir à sua luta contra o vício, sempre oferecida por Howard Hawks de forma perfeita e dolorosa, porque sentimos o que vai na alma de Dude (Dean Martin).


Ao prender Joe Burdette pela morte de um homem, John T. Chance (John Wayne) vai enfrentar o irmão do assassino, o poderoso rancheiro Nathan Burdette que tudo fará, com a ajuda dos seus pistoleiros, para libertar o irmão. Desta forma iremos assistir ao longo de seis dias à luta de quatro homens para impor a lei nesse Oeste ainda selvagem, onde a perícia do mais rápido ditava tantas vezes a lei.
John T. Chance, para além de Dude, conta com o velho Stumpy (Walter Brennan em mais uma excelente interpretação) e um jovem pistoleiro de nome Colorado (Ricky Nelson), que entretanto se lhes juntou, porque gosta de acção.


Durante esses dias iremos também conhecer um outro duelo, tantas vezes mais perigoso, entre John T. Chance (John Wayne) e a jovem Feathers (Angie Dickinson) que por ali ficou em busca de um lugar para viver, percebendo-se bem qual a sua profissão. Ela, que também conhece as agruras da vida, irá seduzir com sucesso o velho xerife, tendo ficado célebre a sequência em que surge terrivelmente sensual, com as suas meias pretas.


Ao longo da película, Howard Hawks pontua o dramatismo com o humor, aligeirando desta forma a dramatização, através do casal mexicano que dirige o hotel. E quando por fim a lei vence, percebemos que o homem que a personifica caiu decididamente na teia que a bela Feathers foi tecendo em seu redor.


Mais de meio século depois, “Rio Bravo” de Howard Hawks permanece como um dos mais belos “westerns” que Hollywood nos ofereceu, revelando a quem o vê a essência desse genial cinema clássico norte-americano..

Nota: – Muitos anos depois o cineasta John Carpenter irá evocar este filme ao realizar “Assalto à 13ª Esquadra” / "Assault on Precinct 13".

sábado, 26 de março de 2016

Ulu Grosbard - “Encontro com o Amor” / “Falling in Love”


Ulu Grosbard - "Encontro com o AMor" / "Falling in Love"
(EUA - 1984) – (106 min. / Cor)
Robert de Niro, Meryl Streep, Harvey Keitel.

Quando dois actores como Robert de Niro e Meryl Streep se encontram em “Falling in Love”, não é o trabalho do cineasta que nos interessa, mas sim o trabalho dos actores. Escrevemos desta forma porque o que nos motiva na visão do filme não é a realização de Ulu Grosbard, que faz o “remake” do fabuloso “Breve Encontro” / “Brief Encounter”  (1945) de David Lean, adaptando-a de forma muito livre aos tempos modernos.


Poderíamos até dizer que Ulu Grosbard simplesmente nos informa que os nova-iorquinos gostam muito da 5ª Avenida e da Rua 57, comprando os seus livros na Livraria Rizzoli, além de o Natal ser a melhor época para encontros, isto para além de nos fornecer os horários dos comboios que partem de Ardsley/Dobbs Ferry, mas vamos ao que nos interessa… o trabalho dos actores!


“Encontro com o Amor”/”Falling in Love” não é só um daqueles filmes para se programar para ver no Natal com a família, ele é acima de tudo um soberbo trabalho de Meryl Streep e Robert de Niro habitando as armadilhas do amor, enquanto o tempo passa e o futuro desconhecido se aproxima. Recorde-se, para quem não conhece a genial película do britânico David Lean, que “Breve Encontro” / “Brief Encounter” possui um final bem diferente do escolhido pelos Estúdios Americanos, nele não há “Happy Endings”, como nos canta Liza Minelli em “New York New York” de Martin Scorsese, mas sim o melodrama na sua essência, devastador e comovente.


Quando duas pessoas se encontram, depois de se cruzarem diariamente sem se ver, desenvolvendo os sentimentos necessários à construção de um grande amor, é impossível não interrogar o momento presente e o seu núcleo familiar. Será que vale a pena arriscar uma vida dupla ou uma nova vida? A resposta está no argumento do filme, mas é na vida diária, no mundo turbulento de que fazemos parte, que iremos encontrar esse rosto perdido no meio da multidão, sorrindo para nós através de um olhar cristalino, perdição de uma vida por um lado, mas oferecendo por outro o grande amor da nossa vida.


“Encontro com o Amor” / “Falling in Love” não é mais um melodrama moderno de Hollywood, revisitando os Clássicos, mas sim uma película para sentir e viver ao lado desses dois grandes actores chamados Meryl Streep e Robert de Niro.

"Happy Endings"

quinta-feira, 24 de março de 2016

Wim Wenders - “O Amigo Americano” / “Der Amerikanisch Freund”




Wim Wenders – "O Amigo Americano" / "Der Amerikanische Freund"
(ALE/FRA – 1977) – (125 min. / Cor)
Dennis Hooper, Bruno Ganz, Lisa Kreuzer, Gerard Blain, Nicholas Ray, Samuel Fuller, Daniel Schmid, Peter Lilienthal, Jean Eustache.



Foi com “O Amigo Americano” / “Der Amerikanisch Freund” que Wim Wenders se tornou conhecido e amado por muitos cinéfilos, este cineasta alemão oriundo da crítica, convoca para este filme Nicolas Ray, um cineasta por quem tem uma enorme admiração, oferecendo também pequenos papéis a outros realizadores como Samuel Fuller, Jean Eustache, Daniel Schmid, Peter Lilienthal e Gerard Blain (lembram-se dele em “Hatari!” de Howard Hawks?), para além de Dennis Hopper também ele cineasta (recordam-se de “Easy Rider” ou “Out of the Blue?), embora seja mais conhecido como actor.


Por outro lado, foi nesta película que descobrímos o enorme talento desse actor chamado Bruno Ganz que, embora seja suíço, fez a sua carreira no denominado “Novo Cinema Alemão” e, certamente, muitos se recordam dele nessa “Cidade Branca” chamada Lisboa, que Alain Tanner nos ofereceu um dia, para já não falar nessa sua espantosa interpretação de Hitler em “A Queda”.
Depois nunca é demais mencionar a presença de Lisa Kreuzer, um dos grandes nomes femininos do Cinema Alemão Contemporâneo que com Hanna Schygulla, Eva Mattes e Barbara Sukowa, deram rosto a inúmeras personagens desse cinema que nos maravilhou desde que nasceu através do célebre Manifesto de Oberhausen, onde foram traçadas as linhas pragmáticas do que se viria a chamar o “Novo Cinema Alemão”.


Partindo de um romance de Patrícia Highsmith, recorde-se que ela é a autora do famoso “O Desconhecido do Norte-Expresso” que Hitchcock adaptou ao cinema, Wim Wenders deu vida a essa personagem imoral chamada Tom Ripley (Dennis Hopper), havendo mais dois filmes nascidos desse anti-herói, onde John Malkovich e Matt Damon também nos ofereceram o rosto da célebre personagem do romance policial.


Iremos assim encontrar Tom Ripley nessa Nova Iorque onde ainda viviam as famosas Torres Gémeas, no apartamento de Derwatt (Nicolas Ray), a ver como decorrem os trabalhos do famoso pintor, para mais tarde o encontrarmos em Hamburgo, numa das suas actividades favoritas, a especulação e vigarice no mundo da Arte, vendendo quadros deste pintor que o mundo da Arte julga ter falecido. Mas a vista do pintor já não é a mesma e Jonathan Zimmermann, um pequeno restaurador de Hamburgo que assiste ao leilão, percebe que aquele azul (o célebre azul cobalto que o tornou célebre) já não é o mesmo.


Ripley, na sala, escuta o comentário de Zimmermann e, depois de lhe ser apresentado, toma a decisão de o usar nos seus outros negócios escuros, por onde anda a mão da máfia.
Jonathan tem uma doença no sangue incurável, sendo o seu tempo de vida muito reduzido e Tom Ripley decide, através de um gangster francês, torná-lo num assassino, em troca de o levar a outros especialistas para analisarem o seu estado de saúde, ao mesmo tempo que lhe paga pelos trabalhos efectuados, garantindo Jonathan desta forma uma “almofada económica” para a sua família.
Mas, como sucede nestas coisas, nada corre como previsto e Tom Ripley será forçado a ajudar o restaurador nos seus trabalhos muito pouco artísticos, nascendo desta forma uma espiral de violência que irá mudar para sempre a vida de todos os intervenientes.


Usando o seu habitual director de fotografia, Robby Muller, e com montagem de Peter Przygodda (outro nome forte da equipa), Wim Wenders oferece-nos um retrato de Hamburgo e da sua noite, com uma cor que nos deixa surpreendidos, ao mesmo tempo que a banda sonora de Jurgen Knieper (fixem o nome), vai dramatizando a acção da película pontuando de forma soberba o desenrolar dos acontecimentos, basta repararem nas sequências passadas no Metro Parisiense para ficar tudo dito.


Mais uma vez, como é regra em Tom Ripley, ele encontra sempre o inocente que vai usar em proveito próprio, saindo sempre ileso desse mundo do crime em que é um verdadeiro Príncipe Perfeito.
Recordar “O Amigo Americano” / “Der Amerikanisch Freund” não é só encontrar o melhor cinema de Wenders, mas também mergulhar nesse universo criado por Patrícia Highsmith, em que o herói é o assassino, esse mesmo assassino que irá sempre sobreviver a todos os seus planos maquiavélicos, como o que delineou para usar o pacato Jonathan Zimmermann.


Wim Wenders e Dennis Hooper durante a rodagem

Redescobrir o período alemão de Wim Wenders é uma aventura profundamente fascinante que recomendamos.

terça-feira, 22 de março de 2016

Joseph L. Mankiewicz - “A Condessa Descalça” / "The Barefoot Contessa”


Joseph L. Mankiewicz – "A Condessa Descalça" / "The Barefoot Contessa"
(EUA – 1954) – (128 min. / Cor)
Humphrey Bogart, Ava Gardner, Edmond O’Brien, Marius Goring, Rossano Brazi, Warren Stevens, Valentina Cortese.


No dia em que se realiza o funeral da condessa Torlato-Favrini, chove intensamente no cemitério. Ao longo do filme iremos conhecer a sua vida, através daqueles que conviveram com ela e que ali se encontram a prestar a sua última homenagem.
Joseph L. Mankiewicz, esse génio do cinema, irá assim construir em longos e perfeitos “flash-back” a história dessa Cinderela, que nunca irá conhecer a felicidade na estrada da vida.


Maria Vargas (Ava Gardner) é a estrela de um cabaret em Espanha que nunca se senta à mesa com os clientes, mesmo quando eles são americanos que vieram de Hollywood para a verem. Harry Dawes (Humphrey Bogart) é o cineasta, que em tempos tivera problemas com o álcool, que acompanha o milionário e poderoso produtor Kirk Edwards (Warren Stevens) cujo dinheiro tudo compra e basta vermos a forma como ele trata o subserviente Óscar Muldoon (Edmond O’Brien), para sabermos o que ele pensa da condição humana. Mas Maria Vargas está acima dele e será Harry Dawes a conseguir convencê-la a partir para Hollywood, para fazer os célebres “screen-test”.


Ao verem-na no écran, todos ficam de imediato fascinados por ela e se Kirk Edwards pensa que ela é sua propriedade, depois do sucesso nascer no écran, ela irá provar como ele estava redondamente enganado quando, numa festa dada no seu apartamento, ela decide partir com o milionário Alberto Bravano (Marius Goring), que de imediato tudo irá fazer para lhe oferecer um mundo de sonho, exibindo-a como se ela fosse uma presa sua, apesar de ela o desprezar à vista de todos.
Ela nunca irá esconder as suas origens humildes, gostando de conviver com os da sua condição, onde aliás escolhe os seus amantes, porque só eles lhe podem oferecer esse território da liberdade, onde o amor vive em cada noite clandestina. Ao longo dos anos ela terá em Harry Dawes (Humphrey Bogart), o cineasta que a deu a conhecer ao mundo, o seu melhor amigo e confessor, o homem que a admira e a trata como se ela fosse uma filha,


Esta Cinderela que gosta de andar descalça, irá ser vista um dia a dançar com um grupo de ciganos pelo Conde Torlato-Favrini (Rossano Brazi) à beira da estrada, perto de Monte Carlo e sem ambos saberem, os seus destinos irão cruzar-se pouco depois no Casino.
Tudo indica que esta Cinderela encontrou finalmente o seu Príncipe Encantado, como nas fábulas, mas a realidade nunca é um conto de fadas e será na noite de núpcias que ela irá conhecer o terrível segredo que esconde o marido: um ferimento de guerra tornara-o impotente.


A tragédia que sempre rondara a vida de Maria Vargas aproxima-se da sua presa e quando ela confessa a Harry Dawes, que a conhece melhor do que ninguém, que planeia dar um herdeiro ao homem que ama, ele percebe como ela se aproxima perigosamente do abismo. E Torlato-Favrini desconhecendo as razões do adultério da esposa irá matá-la, não lhe perdoando esse pecado cometido por amor.


A forma como Joseph L. Mankiewicz nos narra esta história moderna da Cinderela é de um rigor absoluto, ao mesmo tempo que nos mergulha nesse território do cinema que tão bem conhece, onde tantas vidas foram consumidas, porque como todos sabemos a distância entre a fama e a perdição é tão curta que muitos não conseguem sobreviver ao insucesso.
Curiosamente, no argumento escrito por Mankiewicz, o conde Torlato-Favrini é homossexual, mas na época o cineasta-argumentista viu-se obrigado a não seguir por este caminho, certamente demasiado problemático para os Estúdios, com a censura sempre à espera de uma oportunidade para agir em “nome dos bons costumes”.


“The Barefoot Contessa” oferece-nos uma direcção de actores extraordinária e se Humphrey Bogart e Ava Gardner estão como peixes na água, a composição de Edmond O’Brien, esse relações públicas para todo o serviço, é soberba, tendo aliás ganho o Óscar para o Melhor Actor Secundário. Depois, como não podia deixar de ser, a realização/e o argumento de Mankiewicz é mais-que-perfeita transformando “A Condessa Descalça” numa das suas obras-primas, um “género” que o cineasta sempre cultivou, até mesmo quando “Cleópatra” se transformou num colossal desastre financeiro.

domingo, 20 de março de 2016

Frederick Wiseman - “A Dança” / “La Danse – Le Ballet de L’Ópera de Paris”


Frederick Wiseman – "A Dança" / "La Danse - Le Ballet de L'Ópera de Paris"
(EUA – 2009) – (159 min. / Cor)
Brigitte Lefévre, Emile Cozette, Aurelie Dupont, Dorothée Gilbert.

Frederick Wiseman, um dos maiores nomes do documentarismo norte-americano, que já conta a bonita idade de 86 anos (aliás, nasceu a 1 de Janeiro de 1930), iniciou a sua actividade em 1967 com a película “Titicut Folies”, demonstrando desde logo ser possuidor de um olhar bem distinto no interior da vertente documentarista, ao mesmo tempo que iria possuir uma certa apetência para filmar as Instituições e o seu funcionamento, fossem elas Escolas, Hospitais, Tribunais, Exercito, Prisões, afirmando também não gostar do termo “cinema-vérite”, tantas vezes aplicado ao documentário.


Será no ano de 1995 que Frederick Wiseman irá abordar pela primeira vez o universo da dança, filmando o American Ballet Theater, numa película intitulada precisamente “Ballet – American Ballet Theater” a cujo tema irá retornar 14 anos depois com “La Danse – Le Ballet de L’Ópera de Paris”. Curiosamente, o cineasta que tem privilegiado o continente americano na sua filmografia, estivera em 1996 em Paris para nos oferecer o seu olhar sobre o Teatro, numa obra intitulada “La Comédie Francaise  or L’amour joué”, representando este seu penúltimo filme uma espécie de regresso a Paris. No início de “La Danse – Le Ballet de L’Ópera de Paris” são-nos oferecidas imagens da capital parisiense a partir das janelas situadas no topo da Ópera Garnier, convidando-nos desde logo a conhecer esse traçado fabuloso da capital francesa, elaborado pelo Barão Haussmann.


 Frederick Wiseman

Após esta introdução, em que o cineasta nos situa o edifício da Ópera na capital francesa, mergulhamos com ele nas catacumbas, percorrendo os subterrâneos, para depois lentamente irmos mergulhando no interior do próprio Teatro da Ópera e descobrimos nele os seus protagonistas; recorde-se que para Wiseman todos são importantes, desde a directora Brigitte Lefèvre, aos encenadores, passando pelos bailarinos e terminando no pessoal administrativo ou melhor dizendo em todos aqueles que oferecem o seu estimável contributo ao funcionamento de uma das mais famosas companhias de bailado do mundo.


O sistema proposto por Frederick Wiseman assenta na observação e não é por acaso que a sua estadia na Ópera Garnier se prolongou durante 12 semanas, ao mesmo tempo que recolhia 130 horas de filmagem e quando vimos o resultado final, nascido da montagem, esse momento sublime em que as pessoas filmadas se transformam em personagens, percebemos como o olhar do cineasta é profundo, dispensando essa irritante voz-off que tanto contagia o documentarismo nos dias de hoje, de forma bastante negativa, porque as imagens devem sempre falar por si, revelando assim a sua força e a genialidade do seu autor.


Iremos assim acompanhar as deambulações de Frederick Wiseman e da sua câmara pela Ópera Garnier, para descobrirmos como respira a dança no seu interior. Vamos vendo ensaios e excertos de diversos espectáculos, mas também essa luta entre encenador e bailarinos, ao mesmo tempo que descobrimos através de Brigitte Lefèvre as dificuldades sempre existentes em elaborar os programas, onde o clássico e o contemporâneo subsistem em alegre convívio, mas também mergulhamos nas questões administrativas, para sabermos como é importante o Mecenato para a sobrevivência de uma Instituição desta dimensão.
Por outro lado percebemos bem como é dura a vida de todos os que escolhem o ballet como profissão, ficando-se a saber que o apogeu de um bailarino surge por volta dos vinte e cinco anos, ao mesmo tempo que um sindicalista nos conta indirectamente, já que se encontra a falar com os bailarinos e não para a câmara, a sua luta pela reforma aos quarenta anos junto das Instâncias Governamentais.


 O famoso tecto da Ópera Garnier pintado por Marc Chagal

Não podemos também deixar de referir a forma como Frederick Wiseman filma todas as fases de trabalho no interior do Teatro, desde a costura dos fatos, passando pela limpeza no interior do edifício, focando todo o trabalho de composição da cena ou seja a estrutura dos cenários, os aspectos da iluminação, até chegar a esse momento em que vai espantar o espectador ao mostrar-nos um homem a colher mel de uma colmeia, no topo do telhado da Ópera Garnier. Se o leitor for visitar o edifício da Ópera Garnier irá encontrar na loja do Teatro, precisamente, frascos de mel com o rótulo Ópera Garnier e não se esqueça de admirar o fabuloso tecto da sala, pintado por Marc Chagall, que Wiseman também nos oferece no filme, mas que poderia ser de uma duração superior e mais em pormenor.


Frederick Wiseman revela-nos nesta película o seu método criativo, no qual sentimos a respiração das imagens e a magia do Ballet em todo o seu esplendor, porque com ele desvendamos um universo único, percorrendo os rios da vida, seja qual for o seu caudal ou os seus intérpretes, que inevitavelmente irão confluir nesse palco maravilhoso intitulado “La Danse – Le Ballet de L’Ópera de Paris”.


Ópera Garnier em Paris

sexta-feira, 18 de março de 2016

John Byrum - “Um Bater de Corações” / “Heart Beat”


John Byrum – "Um Bater de Corações" / "Heart Beat"
 (EUA – 1980) – (110 mi. / Cor)
Nick Nolte, Sissy Spacek, John Heard, Ray Sharkey.

Quando John Byrum nos ofereceu o memorável "Heart Beat"/"Um Bater de Corações", tendo como pano de fundo a relação desse trio sonhador composto por Jack Kerouac, Neal Cassidy e Caroline Cassidy, ao mesmo tempo que nos dava o retrato fascinante da geração Beatnick, ficámos de imediato apaixonados por esta película inesquecível.
Por outro lado o cineasta de “Um Bater de Corações” / “Heart Beat” constrói um verdadeiro estudo cinematográfico sobre a célebre criação literária desse livro/mito intitulado "On The Road"/"Pela Estrada Fora" da autoria de Jack Kerouac, o mais célebre escritor da geração Beat que, após colocar um rolo de telex na sua máquina de escrever, decide contar-nos a sua vida fascinante, criando em simultâneo um espantoso retrato da contra-cultura norte-americana desse período, dando por terminado o livro quando chegou ao fim do rolo de telex. Iremos depois acompanhar os esforços do escritor em busca de um editor, até chegar esse momento em que o seu estilo de vida será devorado pela fama.


Os actores que dão vida às personagens são os inesquecíveis Nick Nolte (Neal Cassidy), John Heard (Jack Kerouac) e Sissy Spacek (Caroline Cassidy), que encarnam de forma superlativa as personagens. E convém sempre referir que o argumento de “Um Bater de Corações” / “Heart Beat” assinado por John Byrum,  foi escrito não a partir das obras de Jack Kerouac, mas sim do livro de memórias de Caroline Cassidy, sendo ela a narradora da película, livro esse de uma sensibilidade inesquecível, que nos oferece a relação existente entre estas três pessoas ao longo dos anos, onde a amizade e o amor se encontram nessa famosa encruzilhada da vida, em que dois amigos amam a mesma mulher e essa mulher, baptizada com o nome de Caroline Cassidy, tem por ambos o mesmo amor. E será o acaso da vida que irá ditar o seu destino, num dos momentos mais dramáticos da película. Afinal esse seu sonho do Príncipe Encantado que conhecemos pela sua voz no início do filme nunca se irá realizar.


A direcção de actores de John Byrum é soberba e John Heard, ao vestir a pele de Jack Kerouac, oferece-nos o seu melhor desempenho de sempre como actor de cinema, por outro lado Nick Nolte compõe uma personagem repleta de magia, que nos agarra desde o primeiro minuto, estando ao nível desse seu desempenho em “Life Lessons”, o segmento de NewYork Stories assinado por Martin Scorsese, ao mesmo tempo que Sissy Spacek surge aqui como esse reflexo da sensibilidade feminina dividida pelo amor que nutre pelos dois amigos, revelando-se a sua transfiguração ao longo do filme, à medida que os anos vão passando, e em que acabaremos por escutar essa pergunta quase no final que Jack (John Heard) lhe faz: “o que fizemos de errado?”, numa altura em que Neal já partira para o México, numa carrinha VW com Ken Kesey (futuro escritor de “Voando Sobre um Ninho de Cucos”), na companhia de um grupo de hippies.


“Um Bater de Corações” / “Heart Beat” de John Byrum é um filme inesquecível, um desses diamantes que se guardam para sempre nesse cofre cinematográfico da Sétima Arte, onde a Literatura respira também em cada fotograma, e cuja visão nos transporta de novo a essa época em que sonhávamos que tínhamos o mundo na palma da mão e partíamos pela estrada fora.


 Jack Kerouac. Lucien Carr e Allen Ginsberg

Nota: A personagem Ira Steiker interpretada pelo actor Ray Sharkey, que surge em “Heart Beat” / “Um Bater de Corações”, personifica o poeta Allen Ginsberg, autor desses geniais poemas manifestos intitulados “O Uivo” e “America”, que será um dos grandes amigos de Jack Kerouac e um nome incontornável da Beat Generation.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Jean-Pierre Melville - “Ofício de Matar” / “Le Samourai”



Jean-Pierre Melville – "Óficio de Matar" / "Le Samurai"
(FRANÇA – 1967) – (104 min. / Cor)
Alain Delon, François Périer, Nathalie Delon, Cathy Rosier, Jacques Leroy.



Nos dias de hoje muitos ficam fascinados pelo cinema “Made in Hong-Kong” e as coreografias de John Woo e seus descendentes, sendo a figura do gangster uma espécie de modelo em busca de afirmação num universo nocturno.
Tarantino com o seu “Cães Danados” / “Reservoir Dogs” afirmou muitas vezes que o sentido do seu cinema morava a Oriente, no entanto se olharmos para a obra de Jean-Pierre Melville e para este “Le Samourai”, vamos encontrar nele essa personagem eterna chamada Jeff Costello, o gangster por excelência, ou melhor o último dos samurais, regendo-se por códigos rígidos e imutáveis.
Chegamos assim à simples conclusão de que o cinema contemporâneo e em especial o policial deve imenso a esse autor chamado Jean-Pierre Melville, que elegeu o “polar” como um grande género. Este francês fez do “film noir” uma referência, construindo personagens à medida das suas intenções, com uma precisão digna de um fabricante de relógios suíço.


Alain Delon surge assim pela porta grande no universo de Jean-Pierre Melville, tendo participado em três películas, “Ofício de Matar” / “Le Samourai”, “O Circulo Vermelho” / “Le Circle Rouge”e “Cai a Noite Sobre a Cidade” / “Un Flic”, revelando-se um actor acima de qualquer suspeita.
No caso concreto de “Ofício de Matar” / “Le Samourai”, ele é um gangster que vive só, num apartamento onde a luz quase não penetra, sendo a sua única companhia um canário, que um dia o irá salvar da morte, essa morte adiada que o samurai sabe que um dia há-de chegar.


Com o seu chapéu a cair-lhe para o rosto e a gabardina de abas levantadas para não se lhe ver o rosto, ele prepara-se para mais um trabalho, sai de casa e rouba um carro, usando uma das muitas chaves falsas que possui, dirige-se até um colaborador numa garagem que lhe coloca novas matrículas no citroen roubado e lhe dá novos documentos, tudo isto debaixo de um silêncio perfeito, porque o momento não é de palavras, mas sim de acção, ou melhor do assassinato perfeito.
E assim acontece: Jeff Costello entra no cabaret e rapidamente executa a missão para que foi contratado, mas a pianista/cantora do quarteto de jazz cruza-se com ele e olha bem para o seu rosto.


Pondo-se em fuga, Jeff trata de colocar em marcha o seu álibi, porque sabe que vai ser preso, ele será um dos muitos suspeitos do costume a ser detido pela polícia, mas o seu álibi é sólido e sem falhas. Quando chega a altura de algumas testemunhas oculares o identificarem, incluindo a jovem pianista, todas elas afirmam não ser ele o assassino. E aqui Jean-Pierre Melville coloca a sua mão de mestre perante uma situação que todos sabemos ser imperfeita, porque Valérie (Cathy Rosier) sabe que ele é o assassino e Jeff sabe perfeitamente que ela o reconheceu, decidindo ir ter com ela para saber qual a razão porque não foi denunciado.

Jean-Pierre Melville e Alain Delon

Mas como todos sabemos o mundo do crime não é um mundo perfeito e será aqui que o samurai, com as suas regras, irá entrar em confronto com uma nova ordem, em que os amigos de hoje podem ser os inimigos de amanhã. E como nem todos os trabalhos são para ser executados, Jeff Costello parte naquela noite para executar a sua derradeira encomenda e tal como o samurai irá fazer o seu hara-kiri, conduzido pela mão brilhante de um cineasta chamado Jean-Pierre Melville.